FINESTRA: Inovalli Real State e Banco de Ideias, edifício Sêneca, São Paulo

Fachada gera energia com filmes orgânicos

Aplicados pela primeira vez em larga escala, os filmes orgânicos fotovoltaicos (OPV) estão presentes em 90 painéis de vidros laminados da fachada do edifício Sêneca, construído na zona Norte de São Paulo para abrigar a empresa Totvs

Especializada no desenvolvimento de sistemas de gestão integrada para players de todos os portes, a empresa brasileira TOTVS desejava uma nova sede com instalações que representassem suas atividades nas áreas de software, serviços e tecnologia. Assim, o edifício deveria ser sustentável e ter layout que priorizasse espaço abertos e estações de trabalho sem barreiras, para promover a livre circulação de pessoas, compartilhamento de ideias e a produção de conhecimentos. Além disso, era necessária a criação de ambientes diferenciados para reuniões e integração dos colaboradores, auditório e microcozinhas. Todas essas condicionantes foram analisadas pelos escritórios Inovalli Real State e Banco de Ideias para projetar o edifício Sêneca, construído no bairro da Casa Verde, zona norte de São Paulo.

O prédio, composto por três blocos, tem fachadas ventiladas, claraboias, coberturas verdes e outros recursos de sustentabilidade. Nas lajes escalonadas, a instalação de terraços externos, interligados aos telhados verdes, ajuda no isolamento térmico e acústico, benefícios também obtidos mediante os vazios internos posicionados nas maiores lajes. Os tetos verdes, com desenho orgânico em contraponto com as formas retas, foram pensados com colorações intercaladas de vegetação rasteira, que permite visualizar a paisagem. Os 5.300 metros quadrados de teto verde ajudam a amenizar a poluição e a combater o efeito de ilhas de calor, de acordo com o arquiteto Rafael Cosentino, diretor executivo da Inovalli.

Todo o perímetro da envoltória e coberturas foi projetado com amplos caixilhos que proporcionam iluminação natural. Na fachada frontal, adotou-se o sistema ventilado através da instalação de uma segunda pele de vidros laminados com película orgânica fotovoltaica (OPV), que promove a geração de energia solar e proporciona conforto térmico e redução energética considerável na eficiência dos equipamentos de ar condicionado.

Vidros orgânicos
Uma das novidades do projeto é a fachada norte, revestida com 90 painéis de vidros laminados com o filme fotovoltaico orgânico (OPV). Trata-se da mais nova geração de sistemas de energia fotovoltaica, gerada através do OPV - um filme leve, flexível e transparente formado por uma combinação de tintas orgânicas (Finestra 104, mai/jun de 2014). “A ideia de utilizar esse material surgiu há dois anos. Em busca de produtos com tecnologia de ponta, que pudessem ser incorporados ao projeto, a Inovalli descobriu essa nova forma de geração e uso da energia solar nas cidades”, lembra Rafael Cosentino. “No projeto da TOTVS, o microssistema fotovoltaico tem 2kWp de potência instalada. A energia gerada mantém mais de 65 posições de trabalho neutras em carbono e evita a emissão de aproximadamente 578 toneladas de CO2”, diz Verena Greco, gerente comercial da empresa Sunew, fabricante do filme. “Cada vidro com OPV tem duas saídas elétricas, uma positiva e outra negativa, nas quais estão instaladas eletrocalhas (junction boxes), que recebem os conectores, tipo MC4, para a conexão elétrica entre todos os vidros fotovoltaicos orgânicos do sistema. No final da conexão, cabos solares levam os polos positivos e negativos até o inversor de frequência, que, instalado na sala elétrica da edificação, é conectado ao quadro elétrico do prédio e depois à rede da concessionária de energia.

A previsão é que o microssistema gere 3,24 MWh/ ano. Como o microssistema está conectado à rede da concessionária, não há armazenamento de energia em baterias. A energia gerada é cedida à distribuidora e posteriormente compensada com o consumo de energia elétrica da edificação, por meio de créditos de energia válidos por 60 meses conforme a Resolução Normativa ANEEL nº 482/2012”, detalha Verena Greco.

No total, são 300 metros quadrados revestidos com vidros orgânicos de 11 milímetros na cor azul, produzidos com uma chapa de vidro extra clear 6 milímetros + filme fotovoltaico orgânico (OPV ) + película de laminação + vidro STB 136 de 4 milímetros. “Quando o OPV é laminado entre vidros, é necessário que o vidro externo seja incolor e com baixo teor de ferro, para que a luz alcance o painel de forma mais eficiente. Não há restrição de cor para o vidro interno”, explica Verena Greco. Os vidros instalados na TOTVS atendem os aspectos térmicos e acústicos. “Como o painel orgânico possui filtro de 99% UV e 75% de IR, ele melhora os aspectos térmicos. Os vidros possuem ainda fator solar de 0,22, coeficiente de sombreamento 0,25 e transmissão luminosa de 30”, conclui.

Composição das fachadas
Nesse projeto, o vidro, aplicado em coberturas, passarelas e fachadas, é um coringa, mas precisava atender algumas exigências. A primeira delas é que o vidro não poderia ser muito reflexivo, por conta da proximidade do edifício com o aeroporto Campo de Marte. A segunda condicionante é que o vidro não poderia ser muito fino, devido ao tipo de estrutura metálica na qual ele foi fixado.

De acordo com o arquiteto Rafael Cosentino, “as fachadas não são todas iguais. O desenho delas obedeceu às restrições de altura, resultando em faces escalonadas. A espessura e o tipo dos vidros foram especificados de maneira a proporcionar conforto térmico para o ambiente e eficiência no sistema de ar condicionado. Além de unir a modernidade de uma fachada high-tech ao conforto da iluminação natural, ele gera e capta energia solar e reduz o consumo de energia da nova edificação”. 

A Avec Design é a empresa responsável pelo desenvolvimento do projeto, das especificações, dimensionamento, detalhamento, fabricação e montagem de mais de 8.000 metros quadrados de envidraçamentos especiais. “Só de fachadas são 4.200 metros quadrados de vidro. A envoltória recebeu o sistema de fachada ventilada composta por duas peles de vidro afastadas entre si 60 centímetros”, explica José Guilherme Aceto, diretor da Avec Design. Segundo ele, na face interna foi adotado o sistema de caixilharia entre vãos com baguete e arremate na cor champanhe. São grandes janelas fixas e algumas pivotantes, liberadas apenas para uso técnico.

As esquadrias internas receberam vidros laminados incolores de 12 milímetros, encapsulados em perfis de silicone de alta densidade. As portas de acesso para limpeza e manutenção da fachada externa são de vidro temperado incolor de 12 milímetros, com vedação perimetral de perfis de silicone preto.

Na fachada externa, para a instalação dos vidros foi adotada uma estrutura de aço corten, fixada na estrutura do edifício. “Os vidros laminados azul de controle solar STB 136 de 8 milímetros estão fixados em quatro pontos com presilhas especiais que projetam os vidros para fora da estrutura. Estas peças com gaxetas de silicone permitem a retirada e substituição dos vidros de forma independente”, detalha Aceto. As chapas com modulação de 0,92 metro de altura e larguras de 2,00 metros e 1,875 metro foram instaladas na horizontal.

A junta entre vidros é de 2,5 centímetros e não recebeu vedação para auxiliar na ventilação. Na cobertura do edifício foram instaladas quatro claraboias com o sistema Ecoglazing da Avec Design. Os vidros duplos encapsulados de 28 milímetros foram aplicados sobre a estrutura de alumínio com perfil de silicone em todo perímetro, colados com silicone estrutural e fixados mecanicamente com garras e presilhas.

Edifício escalonado
O edifício é divido em três blocos, um de sete pavimentos e outro de cinco pisos, destinados aos escritórios - interligados por duas passarelas inseridas no primeiro e segundo andares -, e um terceiro bloco aberto ao público externo, que abriga áreas de alimentação, serviços e três subsolos de 10.950 metros quadrados cada. A área das lajes é variável: nos blocos de escritórios, os pavimentos têm entre 400 metros quadrados e 3.800 metros quadrados. No terceiro bloco, os dois pavimentos possuem 1.250 metros quadrados cada.

O edifício tem estrutura de concreto armado moldado “in loco”, sendo os andares de escritórios com lajes convencionais, e os de subsolos e de lojas com lajes tipo “cubeta”. A mesma composição, porém, com pilares de sustentação revestidos de chapa de alumínio composto, foi utilizada nas passarelas dos blocos de escritórios. Com aproximadamente 72 metros de extensão, as interligações receberam vidros laminados incolor de 10 milímetros e chapa metálica perfurada, instalada paralela aos vidros em ambos os lados da passarela. A solução minimiza a incidência dos raios solares, conferindo conforto térmico a essa área de circulação.



Ficha Técnica

Centro de Comércio e Serviços Sêneca
Cliente TOTVS e VIP VII Empreendimentos e Participações
Local Casa Verde, São Paulo
Área do terreno 14.000 m²
Área construída 61.313 m²
Projeto 2013 
Conclusão da obra 2017

Arquitetura e interiores Inovalli Real State e Banco de Ideias
Colaboradores Rafael Cosentino, Lúcia Souza Lima, Renata Siano, Natália Lima, Bruno Café Felice, Érika Ribeiro, Carolina Rabello, Lucas Veras , Laerte Rodrigues, Byanca Velasco, Igor Gianzantti e Bruna Malty 
Fundação, contenção e drenagem MG&A Consultores de Solos 
Estrutura Claudio Puga Engenheiros Associados
Projeto luminotécnico Mingrone
Acústica Harmonia Davi Akkerman + Holtz  AGBS, Alexandre Sresnewsky Acústica e Tecnologia
Construtora Inovalli Real State e Banco de Ideias
Fachadas Avec Design, engenheiro José Guilherme Aceto (fabricação e montagem) 
Fotos divulgação Sunew e RMA

Fornecedores

Avec Design (sistema de fachada)
Tvitec do Brasil, Cyberglass, Unividros (vidros)
Norte Lumi, Olga Color Alumínio (perfis de alumínio)
Soufer Industrial, Global Tubos (perfis metálicos)
Sunew (OPV)
Arqtec (industrialização e instalação)
Engestal (projeto)
Hunter Douglas (chapa perfurada)
Projeto Alumínio (ACM branco) 

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 439
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