FINESTRA

Componentes para esquadrias

Infiltrações, passagem de ruídos e até mesmo o desprendimento de folhas figuram na lista de problemas decorrentes do uso de componentes não conformes nas esquadrias. Expectativa do mercado é que a publicação de todas as partes da NBR 15. 969 contribua para elevar a qualidade dos produtos ofertados no mercado brasileiro

A especificação de componentes de baixa qualidade, inadequados e mal dimensionados, é responsável por diversas anomalias das esquadrias, a começar pelo mau funcionamento do conjunto durante a sua vida útil e o prejuízo no desempenho termoacústico da edificação. Sem falar nos riscos à segurança do usuário final. Por isso, a especificação correta dos componentes é fundamental para garantir o desempenho e funcionalidade desses sistemas.

“Uma porta ou janela de correr que utilizam um modelo de roldana inadequado com as solicitações do projeto - tais como peso, dimensão e pressão de vento - podem ter problemas com o deslizamento das folhas sobre os trilhos, vedação ou até mesmo de segurança. Se uma roldana desmontar, a folha pode escapar do trilho e cair sobre uma pessoa que estiver por perto”, alerta Crescêncio Petrucci Júnior, consultor de fachadas e esquadrias da Petrucci Engenharia e Consultoria.

Fechos e articulações (braços) das janelas projetantes (maxim-ar) mal dimensionados apresentam risco ainda maior, segundo o consultor. Nesses casos, a ação do vento pode provocar desprendimento da folha da estrutura da esquadria, pondo em risco a integridade das pessoas que circulam nas ruas. “As dobradiças, fechaduras e fechos, em geral, têm responsabilidades análogas de segurança e de garantia da estanqueidade das esquadrias”, completa.

Em geral, o mau deslizamento das folhas, por exemplo, poderá ocorrer em função do uso de roldanas, guias deslizantes e vedações de qualidade inferior, enquanto o uso de caixas de drenos e de vedações não conformes poderá comprometer, e muito, a estanqueidade e o desempenho acústico da esquadria. O uso de articulações não conformes, por outro lado, prejudica o desempenho de todo o caixilho.

Maria Teresa Faria e Godoy, arquiteta da Arqmate Consultoria e Projeto de Esquadrias, lembra que é sempre preciso pensar na esquadria como um todo. Por isso, não adianta montar uma esquadria com linhas consolidadas no mercado e instalar componentes de má qualidade ou não homologados, colocando em risco o desempenho do produto final e o próprio usuário.

Qualidade
Não é por falta de qualidade que esses desvios acontecem. O mercado brasileiro de componentes para esquadrias é diversificado e conta com fabricantes que já comercializam produtos com desempenho satisfatório. Mas, apesar de o mercado nacional oferecer uma grande gama de produtos conformes, é preciso ficar atento para separar o joio do trigo. Ainda é possível encontrar linhas de produtos com baixa qualidade a custos populares.

“Lamentavelmente o uso de produtos de baixa qualidade ainda acontece na prática, sobretudo quando se visa baixar custos”, confirma André Gallina, supervisor técnico da Udinese. Gallina lembra também que a pirataria ainda é uma prática corriqueira no setor. Produtos nacionais ainda são copiados na íntegra e colocados no mercado com as marcas de empresas idôneas. Por isso, é fundamental que as construtoras passem a exigir dos fabricantes certificados de procedência dos produtos e dos fabricantes. Embora não existam mecanismos de fiscalização para coibir a invasão de produtos não conforme na praça, a elaboração da NBR 15.969 (Componentes para Esquadrias), em conjunto com a NBR 10.821 (Caixilhos para Edificação - Janelas) e a NBR 15.575 (Norma de Desempenho), tem potencial para se tornar um divisor de águas nesse setor.

O texto da NBR 15.969 passa a indicar os requisitos de fabricação e de ensaio de diversos itens que compõem a esquadria, estabelecendo índices que devem ser atendidos. “Faltavam alguns critérios e informações sobre os produtos para determinar a qualidade de alguns componentes. Com os critérios sendo definidos pelas normas técnicas, as informações deverão constar nos catálogos e embalagens dos produtos”, observa Petrucci Júnior.

Novos paradigmas
De acordo com o consultor, a NBR 15.969 tem separado os diversos tipos de acessórios a fim de estabelecer critérios mais precisos para garantia da qualidade e funcionamento desses produtos. Com isso, o objetivo é facilitar que as esquadrias como um todo apresentem desempenho adequado.

Com a publicação das partes 1 (Roldana -  Requisitos e métodos de ensaio) e 2 (Escova de vedação) em 2011, o setor já acompanhou a evolução na qualidade desses componentes. Agora, aguarda a publicação das demais partes que tratam de fechos, articulações, persianas, dobradiças e componentes de náilon. Outras duas partes, que tratam de guarnições para vedação de esquadrias e elementos de fixação, poderão ser incluídas na norma (veja box no final da matéria).

A expectativa é que, com a publicação do texto, o próprio fabricante de esquadrias passe a cobrar dos fornecedores de componentes o atendimento e a comprovação da conformidade de acordo com o que prevê as novas normas técnicas publicadas. Os textos também passarão a definir responsabilidades claras de cada ator, gerando mais segurança às partes interessadas.

“Se uma esquadria apresentar problemas como a quebra do fecho, por exemplo, será possível verificar se esse componente estava ou não em conformidade com a parte 3 da norma. Caso contrário, o fabricante do fecho agora passará a responder solidariamente com o fabricante de esquadria, pois forneceu componentes em não conformidade com a norma técnica, que já especifica o mínimo de desempenho aceitável. Isso não acontecia antes”, observa Roney Honda Margutti, gerente de tecnologia do Sindicato da Indústria de Artefatos de Metais Não Ferrosos no Estado de São Paulo e coordenador da norma e da ABNT/CEE - 188.

Impacto
Todas as partes deverão prever alguns requisitos mínimos como marcações (identificação do fabricante após a instalação do produto e informações técnicas como carga máxima, dimensões, recomendações e instruções para instalação), requisitos contra arrombamento e esforço excessivo, e também sobre desempenho (resistência mecânica, à corrosão mínima e de durabilidade devido ao uso prolongado).

Os requisitos de desempenho substituirão as prescrições técnicas, o que, segundo Margutti, é uma tendência mundial que visa promover inovação tecnológica. “É mais importante especificar uma resistência mecânica mínima do material do que definir as espessuras e dimensões dos componentes, já que muitas vezes é possível obter um novo material mais resistente, mais leve e mais barato para sua produção.”

De acordo com a nova norma, os fabricantes também serão obrigados a orientar a instalação, uso e manutenção dos componentes aplicados na esquadria. Maria Tereza lembra que, com as normas que estão em elaboração, será possível, de forma comprovada, diferenciar os produtos não conformes ou com menor desempenho.

“As informações de desempenho do componente obtida nos ensaios será um grande avanço e um diferencial para o fabricante. Também facilitará no desenvolvimento de novos sistemas de caixilhos”, acredita a arquiteta. Segundo Kauê Piozzi, responsável pelo desenvolvimento de mercado comercial e marketing da Fise, com a NBR 15.969 o setor passa a contar com uma qualidade mínima exigida para o bom funcionamento de todos os conjuntos contidos nos componentes e nas esquadrias. Isso, segundo ele, nivelará o material base utilizado nos produtos e, consequentemente, equalizará os preços dos mesmos. “Será possível equipararmos os produtos de forma coesa, dividindo‑os por linhas e nichos de mercado”, prevê.

Vale lembrar que caberá aos consultores de esquadrias e fachadas especificar produtos que atendam de forma ampla os requisitos de desempenho previsto na norma. “Ou ainda aqueles definidos pelo próprio cliente, que em alguns casos podem ser superiores aos da norma”, observa Petrucci Júnior.

Normas mães
Além de ser ancorada na norma NBR 10.821 (Caixilhos para Edificação - Janelas), a NBR 15.969 também leva em conta os critérios de desempenho previstos pela NBR 15.575 (Norma de Desempenho), que trata das vedações verticais dos edifícios das quais a esquadria é parte integrada. Portanto, tanto a resistência como a durabilidade desse elemento deverão estar alinhadas com a do edifício.

Coordenador da norma, Roney Honda Margutti explica, no entanto, que alguns conflitos surgiram ao longo dos trabalhos para sua elaboração. Durante a análise da Consulta Nacional para a liberação da parte 4, que trata das articulações, em especial, o requisito sobre a força necessária para a abertura das janelas maxim-ar mereceu destaque. “O peso da folha faz esforço contra o fechamento, então a NBR 15.969-4 sugeriu que o esforço máximo de fechamento estivesse relacionado com o peso da esquadria. Porém, em função da NBR 10.821 ter uma especificação clara para um esforço máximo para fechamento de 50 N e para abertura de 100 N, tivemos de adotar esse parâmetro independentemente do peso da janela”, conta.

Avanços tecnológicos
Nos últimos anos, grandes fabricantes foram adquiridos por empresas multinacionais do mesmo segmento e tiveram um grande impulso para melhorar sua estrutura de produção, distribuição e marketing. Um dos maiores avanços do setor, no entanto, foi a ampliação da oferta de produtos com características de desempenho e funcionalidade mais avançadas, comumente utilizados nos mercados europeu e americano.

“Surgiram novidades como os sistemas digitais para fechamento de esquadrias e sistemas de automação, além de novas tecnologias, como as fechaduras digitais e eletrônicas, e motores de persianas com acionamento por voz ou via celular”, conta Gallina. O supervisor técnico da Udinese, empresa que trabalha com produtos importados da Ásia e Europa, observa que ainda há muito a avançar. “Sobretudo na produção de roldanas, braços e fechos mais inspirados em componentes automotivos, fechos embutidos, braços e sistemas de correr como amortecimentos de fim de curso e soluções de automação.”

Para a arquiteta Marcia Giberni, gerente de projetos especiais da Roto & Fermax, com a publicação da NBR 15.969, os requisitos de acústica passaram a ter mais visibilidade, o que levou o setor de esquadrias de alumínio a buscar soluções para atender a esses requisitos. Nesse novo cenário, as tipologias e soluções europeias também ganharam destaque no mercado nacional, influenciando o desenvolvimento de novas linhas nacionais. “Atualmente já é comum os perfis de câmara europeia nas linhas brasileiras, o que é fundamental para o uso de componentes de alto desempenho”, conta.

A arquiteta observa que há um esforço do setor para desenvolvimento de soluções com melhor desempenho acústico a preços mais competitivos. “Até então, essa tecnologia tinha preços proibitivos e só era usada em empreendimentos de alto padrão”, diz ela. Vale ressaltar, no entanto, que alguns produtos importados possuem certificados baseados em normas estrangeiras.

Como cada norma possui critérios e métodos de avaliação diferentes, não é possível dizer com segurança qual delas é mais restritiva ou branda, simplesmente porque são diferentes. “Nesses casos é sempre importante solicitar ensaios com os critérios das normas brasileiras, afinal o que vai ser requerido legalmente é o atendimento às normas nacionais”, sugere Petrucci Júnior. 

Texto de Gisele Cichinelli| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 439
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