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Escritórios do século 21

Flexibilidade é a palavra-chave do ambiente de trabalho contemporâneo. Ao arquiteto cabe conciliar as mais diferentes variáveis para atender às múltiplas condições de uso do espaço e ainda assegurar eficiência, conforto e o uso racional da energia elétrica


Projeto de SCAA para a Artplan, no Rio de Janeiro. O escritório ocupa meia laje do edifício onde funciona o Casa Shopping, na Barra da Tijuca. As soluções de piso incluem laminado vinílico, bambu e carpete 

O bom projeto para um escritório open space não se limita à distribuição adequada das estações de trabalho e às boas propriedades ergonômicas do mobiliário. Hoje, a flexibilidade dos postos e a variação na ocupação dos espaços estabelecem demandas mais complexas e constituem aspectos decisivos do projeto. Iluminação, soluções termoacústicas e de instalações, pisos elevados e divisórias são protagonistas nesse cenário e precisam ser compatíveis para que não haja interferência entre um e outro, explica Sergio Camargo, titular do escritório SCAA - Sergio Camargo Arquitetos Associados, que tem sólida experiência com a arquitetura corporativa. De acordo com o arquiteto, há dois tipos de escritórios open space.

O primeiro apresenta departamentos fixos e interligados numa sequência lógica, em acordo com o fluxo das tarefas. O segundo, permite que os funcionários ocupem diferentes postos de trabalho, seja porque atuam com diversas equipes ou porque preferem se sentar periodicamente em lugares distintos. Essas formatações podem estar presentes no mesmo escritório. Em ambos os modelos, a tendência é não haver salas fechadas para a diretoria. O posto de comando é identificado por diferenças sutis na mesa ou ainda pela presença de uma pequena divisória que não isola o diretor no espaço. “A exceção costuma ser o presidente, que ainda mantém sua sala fechada”, detalha Camargo.

Ar condicionado e infraestrutura
Entre os inúmeros projetos do portfólio da SCAA está a sede da Artplan, uma das principais agências de publicidade do Rio de Janeiro. Concluído em 2015, o escritório ocupa meia laje do edifício de três pavimentos onde funciona o Casa Shopping, na Barra da Tijuca. São 2,5 mil metros quadrados com grandes janelas e pé-direito generoso de 4,5 metros. No total são 450 postos de trabalho e salas de reunião em um espaço homogêneo e fluido, sem barreiras visuais. O conjunto apresenta soluções para conforto acústico e térmico, como três casas de máquinas de ar condicionado acomodadas sobre mezaninos, criados para essa finalidade, e placas coloridas suspensas, com lã de rocha por cima, que constituem nuvens acústicas.

1 - No projeto da Artplan, placas acústicas coloridas e dutos de ar condicionado aparentes se destacam no alto do ambiente com pé-direito de 4,5 metros / 2 - Sergio Camargo usou a cor vermelha e os padrões amadeirados para tornar mais caloroso o espaço marcado pela forte presença de concreto e vidro (Fotos: Nelson Kon)


Com relação à climatização dos ambientes corporativos, é possível optar por dutos de ar condicionado aparentes ou ocultos pelo forro. A escolha leva em conta a melhor forma de distribuição do ar no espaço e o perfil da empresa. Se o projeto de distribuição de ar necessitar de muitos dutos com ramificação do tipo costela, o excesso de ramais no teto pode comprometer a estética do ambiente, e nesse caso o uso do forro é recomendado. Dutos ocultos devem ser isolados termicamente, pois há diferenças de temperatura acima e abaixo do forro. No caso de dutos aparentes essa diferença não existe, o que dispensa isolamento.

O sistema de ar condicionado pode ser do tipo central ou composto por máquinas menores, do tipo split, distribuídas pelo espaço - ambos podem ser utilizados conjuntamente a fim de atender necessidades financeiras ou técnicas. As máquinas do tipo split possibilitam controle da temperatura e do gasto energético nos ambientes.

No sistema central, esses controles ficam por conta do VAV (volume de ar variável), controle eletrônico da vazão do ar que permite diferentes regulagens, inclusive mudar a temperatura em cada face do projeto automaticamente, de acordo com o percurso do Sol pela fachada, explica Camargo. Por questões de saúde, tanto a Resolução nº 9/2003 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como a ABNT NBR 16401:2008 (atualmente em revisão) estabelecem parâmetros obrigatórios de renovação do ar interno. “Essa meta é mais facilmente alcançada com o sistema do tipo central. É um desafio ter grandes dutos para garantir a renovação do ar em máquinas separadas”, afirma Camargo.

A maioria dos escritórios possui infraestrutura para rede elétrica, de dados, CFTV com controle de acesso e TV a cabo com sistema para videoconferências, destaca o arquiteto. “Eles diferem mais pelo tipo de cabeamento em acordo com a performance desejada. “Uma agência de publicidade trabalha com imagens de alta resolução e tem demandas diferentes das de um escritório onde se usa apenas arquivos de texto ou planilhas”, exemplifica.

Segundo Camargo, há em média 1,25 cabo de rede por pessoa em um escritório, fora os da rede elétrica e de telefonia. O cabo de rede deve sair do CPD ou do rack de distribuição e chegar até o ponto do usuário sem nenhuma emenda. Sempre que essa distância for superior a 90 metros, será necessário implantar outro rack de distribuição, que deve ser ligado diretamente ao CPD por fibra ótica para suportar o tráfego pesado de dados. Em escritórios em que o CPD não pode parar, é comum haver no-break e gerador para evitar seu desligamento em caso de falta de energia.

Conforto acústico
Com 9.275 metros quadrados divididos por cinco andares, o escritório Ernest Young Auditores Independentes, em São Paulo, tem interiores assinados pelo escritório Athié Wohnrath. A acústica foi tratada pelo cliente como um investimento na produtividade dos funcionários. “Esse conceito foi aplicado a todas as áreas de colaboradores, desde espaços open-plan, escritórios fechados e salas de reuniões”, detalha o arquiteto Marcos Holtz, sócio diretor da Harmonia Acústica, de São Paulo, que desenvolveu o projeto de acústica.

Entre as peculiaridades do escritório, está o “desapego”, ou seja, a possibilidade de um funcionário trabalhar em qualquer mesa de qualquer andar, bastando agendar seu uso com antecedência. Outra é o fato de o escritório ter muitas salas pequenas, nas quais seria mais difícil manter conversas confidenciais. Nesses espaços foi utilizado drywall, divisórias com vidros duplos e portas com vedação perimétrica, sempre que a confidencialidade era prioritária. Nas demais, foi adotado o padrão standard, com drywall duplo e lã mineral interna, que oferece privacidade em situações de conversas e reuniões com nível sonoro normal. Nos open plans, o posicionamento das estações de trabalho baseou-se no estudo das distâncias entre elas para verificar a privacidade e distração resultantes. Além disso, foram especificados forros acústicos de alto desempenho.


1 - Espaço usado como área de espera e sala de reuniões informais na Ernest Young. As luminárias lineares cortam o forro modular de alto desempenho acústico/ 2 - Nos open plans da Ernest Young, o posicionamento das estações de trabalho foi determinado com base em estudo das distâncias entre elas para verificar a privacidade e raio de distração (Fotos: Athié Wohnrath/ Jafo Fotografia)


Segundo Holtz, esta variedade de ambientes exigiu critérios baseados na principal utilização. “Os opens plans receberam tratamento dimensionado para uma utilização típica do escritório, e se o colaborador não se sentir confortável devido ao ruído gerado pelos colegas ao lado, ele pode escolher uma estação em uma zona mais silenciosa”. Em conjunto, são soluções que comprovam o fato de que a “adequação acústica do espaço resulta em mais rendimento dos colaboradores, com menos erros e ganhos nítidos em distração e privacidade”, afirma o arquiteto.

Segundo ele, o projeto de acústica para escritórios toma como ponto de partida a rotina de trabalho prevista - se os funcionários usam muito o telefone ou se as equipes são pouco ou muito colaborativas, por exemplo. “A partir daí são definidos critérios de incômodo, privacidade e distração seguindo a norma ISO 3382-3. A norma técnica em português já foi aprovada e está em consulta pública aguardando publicação”, comenta. Os critérios principais são o raio de distração (rD) e o D2S (redução sonora quando dobra-se a distância). Os revestimentos, o ruído ambiente oriundo do exterior e do ar condicionado, a existência de biombos e o próprio layout afetam o resultado acústico e devem ser levados em conta nas simulações de projeto.

O mercado oferece diversas soluções acústicas para interiores de escritórios e o ideal é optar pelos materiais fonoabsorventes de alto desempenho, forros Classe A ou B, painéis acústicos de parede, cortinas, biombos com material acústico e carpete. Segundo o arquiteto, nos salões sem forro podem ser aplicados materiais acústicos diretamente sobre a laje ou podem ser utilizados recursos como nuvens acústicas ou baffles.

Já os materiais rígidos, acabamentos em geral, vidros, pisos frios, paredes, forros lisos pintados e painéis cegos atuam como bons isolantes acústicos, porém provocam a reverberação sonora interna, condição que torna os ambientes menos confortáveis acusticamente.


3 - Carpete e forro acústico de alto desempenho tornam os ambientes de trabalhos mais confortáveis acusticamente, o que aumenta a produtividade dos colaboradores da Ernest Young/ 4 - As salas que exigem confidencialidade são delimitadas por drywall e divisórias com vidros duplos, e possuem portas com vedação perimétrica. As demais são feitas com drywall duplo com recheio de lã mineral (Fotos: Athié Wohnrath/ Jafo Fotografia)


Para evitar esse problema, o uso desses materiais rígidos e lisos deve ser balanceado com materiais mais leves e porosos, de função fonoabsorvente, que podem ser aplicados no piso, no teto ou nas paredes, explica Davi Akkerman, criador e sócio diretor da Harmonia Acústica. “Divisórias de vidro costumam ser utilizadas nos escritórios combinadas a carpetes e forros acústicos. Esse equilíbrio de materiais no ambiente elimina o problema da reverberação de modo que o projeto pode tirar partido de todas as funções da estética, e da espacialidade do vidro”, exemplifica Akkerman.

Sistema de iluminação
A arquiteta Monica Lobo, do carioca LD Studio, explica que a prioridade da luminotécnica é privilegiar a tarefa realizada no ambiente a ser iluminado. Para isso o profissional deve conhecer as ferramentas de iluminação e os meios de oferecer qualidade e quantidade de luz sem desperdício de energia elétrica e em acordo com as normas técnicas - no caso de escritórios, são exigidos 500 lux no plano de trabalho.

Homogeneidade e controle de ofuscamento são características essenciais de qualquer projeto, mas por si só não garantem um ambiente estimulante. “O caminho mais fácil para criar uma iluminação agradável é misturar luz direta e indireta”, ela destaca. É importante considerar a possibilidade de o usuário interferir na luz e também a utilização de recursos de humanização, como a dimerização ou sistemas que permitam mudanças da temperatura de cor ao longo do dia, acompanhando o ciclo circadiano (período de aproximadamente 24 horas sobre o qual se baseia o ciclo biológico dos seres vivos, influenciado pela variação de luz, temperatura, marés e ventos entre o dia e a noite). ”Existem esquadrias com aletas próprias para refletir a luz do dia para o interior, o que garante conforto e dispensa a luz artificial na maior parte do tempo. Porém, esses sistemas só funcionam em ambientes com pé-direito acima de três metros”, exemplifica Monica.

Há diversas opções de produtos e faixas de preço para os componentes do projeto luminotécnico. De acordo com Monica, um orçamento básico pode incluir conjuntos ópticos para luz direta e indireta difusa com fluorescente T5, ou um sistema integrado de LED, com luminária e lâmpada. Outra opção econômica é o painel modular de LED, que acende como um todo, e está disponível nas medidas 62,5 x 62,5 cm e 1,25 x 0,30 m. “Usamos esse painel em um escritório aqui no Rio e o consumo de energia é de 5W/m2”, afirma. Setorizar os circuitos de iluminação e usar sensores de presença para garantir economia e conforto também são pontos essenciais do projeto.

O LD Studio foi o responsável pela luminotécnica do Leblon Offices, escritório de uma instituição financeira que ocupa o edifício de linhas elegantes projetado por Richard Meier e RAF Arquitetura [leia PROJETO 432, de julho/agosto de 2016]. Neste projeto, a iluminação geral das áreas de trabalho é dada por pendentes equipados com fluorescentes T5 de 28W. O conjunto oferece luz direta e indireta simultaneamente e apresenta uma relação de consumo de 7W/m2. “A luz direta, controlada por refletor, ilumina o plano de trabalho, enquanto a indireta, por reflexão no forro branco, torna o ambiente mais agradável e sem sombras”, destaca Monica. A luz refletida no forro ou nos planos verticais é a marca do projeto e reaparece em diversos espaços, inclusive nos banheiros e no hall do elevador para automóveis, junto da entrada principal.


Fachada iluminada do Leblon Offices, com projeto arquitetônico de Richard Meier e RAF Arquitetura e luminotécnica do LD Studio. Na lateral direita, o hall do elevador para automóveis tem luz de piso que ilumina o ambiente por reflexão. Na recepção, à esquerda, foi usada luminária linear de LED com controle de brilho (Foto: Andres Otero)


A fachada do edifício é marcada por uma persiana metálica externa, que funciona como um brise. Ela atua em conjunto com as cortinas rolô internas, para filtrar o excesso de luz. Para integrar a iluminação natural com a artificial, foi criada uma sanca externa com projetores por trás do brise. Esse conjunto ilumina toda a parte frontal da construção, fazendo o prédio parecer uma caixa de luz.

Pisos elevados e divisórias
Segundo a arquiteta Renata Marques, do escritório Renata Marques Arquitetura, o piso elevado é a solução para organizar e ocultar a passagem das instalações em geral e até mesmo dutos de ar condicionado. Ele é de fácil instalação, permite acesso para a manutenção, simplifica mudanças de layout e ainda pode ser removido para reaproveitamento em outro local. Tudo isso explica porque o piso elevado é utilizado na grande maioria dos projetos de escritórios atualmente. “A exceção fica para os escritórios de pé-direito mais baixo, que não conseguem assegurar as alturas piso-teto mínimas que os códigos de obras municipais estabelecem para as áreas de permanência”, explica Renata.

Os pisos elevados apresentam diferentes modulações e capacidades de carga e a escolha do tipo ideal é regida pela ABNT NBR 11802:1991 - Pisos elevados - Especificação. A arquiteta alerta que o projetista deve consultar o calculista sobre a carga na estrutura e ficar atento às interfaces do piso com caixilhos, elevadores e outros itens, a fim de evitar desníveis em discordância com as normas de segurança contra incêndio e de acessibilidade.


1 - Para garantir privacidade nas salas de reunião, foram usadas divisórias tecnológicas de vidro com películas ligadas à rede elétrica. Ao acionar um simples botão, o usuário deixa o vidro translúcido ou transparente/ 2 - Salas de reunião com as divisórias tecnológicas na opção transparente. À direita, o vazio descoberto do edifício é vencido por pontes em cada andar, que conduzem ao bloco dos fundos, onde estão a escada e os sanitários/ 3 - A luz de piso cria o efeito wall wash para iluminar a escada de desenho escultural (Foto: Andres Otero)


Versáteis, os pisos elevados admitem diferentes acabamentos que podem ou não necessitar de uma placa de apoio feita com ardósia ou alumínio. Segundo Renata, entre eles estão granito, pedras, carpete em placas, laminados de madeira e vinílicos, além de cerâmicas e porcelanatos próprios para uso com pisos elevados. “O fabricante dirá se o material tem resistência ou se precisa de uma placa de apoio”. Seja qual for a opção, é importante que o revestimento tenha a mesma paginação do piso elevado e que o projeto considere a altura total do conjunto, da base ao acabamento. “O mínimo é trabalhar com dez centímetros de altura, mas o ideal é ter um piso elevado de 15 centímetros, já contando o revestimento”, afirma Renata.

No campo das divisórias, a arquiteta destaca os modelos modulares com fechamento em laminado melamínico ou vidro laminado, com ou sem persianas embutidas. As medidas dos módulos variam conforme o fabricante, mas gira em torno dos 2,70 metros de altura por 0,90 metro de largura. A espessura de dez centímetros permite embutir dutos para instalações de elétrica, rede e voz. Quando há exigências acústicas mais rigorosas, é possível usar portas mais robustas e aplicar material isolante no interior das divisórias.


Vista geral do escritório Renata Marques Arquitetura. O espaço é integrado, sem barreiras visuais. O edifício antigo, com pé‑direito baixo, impossibilitou o uso do piso elevado (Foto: Renata Marques Arquitetura)


Alternativas bastante difundidas, as divisórias de vidro laminado são executadas sob medida, nas opções transparente, translúcida ou serigrafada. Elas dependem de um projeto especializado para garantir bom desempenho acústico. Há ainda as baias que integram as linhas de mobiliário de escritório. Elas são projetadas com diferentes alturas para atender especificidades de projeto - as menores têm cerca de 20 centímetros de altura, a partir do tampo de trabalho.

Texto de Nanci Corbioli| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 438
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