A Casa Modernista aguarda o prometido restauro:

O que o Escotismo têm a ver com a Arquitetura Moderna no Brasil ?

A pergunta pode parecer descabida, mas não para quem, nos últimos anos, visitou a casa da rua Santa Cruz, 325, na Vila Mariana, São Paulo. Com autorização da Secretaria de Estado da Cultura, um grupo de escoteiros realiza no local seus treinamentos

Aqueles que se preocupam com a memória da arquitetura brasileira não esperavam que o terreno onde está implantada a primeira casa modernista no Brasil viesse a se tornar local para a prática do escotismo.

Projetada por Gregori Warchavchik, arquiteto russo radicado no Brasil, e inaugurada em 1927, a Casa Modernista foi tombada na metade dos anos 1980, depois de os moradores da região se mobilizarem para impedir a demolição e a destruição de seu jardim, programadas por construtora que planejava erguer no lote um condomínio residencial.

Em 1984, a edição 69, de PROJETO noticiava a abertura de mostra na qual seriam exibidas as iniciativas da população para impedir a destruição da área. O movimento, mais tarde transformado em Associação Pró-Parque Modernista, destacava a importância cultural do imóvel e enfatizava a necessidade de preservá-lo, bem como seu jardim.

Antes do início da exposição, porém, a Secretaria de Estado da Cultura assinou o ato de preservação do casa. Posteriormente, viriam seu tombamento (em 1986) por parte do Condephaat e o reconhecimento como importante patrimônio tanto pelo Iphan como pelo Conpresp, órgãos de preservação em âmbito federal e municipal, respectivamente.

O cerco protetor não representou a efetiva garantia de preservação: a casa encontra-se em estado de avançada deterioração, a tal ponto que alguns julgam não ser mais possível recuperá-la. "Será necessário reconstruí-la", acredita o arquiteto Ciro Pirondi, ex-presidente do IAB-DN, que há cerca de três anos tentou implantar no parque uma escola de arquitetura. O projeto de Pirondi, no entanto, esbarrou na oposição da Secretaria da Cultura e enfrentou a resistência da Associação Pró-Parque Modernista, receosa de que a intervenção prejudicasse o parque-jardim que envolve a residência.

A Secretaria da Cultura anunciou, no ano passado, a disposição de reformar a casa. Chegou mesmo a realizar licitação nesse sentido, sem haver, porém, nenhum projeto de restauro. Arquitetos se mobilizaram e, em debate no IAB-SP, conseguiram obter do presidente do Condephaat - organismo subordinado àquela secretaria - o compromisso de interferir junto à construtora para que a obra não fosse realizada sem o devido projeto. Nessas idas e vindas, o único progresso é o da degradação do imóvel.

Para o arquiteto Marcos Carrilho, que desenvolve trabalhos na área de patrimônio, há condições de o restauro ser feito. Além disso, em sua opinião, a secretaria deveria definir o destino a ser dado ao imóvel. Carrilho lembra também que, quando da definição do imóvel como Z8-200 (zoneamento destinado à preservação de imóveis de valor histórico), o presidente da Câmara Municipal era o atual secretário paulista da Cultura, Marcos Mendonça, que disse à época: "Mais tarde, os moradores poderiam visitar a casa, tendo acesso aos seus jardins, e usufuir das instalações do parque".

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 256
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