Artigo

Carlos Fortes: 30 anos dedicados à iluminação

O nome Carlos Fortes foi surgindo naturalmente como tema de matéria desta edição conforme avançávamos no desenvolvimento da pauta. É de sua autoria, e da equipe do escritório que ele lidera, o Estúdio Carlos Fortes - Luz + Design, a concepção da iluminação de grande parte dos projetos elencados para publicação. Deles, efetivaram‑se duas lojas paulistanas (concebidas pelo Estúdio Tupi), uma escola no Rio de Janeiro (MPG Arquitetura) e um escritório em São Paulo (TODOS Arquitetura + ENTRE Arquitetos). Evidenciar, com o desenho da luz, o partido arquitetônico é a tônica dos projetos de Fortes

Por Evelise Grunow

Em 2018, Carlos Fortes comemorou três décadas de atuação na área do lighting design. Formado arquiteto e urbanista em 1986 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1988 deixou o escritório de Paulo Casé e Luis Acioli, no qual ingressara como estagiário, para integrar a equipe do escritório de Esther Stiller e Gilberto Franco, em São Paulo.

A dupla era constante colaboradora do escritório de Casé. Embora a pouca atenção dada na faculdade à disciplina, foi no lighting design, testemunha Fortes, que ele encontrou o seu caminho na arquitetura.

Permaneceu no escritório até 1997, quando, juntamente com Gilberto Franco, abriu negócio próprio: o Franco + Fortes Lighting Design. A parceria foi duradoura e profícua, até que, em 2012, os sócios decidiram seguir caminhos independentes.

O intuito de Fortes era constituir um estúdio pequeno, com poucos projetos sendo desenvolvidos simultaneamente, mas o volume de trabalho rapidamente o fez mudar de plano e endereço. Já em 2014 passou a ocupar um escritório maior, na rua General Jardim, em São Paulo, onde continua sediado.

Parte dos trabalhos da sua carreira solo são continuidade de tipologias já desenvolvidas na época da sociedade com Gilberto Franco. É da autoria do escritório de Carlos Fortes, por exemplo, o projeto de iluminação do Sesc Avenida Paulista, em São Paulo, concebido por Königsberger Vannucchi Arquitetos.

Para a instituição, que contrata projetistas complementares através de concorrências abertas, Fortes está concebendo também a iluminação da unidade Dom Pedro II, no centro de São Paulo, cuja arquitetura é de autoria do Una Arquitetos. O desafio, analisa Fortes, é o tamanho e complexidade inerentes aos projetos do Sesc, somados à simplicidade do projeto do Una, predominando estruturas aparentes.

Clientes corporativos continuam frequentes na sua carteira de trabalhos, e nesses sete anos de trajetória já completados pelo seu estúdio têm sido constantes os projetos de iluminação de residências, que Fortes não costumava gerenciar na antiga sociedade.

A profissão mudou completamente nesses 30 anos de carreira de Carlos Fortes. Tanto no que diz respeito ao reconhecimento conquistado entre arquitetos, clientes e empreendedores - é raro atualmente que o projeto de lighting design entre tardiamente na concepção do empreendimento - quanto a transformações na indústria, brasileira e mundial. O LED impera, dada a sua longevidade e versatilidade; o requisito da eficiência energética para a certificação de projetos, sobretudo corporativos, confere à iluminação papel de destaque; o tipo de instalação necessária para a implantação dos projetos é nova, inclusive por causa da recorrente automação dos sistemas, e a manutenção não é mais tabu.

É grande o ciclo de vida das lâmpadas LED, na ordem de 50 mil horas de uso. Mais recentemente, o desenho de luminárias passou a se ater também às questões da ótica e fotometria, aliando eficiência técnica à estética dos objetos.

A maior parte dos projetos do estúdio está concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro, sendo desenvolvidos em quatro etapas: estudo preliminar, anteprojeto, projeto executivo e detalhamento. Depois de tudo instalado, chega o momento de fazer a programação da automação, que tem sido constante nos projetos.

Perguntado sobre a identidade do seu trabalho, Fortes responde que não saberia defini-la verbalmente. “O que gosto é ouvir o arquiteto. Meu objetivo é fazer com que cada projeto interprete bem e ajude a arquitetura a ser bem vivenciada.”

Uniflex (SP)
Carlos Fortes presenciou o desenvolvimento do projeto de iluminação da loja Forma (de Paulo Mendes da Rocha) pelo escritório de Esther Stiller e Gilberto Franco, do qual era funcionário na época. No início dos trabalhos para a adaptação do imóvel para sediar o showroom da Uniflex - projeto do Estúdio Tupi (leia matéria nesta edição) - permanecia no local quase que integralmente o sistema de luz original, cujo princípio de diferenciação luminosa das zonas que constituem o edifício - pé-direito duplo e simples (na área do mezanino) e vitrines - foi mantido por Fortes na Uniflex.

Luminárias fluorescentes e projetores de vapor metálico eram antes embutidos nas grades metálicas que recobriam as lajes, removidas agora para a troca do sistema acústico. Ele foi substituído por um conjunto formado por forro liso de gesso, pintado de preto, e placas acústicas quadradas (1,20 metro de lado) a ele sobrepostas. A modulação das placas acompanha aquela da estrutura do edifício e o afastamento entre elas é maior na vizinhança das vigas transversais.

É nesta malha ortogonal que se inserem trilhos eletrificados com projetores orientáveis, no pé-direito duplo, e luminárias lineares de luz difusa, na zona do mezanino. Tudo automatizado e enfatizando a linearidade do desenho. Em termos de tipologia de iluminação, a novidade são as caixas criadas pela arquitetura nas faces internas das fachadas frontal e posterior, como se fossem janelas.

Além de funcionarem como mostruário das cortinas, elas são também retroiluminadas com lâmpadas LED com temperatura de cor que varia de 3.000 Kelvin a 5.000 Kelvin. O espectro visa simular as variações da luz diurna, de modo que, também de forma automatizada, no final da tarde a loja seja banhada por uma luz amarelada e no meio do dia a luz artificial seja branca. Varia também a intensidade da fonte luminosa - em sincronia com o posicionamento das cortinas - sempre através de cenários definidos por automação.

Salas envidraçadas, soltas da cobertura, e laje do mezanino, foram criadas para abrigar salas de trabalho, de reunião e um home theatrer, iluminados de modo convencional e conforme as necessidades específicas de cada ambiente. Em comum entre eles, há o princípio de distanciamento do forro em relação à estrutura metálica periférica do nicho.

NK Store (SP)
Carlos Fortes integrou a equipe do Estúdio Tupi no concurso fechado promovido pela proprietária da marca NK, de vestuário, para a criação da sua nova loja, na rua Haddock Lobo, em São Paulo. Eles venceram a competição e levaram adiante a ideia de fazer do local uma casa de moda, com soluções expositivas não convencionais.

Tanto roupas como acessórios podem desaparecer da vista do visitante, escondidos atrás de cortinas e dentro de nichos de armários. A planta do imóvel - que é a união de duas construções existentes - é em forma aproximada de T, e nos dois pavimentos abertos ao público as araras foram posicionadas nas laterais, alongando-se em toda a extensão do corpo principal. Elas são iluminadas por dentro e por fora, ou seja, quando fechadas as cortinas, as araras funcionam como um volume luminoso, deixando entrever o vulto das roupas em seu interior.

O traçado retilíneo da iluminação é interrompido nos provadores, com rasgos para luz indireta abertos no forro, acompanhando a planta arredondada das cortinas. Uma das questões da iluminação foi equilibrar a temperatura de cor da luz artificial. O intuito era valorizar as tonalidades quentes - em contraponto ao cinza do concreto do piso -, mas a onipresença de folhas de madeira pau-ferro na marcenaria - que é peça-chave no projeto de interiores - fez com que se aumentasse para 3.000 Kelvin a temperatura. Neutraliza-se em parte, assim, a tonalidade vermelha da madeira.

Escola Eleva, Barra da Tijuca (RJ)
Tratando-se de uma reforma de imóvel existente, o projeto arquitetônico da escola Eleva (MPG Arquitetura) da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, tem como um dos elementos de identidade o recobrimento da totalidade das fachadas com elementos diagonais dispostos de forma randômica, como se fossem galhos. O projeto de iluminação concebido por Carlos Fortes dá vida a esse elemento arquitetônico, iluminando-o de trás para frente.

Nos espaços internos, a diretriz foi conferir versatilidade à iluminação. O ginásio, por exemplo, é equipado com dois tipos de refletores, sendo que aqueles de fachos concentrados são para uso em eventos sociais. O mesmo ocorre nas circulações, sendo que as luminárias - soltas do forro - por vezes acolhem barras de LED, fechadas com placa de acrílico e, por outros, difusores de alumínio, que valorizam a exposição de trabalhos dos alunos.



Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 448
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