Ruy Ohtake: Fachada do Hotel Unique, São Paulo

No início, a forma

O hotel fica em um corredor comercial, em meio a arborizada zona residencial, com gabarito máximo de 25 metros. É uma espécie de hotel design, com espaços diferenciados e atendimento personalizado.

Porém, ao contrário da adaptação de edifícios feita mundo afora pela dupla Ian Schrager (empresário) e Philippe Starck (designer), o Unique foi inteiramente construído. Devido à sofisticação pretendida, o projeto atendeu a um pré-requisito que é um desafio e, ao mesmo tempo, o anseio de qualquer profissional do traço: ele teria, a todo custo, que destacar-se pela arquitetura. Dito e feito: ninguém fica indiferente ao volume criado.

Ohtake, ciente do risco, desafia e postula: “Inicia-se um projeto pela forma”. O corpo principal do hotel, que abriga os apartamentos, possui a forma de arco invertido, cuja associação imediata pode ser um barco. Ele está suspenso do solo e é revestido por placas de cobre com aberturas circulares.

A face inferior possui acabamento em maçaranduba, em réguas de 30 cm de largura. Nas pontas, ele está apoiado por empenas de concreto.

Sob o arco - simétrico, puro e preciso - há outro volume, de vidro e concreto - assimétrico, irregular e impreciso -, destinado ao lobby.

Frente à "esfinge", essa rápida leitura é insuficiente para desvendar as intenções do autor. O volume em arco parece, à primeira vista, apoiar-se somente nas extremidades, uma vez que sob ele há, aparentemente, um bloco de vidro. Se assim fosse, a estrutura seria um pórtico incrível, em que a forma da viga-volume lembraria o diagrama das forças da carga estrutural.

Mas, além das empenas, oito pilares dentro do volume de vidro sustentam o de cobre. Fica claro que a intenção formal sobrepõe-se à expressão estrutural. Formado entre a escola paulista e a carioca (leia entrevista), com o passar do tempo, Ohtake afastou-se do pragmatismo dos paulistas, que, entre outras coisas, pregavam a rígida “verdade estrutural”.

Ao preferir a leveza ao peso e a forma à “verdade”, o arquiteto pende para Niemeyer, que também inicia o desenho dessa maneira. Na obra de Ohtake, há uma busca infatigável por volumes inusitados, que nascem de gestos fortes.

Porém, comparado ao mestre carioca, o paulista revela cuidado maior no detalhamento, no uso de materiais e nas cores. No Unique, o revestimento refinado de cobre divide espaço com o concreto bruto. Assim, o arquiteto segue trajetória própria, misturando técnica e intuição, cores e curvas, tecnologia e a tradição da arquitetura brasileira.

Por meio de leitura particular das influências locais, Ohtake procura dar continuidade ao modernismo tupiniquim, revelando uma possível face contemporânea. As duas empenas de concreto que sustentam parcialmente o volume do arco invertido possuem 50 cm de espessura.

Chanfradas nas quinas, elas são arrematadas por uma beirada de 2 cm de espessura e 25 m de altura - uma proeza construtiva. Essas empenas são resquícios da obra inicial de Ohtake, que tão bem soube interpretar o lote urbano, utilizando-as junto das divisas laterais.

No caso do Unique, elas definem a tipologia pavilhonar, que, simetricamente, busca leveza nas extremidades e peso no centro, dialogando com outro projeto recente do arquiteto, a torre Pedroso de Moraes, edifício baixo que integra o conjunto Ohtake Cultural.

Texto de Fernando Serapião| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 272
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