Entrevista: Ruy Ohtake

"O arquiteto precisa ter sua postura desde o início"

Ruy Ohtake diplomou-se em arquitetura em 1960 e, desde então, mantém o escritório Ruy Ohtake Arquitetura e Urbanismo, em São Paulo. Atualmente é um dos arquitetos brasileiros mais conhecidos no país e no exterior

Diplomado há mais de 40 anos pela FAU-USP, onde foi aluno de Vilanova Artigas, e ligado à escola paulista, Ohtake avançou para uma arquitetura mais lírica, mais leve, que expressa o prazer pelas curvas, pela inovação. Por essa razão, já foi considerado “o mais carioca dos arquitetos paulistas”. É evidente certa influência de Oscar Niemeyer, de quem é amigo e admirador desde estudante.

É autor de diversos projetos, entre os quais o Parque Ecológico do Tietê, em São Paulo, 1975; a embaixada brasileira em Tóquio, 1982 (leia PROJETO 127, novembro de 1989); os hotéis Renaissance (1992) e Unique (2002), ambos em São Paulo. Foi professor na USP, na Universidade Mackenzie e na FAU-Santos

Segundo Ohtake, seus projetos procuram dar continuidade à arquitetura moderna brasileira, criando volumes de formas arrojadas, até mesmo polêmicas, projetadas de acordo com técnicas que ele sabiamente incorpora e adapta às suas necessidades.

Quando você decidiu fazer arquitetura? Houve influência familiar?

Desde o colegial já pensava nisso. O ambiente de casa, a convivência familiar com esculturas, cores e discussões sobre arte, deve ter tido influência em meu gosto e talvez isso tenha me levado à arquitetura. Mas nunca foi uma coisa imposta, e veja que meu irmão também fez arquitetura, ambos estudamos na FAU-USP. Procuro sempre fazer com que meus filhos tenham também essa convivência com a arte, e todos os domingos almoçamos na casa da minha mãe (a artista plástica Tomie Ohtake), onde ficamos até a noite, conversando sobre arte.

Seus filhos pensam em fazer arquitetura?

O mais novo está no último ano do colégio e vai prestar vestibular para arquitetura. Minha filha, que é mais velha, fez curso de teatro - junto com filosofia - mas ainda não sabe se quer trabalhar com dramaturgia, direção ou representação.

Em seu tempo de estudante, quem era a grande figura do ensino?

Artigas foi o grande condutor da FAU. Quando entrei na faculdade, ele estava fora. Voltou em 1957, quando eu estava no segundo ano, e fui seu aluno então. Depois, houve uma reestruturação do ensino, e fui seu aluno também no terceiro e no quinto anos.

Artigas foi o responsável direto por minha formação e por minhas preocupações como cidadão. Com ele, passei a situar melhor o conteúdo da arquitetura, a me preocupar com a questão política da arquitetura. Devo muito a ele e também a outros professores. Quando entrei na FAU, ela ainda funcionava no casarão da rua Maranhão, em Higienópolis, e era muito pequena, com apenas 30 alunos por turma. Alguns colegas que já estavam mais adiantados também foram muito importantes para minha formação.

Destaco Júlio Katinsky e Abrahão Sanovicz, que trabalhavam como estagiários em um escritório na rua Major Sertório. Eles iam para lá todos os dias a pé, e eu, sempre que podia, os acompanhava, só para ouvi-los conversar sobre arquitetura. Esses colegas complementavam meu curso didático. Foi uma época muito rica, em que se discutia muito a arquitetura.

Além de Artigas, que outro professor se distinguia?

Lourival Gomes Machado, um erudito, crítico de arte com personalidade muito forte. Sua erudição alargava fronteiras para todos nós. Outra grande figura era Flávio Mota, professor de história da arte. Os professores eram muito bons, abriam nossas cabeças. A própria escola, desde sua criação, pela própria natureza do trabalho e pela conscientização dos estudantes, sempre foi muito reivindicadora.

Na época, diziam que o grêmio de alunos de lá era o termômetro de esquerda do movimento universitário. E não podemos deixar tudo isso isolado do que acontecia no resto do país, que nesse período atravessava uma fase cultural muito importante. Foi quando começou a surgir a bossa nova, o cinema novo. No teatro, em 1956, o Arena começou a montar textos da dramaturgia brasileira e clássicos adaptados a nossa realidade. Surgiram diretores importantíssimos, ainda hoje em atividade.

E, na arquitetura, Brasília.

Sim, em 1960 Brasília foi inaugurada e esse foi um momento efervescente. Considero-me um privilegiado por ter vivido naquela época. Quando o Rio ainda era a capital, eu ia lá sempre que podia para visitar o escritório de Niemeyer. Claro que um estudante no início do curso, como eu, não ia perguntar se ele podia me atender. Ligava só para saber se ele estava no Rio. Pegava o ônibus na noite da sexta-feira, viajava sete horas pela Dutra, que tinha só uma pista, e chegava na praça Mauá pela manhã. Fazia uma horinha, ia de lotação até Copacabana, subia até o escritório e ficava esperando que Niemeyer chegasse.

Da primeira vez, ele entrou e foi direto para as reuniões, e eu lá fora, esperando. De vez em quando ele vinha trazer alguém na porta e me via lá. Numa das vezes, perguntou o que eu queria, expliquei, e ele me mandou entrar. Disse que não poderia falar comigo naquele momento, mas que se eu quisesse poderia esperar. Fiquei vendo as pessoas que desenhavam e às seis da tarde ele disse: “Você ainda está aqui? Espere mais um pouco e jante comigo aqui perto”.

Para mim, foi a glória jantar com Oscar Niemeyer e ouvi-lo falar. Eu estava no primeiro ano e não tinha a menor condição de manter um diálogo sobre arquitetura. Era um monólogo mesmo, mas eu só queria ouvi-lo. Então, na minha formação, além de Artigas, de alguns professores e colegas mais adiantados, esses primeiros contatos com Niemeyer foram muito importantes.

Como Oscar Niemeyer era visto pelos estudantes da FAU-USP na época?

Era considerado uma figura importante. Só passou a ser contestado depois. Agora voltou a ser muito respeitado. Na minha época de estudante, ele era um pouco inatingível, porque quase nunca vinha aqui.

Além do prédio do Ministério da Educação, a Pampulha e alguns livros colocaram Niemeyer no mundo. Antes de meu período na FAU, ele vinha muito a São Paulo por causa dos projetos do Ibirapuera para a comemoração do quarto centenário da cidade. Ciccillo Matarazzo, fundador da Bienal de São Paulo, com sua grande visão, sugeriu que a prefeitura usasse o terreno do Ibirapuera, um lamaçal cortado por três córregos, para fazer as obras do quarto centenário da cidade, que seria dali a três anos. E sugeriu também a contratação de Niemeyer para projetar o parque e seus edifícios. Nessas obras, Carlos Lemos e Eduardo Corona o ajudaram muito.

Ele projetou aquilo tudo para ser um centro cultural, só que depois a própria prefeitura foi se apossando dos prédios. E não foi feito o teatro, que ele cobra até hoje.

Passada a fase da faculdade, como foi sua entrada na profissão?

Na época, a atividade profissional era mais heróica, pois a arquitetura ainda estava se firmando. Quando nos formávamos, muitos ingressavam no serviço público, que tinha cargos bem interessantes, alguns iam trabalhar em escritórios de arquitetura, outros montavam seu próprio ateliê. Alguns trabalhavam pela manhã em ateliê próprio e à tarde, para outro profissional. Havia só a FAU e o Mackenzie, e a relação com o trabalho era mais tranqüila.

Depois de formado, trabalhei meio período no Centro de Pesquisas de Estudos de Urbanismo da FAU, onde se faziam planos diretores para as estâncias, financiados pelo Estado, e no tempo restante em meu próprio escritório, na rua 24 de Maio. Atraídos pela sede do IAB, no centro, procurávamos ter escritórios naquela parte da cidade. Depois mudei para uma casinha de vila na alameda Tietê, até que ficou pronto o edifício da Faria Lima onde tenho escritório desde 1978.

De início fiz pequenas obras, reformas, ampliações. Meu primeiro projeto foi uma garagem para a casa de um tio, no bairro da Aclimação. Sempre fui muito curioso com relação a obras, técnicas, materiais, tintas, pincéis, cores. Sentia necessidade de ter certo domínio sobre tudo. Sem falar no amadurecimento quanto ao espaço, à expressão arquitetônica, à relação com a cidade.

Entre suas primeiras obras, qual foi aquela que, depois de concluída, levou o senhor a pensar: bem, agora sou arquiteto para valer?

Nunca pensei assim. Projetei uma casa quando já estava com dois anos de formado de que gosto muito, e ainda hoje ela continua bem (residência Rosa Okubo). É uma casa pequena, num terreno de 10 por 30 metros, cujo projeto tinha alguma influência de Carlos Milan, que insistia muito “na verdade do material, na essência do material”. Procurei trabalhar com essa essência, usando o bloco de concreto de diversas formas, deixando-o sempre aparente. O piso foi um só, todo em cerâmica, dos dormitórios às salas. O projeto é interessante e ganhou um prêmio.

Até hoje, quarenta anos depois, sempre sou consultado quando o proprietário quer fazer alguma coisa. Ele passa silicone nos blocos, para mantê-los impermeáveis, pinta os caixilhos da mesma cor original, o laranja, enfim, a casa se mantém como nova. Fico contente em saber que a maioria das obras que fiz satisfez os clientes e que elas continuam em muito bom estado.

A partir disso, como foi a evolução de sua trajetória? O senhor a dividiria em fases?

À medida que eu fazia os projetos, ia tomando muita consciência. Minhas reflexões sobre meus trabalhos sempre foram feitas após a elaboração. Por isso acredito que arquitetura é obra construída. A etapa do papel é culturalmente muito importante, mas acho que a arquitetura só se completa quando construída, ela tem que participar do espaço da cidade. Luto muito para que meus projetos sejam construídos, talvez por isso tenha um grande índice de obras feitas em relação aos projetos elaborados.

Claro que precisamos da colaboração da construtora e de quem está à frente, do organizador, seja ele do poder público ou da iniciativa privada. A soma da vontade dos três - arquiteto, construtora e organizador - é que faz a obra ser executada.

O senhor se considera um integrante da escola paulista?

Não concordo muito com a expressão “arquitetura paulista”. Quando me formei, ela estava no auge, com uma produção muito interessante. Mas sempre achei que era preciso acrescentar certo lirismo, um pouco de gesto à chamada arquitetura paulista. Então, desde o início, introduzi em minhas obras esse prazer pelas curvas, essa relação um pouco aberta entre a forma e a estrutura, tanto que já fui chamado de “o mais carioca dos arquitetos paulistas”.

Fui caminhando assim na seqüência de meus projetos, pois achava importante que essa liberdade de forma e de desenho transparecesse também na expressão da obra. Uma das características da arquitetura brasileira sempre foi saber dar expressão à obra, tanto por sua forma e volume, quanto por sua limpeza, pelo cuidado no tratamento dos espaços e por sua forte relação com a estrutura. E ainda por permitir maior liberdade para inovações e surpresas.

Seu projeto para o Parque Ecológico do Tietê foi uma boa experiência profissional?

A porcentagem de implantação é pequena, mas tentei recuperar aquela área e hoje ela é importante para a cidade de São Paulo. No projeto, tive a colaboração do Aziz Ab’Saber, de Burle Marx, do pessoal do Hermes Moreira de Souza, de Campinas, e de muitos outros especialistas. O rio corre em serpentina porque essa várzea - que no caso do Tietê varia entre 600 e 800 metros, chegando até a um quilômetro - tem um primeiro patamar constituído de terra mais consistente; o equívoco é fazer a cidade entrar na parte mais baixa.

No Parque Ecológico do Tietê foram feitos apenas oito quilômetros, mas deixei o rio percorrer seu trajeto, sem ocupar a várzea, e coloquei as marginais bem afastadas, a uns 800 metros da água, bem no limite da plataforma. Procuramos trabalhar com a natureza: o rio sobe e desce, mas dentro da planície, sem transbordar.

Aqui em São Paulo, na canalização feita para eliminar inundações, malária e outras doenças, houve um erro de cálculo, pois qualquer chuva mais forte inunda tudo. Além de acabar com a planície, erraram na conta, e o rio transborda.

Esse foi um de seus trabalhos mais importantes?

Sim, sem dúvida. Eu o considero um dos projetos urbanísticos mais importantes feitos para a cidade de São Paulo nos últimos 80 anos.

Qual sua opinião sobre o trabalho de aprofundamento da calha do Tietê?

Segundo os hidrólogos, existe no fundo do rio uma laje imensa, uma pedra que vai da ponte da Casa Verde à Freguesia do Ó, chegando talvez até quase a Cidade Universitária. O Tietê vem da zona leste, entra em São Paulo, passa por cima dessa pedra, sai no Cebolão, próximo da Cidade Universitária, e sobe para o interior. O Tamanduateí, que é um contribuinte importante do Tietê, desemboca na altura da Ponte Pequena, e sua contribuição - cada vez maior, porque a cidade está se impermeabilizando rapidamente - é jogada num rio que está amarrado pelas duas marginais.

Então, a solução é afundar o leito do rio, e há 20 anos se fala nisso. Só que afundar como, com essa laje de pedra no fundo? Se não conseguirem afundar a laje, a obra será paliativa. Depois de oito ou dez anos o problema estará de volta. São Paulo merecia uma solução mais a longo prazo. E o rio também precisa ser dragado continuamente.

E a solução proposta por Niemeyer há alguns anos, da qual o senhor participou?

Foi na época em que Jânio Quadros era prefeito e Niemeyer foi convidado para projetar a prefeitura, que seria na Ponte Pequena. Ele sugeriu que a marginal fosse levantada e a cidade passasse sob ela para chegar à beira do rio. E o rio Tietê seria tratado paisagisticamente. Esse trabalho de levantar a marginal provocaria desapropriações e não havia clima para isso. A imprensa fez um barulho muito grande e o projeto foi engavetado. Mas era uma solução paisagística mais interessante, porque a cidade, antes das marginais, ia até a beira do rio. Nós, paulistas, sempre fomos muito insensíveis no diálogo com a natureza.

O fato de a arquitetura paulista ter proposto uma introspecção não seria um reflexo disso? O exterior caótico teria levado os projetos a se voltarem para o interior?

Quando a paisagem externa não tem grandes atrativos, volto a casa para o interior, mas criando uma praça interna, um lugar de convívio para os amigos e familiares. Quem propôs isso de forma clara e didática foi Artigas, nas décadas de 50 e 60. Rino Levi também, mas de forma mais leve, menos clara, com aporte mais europeu.

Por manter quase sempre uma relação duradoura com seus clientes, o senhor sente-se agora à vontade para ousar?

Não há essa relação. O arquiteto precisa ter sua postura desde o início. Você não pode ousar nos projetos posteriores, é preciso ousar desde o primeiro.

E a crítica, como o senhor a encara? Porque não se pode ficar indiferente a um projeto seu...

A crítica faz parte da natureza da arte. Toda arte de vanguarda é polêmica, porque rompe com o que está estabelecido. Creio que o desafio do arquiteto é dar continuidade à arquitetura brasileira. Cada profissional tem seu projeto, e isso tem de ser respeitado. Se eu me preocupar com a crítica, vou ficar tolhido, fazendo arquitetura de 30 anos atrás. O desafio da inovação é caminhar para o desconhecido. O artista é aquele que procura o caminho do desconhecido e por isso mesmo está sujeito a críticas. Só não concordo com preconceitos.

Nos últimos anos, você tem trabalhado com escalas cada vez maiores. Esses projetos de maior visibilidade têm um tratamento diferente?

Quando estou elaborando um trabalho, o que me preocupa é que ele tenha um conteúdo, uma relação, a expressão da ordem do projeto. E que seu interior seja adequado, funcione bem e signifique um avanço na linha da arquitetura brasileira. Não quero saber, nem estou preocupado, se um projeto obteve mais repercussão que o outro. O que quero, e muito, é que a população em geral goste da obra de arquitetura.

Dada a quantidade de projetos, você se preocupa com a possibilidade de perder um pouco o controle do trabalho?

Mas eu não tenho tantos projetos. Possuo sempre controle muito grande sobre minhas obras. No piso do Instituto Tomie Ohtake, por exemplo, sei dizer onde estão as juntas de dilatação, que são muitas e diferentes.

Você gostaria de ter um escritório maior ou menor?

Preferia ter um escritório mais bem remunerado. A remuneração no Brasil é menor do que na Argentina, na Colômbia, muito inferior à dos europeus. Na Europa, os arquitetos projetam duas obras e ficam o resto do ano tranqüilos.

E um trabalho, para mim, tem na verdade três fases: a de anteprojeto, a do projeto executivo e detalhado, e a fase do acompanhamento da obra, durante a qual sempre vou ajustando algumas coisas. Isso com projeto de qualquer escala.

De que maneira o seu trabalho incorpora as inovações tecnológicas?

Há a tecnologia que serve para o funcionamento da obra, ou seja, para controle de ar condicionado, luz, uso de computadores e outras máquinas. Outra é a tecnologia adotada na construção. Geralmente, faço o projeto independente de qualquer preocupação tecnológica. Depois, no detalhamento, percebo que o cobre ficaria melhor na cor verde, já oxidado, e começo a procurar no Brasil. Se não consigo, procuro no exterior quem possa fornecer.

Quero saber sobre a melhor forma de fixar o cobre e como é feita sua manutenção. E isso para todos os elementos do projeto, como o funcionamento da janela, o tipo de vidro etc. A técnica deve estar de acordo com o que o projeto coloca. Primeiro vem o projeto, depois a melhor técnica que se adapte a ele. O arquiteto é que tem de conduzir a tecnologia.

Na arquitetura atual, quais os profissionais que o senhor mais admira?

Sem dúvida, Lelé, Oscar Niemeyer e Paulinho (Paulo Mendes da Rocha).

Texto de Adilson Melendez, Éride Moura e Fernando Serapião| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 272
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