Entrevista: Joaquim Guedes

“A arquitetura atual não segue a função nem estilos históricos; é monetarista, interessada em status”

Intransigente e corajoso na defesa de uma arquitetura que represente a cultura brasileira, e do ensino da profissão voltado para a nossa realidade, Joaquim Guedes acaba de se aposentar da FAU/USP, onde durante décadas formou gerações de profissionais. Respeitado no mundo acadêmico pela coragem com que revela suas polêmicas opiniões em assembléias - quase sempre discordando da maioria -, Guedes destaca-se no cenário da arquitetura nacional também por projetos residenciais famosos e importantes trabalhos de planejamento urbano. No início de sua carreira, chegou a trabalhar com o padre Lebret e participou do concurso para escolha do projeto do Plano Piloto de Brasília

Por que o senhor resolveu organizar um seminário internacional sobre o ensino (em meados de setembro de 2001, na FAU/USP) pouco antes de se aposentar?

Esse seminário, na verdade, foi um esforço desesperado de um professor que sempre se preocupou em discutir o que é arquitetura e como ensiná-la. Ao organizar o encontro, conversando com colegas, resolvemos reunir os melhores arquitetos e professores do momento, de vários países, para que dissessem, com a maior liberdade, o que é arquitetura e como ensinar, uma vez que, no mundo inteiro, essas são as preocupações dos verdadeiros mestres. Os frutos do evento vão depender da disponibilidade, do interesse e da forma como os participantes metabolizaram aquilo que viram e discutiram durante os três dias do encontro. Antes de mais nada, foi uma parada para pensar como está o ensino da arquitetura.

Como era esperado, cada um dos 16 professores convidados entendeu à sua maneira a proposta e fez um discurso diferente. As conferências serão publicadas pela FAU/USP, associadas às colocações dos participantes, que apresentaram 35 projetos, propostas e comentários.

Depois de 42 anos dedicados ao ensino, como o senhor vê o ensino, hoje, no Brasil e comparado ao cenário internacional?

Ao que parece, há uma grande insatisfação mundial, porque se sente muita dificuldade de diálogo entre os vários departamentos das escolas. No caso brasileiro, a competição entre professores é muito grande em algumas escolas, e ninguém admite crítica, que é fundamental para o processo criativo. Outro problema de nossas escolas é o pouco tempo destinado ao estudo de projeto. O professor Gustavo Neves da Rocha, do Departamento de História da FAU/USP, fez um trabalho muito interessante, em que constatou que apenas 8,3% do tempo do aluno é consagrado ao projeto. Isso é trágico porque, apesar de todos as cadeiras tratarem de arquitetura, ensinar projeto é bem mais do que falar de arquitetura. É mais do que uma análise comparada da arquitetura de todos os tempos. História e tecnologia são importantes, mas o tempo que se dedica a isso numa escola de arquitetura e a qualidade do ensino desses cursos têm que ser repensados. São cadeiras importantes, mas tomam muito tempo do ensino do projeto.

O ensino de história é notável; o de tecnologia nem sempre, porque não se ensina tecnologia e construção de verdade nas escolas de arquitetura. Trata-se apenas de um verniz de tecnologia; a verdadeira tecnologia fica para as escolas de engenharia e os institutos. Se, por um lado, é difícil a crítica do trabalho de um colega, por outro, também não é comum ouvir elogios ao projeto dos outros... É. E sabe por quê? É que ninguém é perfeito. Se você vai elogiar uma coisa, tem que, em contraposição, criticar outra. Por exemplo, eu gosto demais do trabalho do [Marcos] Acayaba. Mas acho que ele se perde em formalismos estruturais que, na minha opinião, são um desvio, por mais brilhante que resulte a forma. Acho difícil só elogiar o trabalho de um arquiteto, o correto é analisar criticamente o que ele faz, destacando os pontos que se consideram positivos e mostrando aqueles com os quais não se concorda. Considero Acayaba um arquiteto de grande capacidade e ele provavelmente não está interessado em saber minha opinião. Falar bem é também falar criticamente, é preciso ir sempre a fundo nas coisas.

Mas a crítica deveria ser feita apenas por arquitetos ou o senhor acha que isso ficaria a cargo da imprensa especializada?

Essa outra crítica é geralmente mais complicada, porque esses especialistas fazem crítica da cultura, mas não entendem nada de construção. Vão falar o que da arquitetura? Façam os ensaios que quiserem, mas bem longe da arquitetura. Falem da arquitetura como epifenômeno, não da arquitetura em si. O que faz falta nas escolas não é a crítica cultural, mas a crítica do fazer. E isso é uma coisa que só os que praticam arquitetura têm condições de fazer. É difícil mesmo para arquitetos-críticos que nunca fizeram arquitetura.

Qual sua opinião sobre a atual produção arquitetônica do país?

De maneira geral, a arquitetura vai mal, basta olhar para as avenidas das grandes cidades do país, que apresentam a arquitetura de Dallas, Houston etc. Toda a forma urbana sai hoje das revistas internacionais, e se sai das revistas os nossos problemas não estão sendo considerados. Se fossem, não poderiam ter essa face... Como todo arquiteto que já viveu um bom tempo, tenho a tendência a achar que ninguém entende o que é arquitetura. O Oscar [Niemeyer] também fala que “ninguém entende o que é arquitetura, ninguém sabe o que é isso”. Você olha de lado e vê tanto modismo, tanto mimetismo, tanto cenário, tanto enfeite, tanto jogo de espelho. Eu me pergunto: o que vem a ser isso? Não tem nada a ver com arquitetura. Tudo poderia ser simples, eficiente e adequado à sociedade. O perigoso é que os jovens profissionais se deixam sensibilizar por um aspecto qualquer de uma obra e passam a considerar isso relevante. Veja o caso do projeto de uma capela no norte de Portugal, do Álvaro Siza. Ele desenhou aberturas estreitas e altas, que produzem grande efeito luminoso, um pouco para que as cruzes e os estandartes das procissões pudessem passar. Na minha opinião, esse é o tipo de coisa frugal, de arquitetura do não-essencial. Formas do não-essencial. Sempre tive horror a isso. Aqui, pega-se um sistema de banheiros e se faz fachada com banheirinhos. Banheiro é infra-estrutura básica e não elemento de decoração de fachada.

O arquiteto precisa procurar a essência das coisas. Fazer forma, luz e estrutura para a concepção do sistema de espaços que está projetando. O cliente acredita que essa arquitetura dá prestígio... Fico perplexo com a sociedade paulista, tão dinâmica, a mais rica do país, na hora de fazer a sua cidade, seus edifícios, suas casas, apela e aceita isso que estamos vendo aí como arquitetura. São coisas totalmente inconsistentes em face do nosso clima, inacreditavelmente ruins. Claro que há exceções notáveis, mas vemos muitos edifícios construídos com altura errada, janelas que não deixam ver a paisagem e atrapalham os outros, o sol batendo onde não deve, todas as fachadas com vidros iguais nos quatro diferentes quadrantes. É tudo mal pensado, mal resolvido. E não é difícil exercer bem a profissão, basta atenção, seriedade, intransigência na procura do resultado, coragem. A arquitetura atual segue a moeda, é uma arquitetura monetarista, interessada em certo tipo de status. O arquiteto é instado a fazer uma arquitetura para esse status. As casas que estão surgindo nos Jardins [em São Paulo] são uma vergonha. Reformam casas honestas e as transformam em uma cruza bastarda de vila italiana com pagode ninguém sabe de onde. Um lixo. E a burguesia paulistana não percebe o ridículo em que está incorrendo e a forma ridícula como gasta seu dinheiro. O mais grave disso tudo é que a arquitetura invade o nosso cotidiano. Quem passeia pela cidade é obrigado a ver tudo isso. A profusão de arquiteturas de São Paulo acaba fazendo um conjunto maravilhoso feito de coisas feias. A Paulista, de longe, é uma maravilha, mas se for olhar o detalhe não dá para ver.

É uma cidade para ser vista de longe?

Sim, de longe se salva. Quando se entra nesses condomínios, tanto da capital quanto das cidades próximas, a coisa é ofensiva de tão feia. Acho que o ensino da arquitetura desenvolveu uma nova mentalidade de arquitetos que não estão fazendo rabiscos. Quando começo a projetar, sinto que a partir de certo momento, não sou mais eu que comando o desenho, mas as análises vão exigindo que faça o desenho daquele jeito. Como se o trabalho se produzisse a si próprio. O raciocínio é conduzido pelo projeto, e é ele que vai encontrando os meandros por onde vai descobrindo o espaço, as formas de construção. O problema é fazer com que os arquitetos vejam isso. Entendo que ser arquiteto é como ser médico, implica obsessão de resolver problemas.

E as arquiteturas eleitas pela sociedade: os anseios são errados ou os arquitetos é que são ruins?

Sinto que tanto a sociedade quanto os governos não valorizam o trabalho do arquiteto. A sociedade deveria tratar nosso trabalho com mais consideração, dar o tempo necessário para o projeto, confiar no arquiteto e dialogar com ele, exigindo tudo o que é adequado ao pedido. A Lina dizia que a sociedade deveria ser muito mais exigente com os arquitetos. É preciso que se tenha grande contato com o cliente para que ele possa dialogar com o profissional sobre as realidades que quer ver atendidas, sobre os problemas que precisa resolver com os recursos disponíveis, com a sua cultura. É assim que se faz arquitetura contemporânea, que é aquela que consegue resolver os problemas do tempo, os problemas reais.

E quem trabalha dessa forma no Brasil?

Muitos talvez não o façam por conta dessa questão do desenho rápido, dos escritórios que crescem e precisam ser sustentados. Então, se trabalha para manter o escritório e não para fazer arquitetura... Tem até arquitetos que se orgulham de manter grandes escritórios e não percebem que isso é uma cilada, é a razão pela qual não estão conseguindo fazer boa arquitetura. Os maiores escritórios do mundo são, na verdade, bem pequenos. Sem querer fazer apologia do pequeno, mas é preciso ficar atento, pois o tamanho grande do escritório não é um sinal de eficiência. Inventam-se maneiras de fazer projetos rapidamente, como por exemplo, as teorias tipológicas de arquitetura. Para fazer isso, as tipologias são essas, então arma-se tudo no computador. Acho tudo isso triste, a arquitetura é uma coisa lenta, pensar é uma coisa também lenta. Cada projeto é um grande problema em si mesmo. Seja uma casinha ou uma cidade. Alguns criticam quando eu falo da complexidade do problema da arquitetura, dizendo que é tudo muito simples. Talvez eles tenham razão, mas eu acho que ou o arquiteto entende a sociedade e seus problemas e procura resolvê-los como arte de construir, ou está fora.

Como o cliente pode ser esclarecido na confecção de um projeto?

Na minha opinião, o correto é o embate cotidiano na construção do espaço. Em cada momento, ao se fazer qualquer coisa, se perguntar onde, por que aqui, de que maneira, como vão ser distribuídos os recursos, quais os objetivos, o que se vai tentar obter etc. É essa discussão que vai esclarecer o usuário.

Na sua opinião, como deve ser o ensino de arquitetura?

Arquitetura se ensina vendo o aluno pensar como vai fazer seu objeto, que tipo de construção vai usar, o que o desenho tem da sua cultura e do seu conhecimento sobre a sociedade. E se queremos uma arquitetura para a sociedade, a última coisa que temos de fazer é discurso político em sala de aula. Muitas vezes, como os professores não sabem ensinar, fazem da sala de aula um palanque para discursos políticos fáceis e demagógicos. O [Vilanova) Artigas jamais fez discurso político na sala de aula. Um aluno do Artigas poderia nem saber que ele era comunista e exercia a política partidária com tanta intensidade. Quando entrava na sala de aula, ele só falava de arquitetura, que, claro, era impregnada da sua paixão pelo cidadão. Ele comovia pelo exemplo e pela excepcionalidade do seu comportamento de arquiteto, e não fazendo discursos. Precisamos formar profissionais que sirvam à sociedade e é ela que vai dizer que organização deseja, que arquiteturas quer. A escola é lugar de reflexão sobre arquitetura.

Agora que o senhor está afastado do ensino e retoma o trabalho de arquiteto, qual o perfil da sua carreira daqui em diante?

Eu nunca selecionei projeto, sempre fiz muita reforma. A reforma é uma coisa mágica, e é uma atitude muito modesta em relação à arquitetura, porque você aceita o que está feito como um dado. No fundo, você não destrói porque acha que aquele casco é um suporte inicial, que representa muita economia em fundações e paredes e, ao mesmo tempo, tem uma história que sugere coisas interessantes, então é muito rico como situação projetual. E não deixa de ser uma atitude muito discreta, muito submissa. Também não tenho nada contra projeto de casas. Estou convencido de que uma parte importantíssima da arquitetura desse século se revelou nas residências. Mies [van der Rohe], Saarinen, [Alvar] Aalto, Rino Levi, Artigas foram autores de casas memoráveis. Então, continuarei a não selecionar projetos. Farei o que for mais agradável e mais importante socialmente falando, em cada momento. E tomando cuidado para nunca pensar que uma residência privada é socialmente menos importante, porque é nela, muitas vezes, que os grandes problemas da arquitetura são resolvidos. Numa edição antiga da revista Time sobre Marcel Breuer, ele dizia que todo arquiteto precisa ter permanentemente uma residência na sua prancheta, porque é um programa que permite o domínio completo dela mesma e contém todos o problemas da arquitetura. Acho que Rino Levi também dizia isso e sempre tinha uma residência em sua mesa.

O senhor usa o computador na arquitetura?

Como todo ou quase todo arquiteto da minha idade, não uso computador, mas o escritório usa, claro. Para nós, é mais difícil trabalhar com o computador do que desenhar à mão. Para expor as primeiras idéias, a mão ainda é o instrumento insubstituível. Mas hoje se vê muito pessoas que fazem projetos, e até teses de mestrado e doutorado que não passam de exercícios de computação, ou seja, procura de variedades ao sabor de um computador. Essa atitude é muito fria, mecânica, é antiarquitetura. Arquiteto não faz jogo de formas, de fachadas, isso são coisas que emergem da compreensão da vida. Arquitetura não pode ser uma curva e janelinhas quadradas metidas de qualquer jeito atrás, como se vê nesses prédios cheios de curvas, comuns em São Paulo.

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A carreira acadêmica de Joaquim Guedes repartiu-se entre o Brasil e a França. Formado (1954) e doutorado (em planejamento urbano, 1972) pela FAU/USP, foi professor assistente, livre docente e professor titular na mesma escola. Na década de 70, marcou presença no Instituto de Arquitetura e Urbanismo de Estrasburgo, onde foi diretor pedagógico (1970/71) e professor associado (1970/73). Recém-formado, fundou escritório de arquitetura com Carlos Milan e Liliana Guedes (1955/60). Desde 1965, mantém o escritório Joaquim Guedes e Associados, definido por ele como “uma cooperativa de trabalho” que realizou cerca de 500 projetos de arquitetura e urbanismo. Autor de trabalhos memoráveis tanto de cidades - Nova Marabá (1973) e Nova Barcarena (1979), no Pará, e Nova Caraíba (1976), na Bahia, entre outras - como habitacionais - residência Cunha Lima (1958), conjunto da Cohab em Campinas, SP (1974) - desenhou também o Fórum de Itapira (1959) e participou, como convidado, do concurso de Bicocca (1986), em Milão, Itália, para revitalização da área do antigo parque industrial da Pirelli.

“O arquiteto precisa procurar a essência das coisas. Fazer forma, luz e estrutura para a concepção do sistema de espaços que está projetando”

“Ensinar projeto é bem mais do que falar de arquitetura e fazer a análise comparada da arquitetura de todos os tempos. História e tecnologia são importantes, mas o tempo que se dedica a isso numa escola de arquitetura e a qualidade do ensino desses cursos têm que ser repensados”

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 250
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