Entrevista

João Carlos Cauduro

O arquiteto fala sobre a carreira dedicada à produção e ao ensino do design e da comunicação visual

Na abertura do livro Marcas CM, com lançamento previsto durante a 6ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, Chico Homem de Melo afirma que nenhuma história do design brasileiro pode ser escrita sem que a obra do escritório Cauduro Martino Arquitetos Associados ocupe lugar de relevo. A publicação, essencialmente visual, tem mais de 300 páginas apenas com marcas criadas pelo escritório, que foi oficialmente constituído em meados da década de 1960. Nesse período, a empresa contou, em algum momento de sua trajetória, com a participação da maior parte dos profissionais que atuam hoje nessa área.

João Carlos Cauduro e Ludovico Martino são arquitetos formados pela FAU/USP, em 1960 e 1962, respectivamente, escola em que ambos também foram professores. O escritório desses profissionais “se notabilizou pela abordagem sistêmica do design. O sinal nunca foi concebido como elemento isolado, mas sempre como um signo de comando de um sistema de identidade visual”, avalia Homem de Melo.

Dos seus 65 anos de vida, o arquiteto João Carlos Cauduro dedicou mais de 40 à produção e ao ensino do design e da comunicação visual, junto com Ludovico Martino, com quem divide a sociedade no escritório Cauduro Martino Arquitetos Associados. Cauduro formou-se pela FAU/USP, para quem criou o logotipo e onde lecionou por mais de três décadas na disciplina desenho industrial.

O que levou o senhor a se dedicar mais ao design e não à arquitetura, como a maior parte dos colegas de sua geração?

Tanto eu como Ludovico Martino estudamos na FAU/USP numa época magnífica, em que a faculdade era fantástica. Brasília estava começando a ser construída e nossa perspectiva era fazer cidades. Viajávamos, fazíamos pesquisas, levantamentos, exposições etc. Então, no último ano, recebi uma bolsa de estudos do Ministério das Relações Exteriores para estudar desenho industrial na Itália. Nessa época, ninguém falava em desenho industrial, nem mesmo na FAU. A primeira pessoa que ouvi falar em design foi o professor de paisagismo norte-americano Roberto Coelho Cardozo. Enfim, ganhei a bolsa e passei quase dois anos estudando em Florença.

Se pouco se falava em design, como foi seu contato com o assunto e como recebeu bolsa para estudar desenho industrial?

A gente praticamente consumia a biblioteca da FAU. Aqui no Brasil não se falava em design, mas a gente sabia por leituras. E o design italiano para mim era o máximo. Nessa época, o único curso de desenho industrial na Itália era na Universidade de Florença, dentro da faculdade de arquitetura. O fundamental para mim não era só o curso em si, mas entrar em contato com a cultura européia. Na época em que estive por lá, viajei e conheci a Europa inteira. Na Suécia, por exemplo, passava dias e dias dentro do supermercado, porque a qualidade do design estava lá. E a Itália passava por uma fase especial. Com o centenário de sua unificação, havia exposições fantásticas, e tudo com uma tecnologia espetacular, que eu desconhecia.

Nesse período, o senhor limitou-se ao estudo de desenho industrial?

Fiz descobertas espetaculares, mas não só no design. Em arquitetura, fiz um levantamento de toda a obra de Le Corbusier, fiz um filme sobre as obras de Alvar Aalto. Passei um período na Espanha pesquisando Gaudí. Na época, tinha umas 20 cartas de apresentação do IAB, recomendando-me para trabalhar na Europa. Mas, realmente, achei que meu lugar não era lá. Voltei a toda e depois de uma semana já tinha aberto um escritório sozinho. Paulo Mendes da Rocha me convidou para trabalhar por meio período, e o que eu ganhava com ele dava para pagar o aluguel. Meu primeiro cliente foi a Camargo Corrêa. Eu e Ludovico começamos a fazer alguns trabalhos juntos - inclusive esse da Camargo Corrêa. Depois montamos uma exposição sobre essa obra: Ludovico fez a parte gráfica e eu o design. Foi essa a origem do escritório.

Também é dessa época seu envolvimento com a Universidade de São Paulo?

Sim. Nesse período, a Cidade Universitária me contratou para desenhar o mobiliário de todas as faculdades. Foi um projeto grande, que demorou um ano e meio. Convidei Karl Heinz Bergmiller para participar. No fim de 1963, entregamos o projeto e ele foi convidado para dar aula na USP. Foi quando ele saiu que Ludovico entrou e fundamos a Cauduro Martino Arquitetos Associados. Nessa mesma época, eu e Ludovico fomos contratados pela USP para dar aulas na FAU: eu de desenho industrial e Ludovico de programação visual.

Como funcionava nesse momento o escritório?

Começamos, desde aquele momento, a perceber que não tinha sentido fazer projetos isolados, sem considerar o todo. Nessa visão integrada, que chamamos de design total, fazemos um trabalho em que não se sabe onde começa a arquitetura e onde acaba o design; onde se inicia o desenho de produto e onde termina a parte gráfica. No caso da cidade, isso também acontece. Aliás, a preocupação com a cidade sempre foi uma característica de nosso escritório. Acho que, nesse ponto, fomos um dos pioneiros. Tentamos estruturar e organizar a empresa para enfrentar projetos de grande complexidade ligados à cidade. Por isso considero que São Paulo possui uma série de projetos interessantes, mas o conjunto é catastrófico.

Quais foram os trabalhos mais importantes desenvolvidos pelo escritório nos primeiros anos?

Dentro dos programas de identidade visual que desenvolvemos, acho que um dos mais importantes foi o da Villares. Trabalhamos dez anos para o grupo. Fizemos para eles o primeiro manual de identidade visual no Brasil. Participamos de um concurso para criar a nova marca e a partir dela elaboramos um sistema. Dentro desse conceito de sistema tínhamos que prever uma família de marcas para as empresas existentes e futuras.

Criamos seis elementos, seis quadrados, metade branco, metade preto, em diagonal, que, usando combinações, resultavam em 11 sinais perfeita- mente visíveis. Foi para a Villares que fizemos o primeiro totem com escrita vertical. Foi ali que começamos a perceber que o suporte da mensagem era o elemento que realmente podia criar convívio com o universo. E também que podia ser elemento de poluição da paisagem. Notamos então que quanto menor o suporte, quanto mais simples, melhor.

O escritório é responsável pelo projeto de comunicação visual da avenida Paulista, em São Paulo, onde pôde colocar em prática esse discurso. Como foi contratado para a tarefa?

Fomos chamados em 1973 pela Emurb [Empresa Municipal de Urbanização], que tinha uma equipe de altíssimo nível. O presidente era [Alberto] Botti e o diretor de planejamento, Pedro Paulo de Melo Saraiva. O prefeito anterior, Figueiredo Ferraz, tinha planos de enterrar todo o trajeto da avenida. Quando ele deixou o governo, a Paulista estava toda esburacada e a verba destinada a ela era a mesma reservada para aplicar em todos os túneis da cidade. Por decisão política do sucessor de Ferraz [Miguel Colasuonno] e de sua equipe, resolveu-se que a avenida, que estivera quase três anos em obras, deveria ser recomposta com calçadas mais largas que as anteriores. Tivemos carta branca para o trabalho e a Emurb contratou Rosa Kliass para fazer o paisagismo.

Qual foi a solução aplicada por vocês?

Pensamos que a avenida não poderia ser mais uma ruazinha de São Paulo, onde cada departamento da prefeitura atuava de uma maneira, sem uma visão sistêmica, integrada. Decidimos pelo conceito de planejamento ambiental, composto por paisagismo, sinalização e mobiliário urbano. Os dois últimos ficaram a nosso critério. Uma das coisas que nos parecia um contra-senso era ter, num cruzamento movimentado da cidade, uma série de informações isoladas e diferentes, como nome da rua, cesto de lixo, sinalizações, sinais de trânsito, placas de orientação de percurso e de proibição etc.

Na avenida Paulista, havia a idéia de fazer um suporte que pudesse conter, ordenados, todos esses elementos. Disso surgiu o poste de uso múltiplo. Esse poste tem 7,20 metros de altura. Até 2,50 metros há informações para pedestres; entre 2,50 e 3,50 metros, as informações para média distância. Acima disso, estão as de longa distância. No caso da Paulista, era a primeira vez que se fazia uma pista única de ônibus, removendo toda a área de estacionamento. Por isso era muito importante dar informação a média e longa distância. A escrita vertical nesses postes possibilita mais informações no mínimo de espaço.

O posicionamento dos semáforos também foi alterado?

Pela primeira vez o semáforo foi colocado depois do cruzamento, para se ter mais visibilidade. Como havia dois semáforos em uma calçada e uma linha central, havia uma visão precisa, diferente de hoje, quando se tem semáforos desorganizados de diversas alturas, cada um encostado num lugar. Conseguimos isso através de um suporte inteiro em estrutura de alumínio - foi o primeiro perfil extrudado dentro daquelas dimensões no Brasil, com uma tecnologia nova. O fato de ser de alumínio faz com que, no caso de batidas, eles se deformem e não machuquem.

Também foi criado um padrão de mobiliário urbano. Como era ele?

A Paulista tinha uma série de ambulantes e achamos importante preservar esse pessoal. Criamos o mobiliário procurando concentrar todos os componentes nos pontos de ônibus, que retiramos das esquinas e colocamos no meio da quadra. Tínhamos um conjunto de seis a oito abrigos com base tradicional, quiosque de vendas em geral, alguns deles com bancas de flores. O mais importante eram as bancas de jornais, pois achávamos que tinham que fazer parte do visual da Paulista. Tudo foi implantado. O prazo que tivemos para todo o projeto foi de três meses. Contávamos com uma equipe grande, com bom nível técnico, e conseguimos fazer desse projeto uma referência mundial. Ele foi publicado no mundo inteiro.

O projeto é conhecido internacionalmente e o senhor diz que funcionou muito bem, mas hoje temos novamente a avenida toda alterada. Por que isso ocorreu?

Descaso dos órgãos públicos. É um absurdo, mas é verdade. Enquanto a Emurb esteve à frente da manutenção da Paulista, durante 15 anos, a avenida era impecável. Depois resolveram transferir a manutenção para as regionais e, simplesmente, não fizeram mais nada. Os projetos que fizemos ligados à cidade, com raras exceções, foram alterados e acabaram se autodestruindo, pela falta de respeito dos órgãos públicos. Na gestão da prefeita Luíza Erundina [1989/1992], todo o mobiliário urbano da avenida Paulista foi retirado. No governo passado, a prefeita Marta Suplicy nos chamou para recuperar a proposta. Fizemos o projeto inteiro - e a prefeitura ficou nos devendo uma quantia brutal.

Como seria a recuperação?

A proposta era refazer o mobiliário urbano, a sinalização e despoluir a Paulista. A idéia era fazer uma legislação própria para a avenida ou pelo menos reformular a existente. Acontece que a própria prefeita aprovou uma lei que acabou com a cidade. Hoje se pode pendurar um cartaz de publicidade do primeiro até o último andar de um prédio, cobrindo as janelas. A prefeita vendeu a cidade. O IAB, a Asbea e todas as faculdades estão querendo derrubar essa lei.

A atual administração municipal já o procurou para tratar da recomposição da Paulista?

Fui chamado por Andrea Matarazzo, subprefeito da Sé, que é responsável pela Paulista. Ele não sabia por onde começar, nem conseguiu achar os projetos que entregamos. E há ainda o presidente da Associação Paulista Viva [Nelson Baeta Neves], que tem interesses particulares e contratou não sei quem para fazer o piso e o mobiliário. Não consigo entender, porque o projeto é nosso, a autoria é nossa, é uma revisão do projeto original, que inclusive recebeu um prêmio do IAB em 2004. Tive até que entregar projetos executivos, apesar de ter a receber da prefeitura. Não me procuraram mais e não sei o que está acontecendo.

O senhor tem sociedade de mais de 40 anos com Ludovico Martino. Existe alguma fórmula mágica para preservá-la?

Nós acreditamos nas coisas e nos levamos a sério. Temos uma equipe formada - aliás, vários profissionais que se formaram no escritório são hoje nossos grandes concorrentes.

Como avalia a evolução do design ao longo dessas mais de quatro décadas?

Ao fazer a reestruturação da FAU em quatro áreas - planejamento, arquitetura, desenho técnico e comunicação visual -, [Vilanova] Artigas permitiu que ele se desenvolvesse. Introduzir a disciplina oficialmente na FAU abriu um leque enorme. Hoje, o número de pessoas que sai da escola fazendo desenho industrial e comunicação visual é grande. E quase todos eles foram nossos alunos, inclusive aqui no escritório. Sempre achamos que nossa contribuição era nunca esconder o jogo. Quando um projeto é publicado, mostramos tudo, como é detalhado e o porquê. Acho essa contribuição significativa para o desenvolvimento do desenho industrial e para a comunicação visual no Brasil.

Cauduro Martino teve durante um período parceria com um escritório estrangeiro. Qual a avaliação de seus resultados?

Fizemos uma associação com Lippincott & Margulies, escritório norte-americano muito importante e parecido com o nosso. Essa joint venture durou dois anos. Foi interessante por uma série de aspectos. Mas os valores, as referências são totalmente diferentes, e por isso acho que não acrescentou muita coisa, principalmente porque os custos americanos são brutais. Foi uma experiência, mas resolvemos continuar à moda antiga, senão acabaríamos perdendo a liberdade. E disso nunca abrimos mão.

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 309
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