Entrevista: Hélio Olga Jr.

"Usa-se madeira quando o material é pertinente"

O engenheiro Hélio Olga de Souza Jr. é responsável pela viabilização de uma série de residências em São Paulo estruturadas em madeira. Ele iniciou sua trajetória de trabalhos em madeira com Zanine Caldas

Hélio Olga de Souza Jr.. formou-se em engenharia civil na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo em 1978. Depois de breve período trabalhando em construtora, montou com seu pai a Construtora Ita. A partir de 1984, trabalha exclusivamente com madeira. Desde então produziu cerca de 400 obras, com aproximadamente 100 mil m2.

Entre os diversos projetos de que participou, alguns deles consagrados e premiados, está o de sua própria residência, desenhada por Marcos Acayaba.  

Hélio Olga concedeu esta entrevista a PROJETO DESIGN em seu novo escritório, localizado ao lado de sua casa. Ele falou sobre usos da madeira, tecnologia, ecologia e relações entre engenheiros e arquitetos. 

Seu pai, também Hélio Olga, é engenheiro. Seu interesse pela construção nasceu aí?

A construção é uma tradição em minha família. Meu tio, o arquiteto Clóvis Felipe Olga, é autor do estádio do Parque Antárctica e de diversas casas com estrutura metálica. Meu bisavô era empreiteiro de mão-de-obra e trabalhou para a Severo e Villares, empresa de Ramos de Azevedo. Cheguei a conviver com um tio-avô que também trabalhou com Ramos. Tenho duas irmãs arquitetas, uma delas exercendo a profissão.

Quando eu era criança, meu pai e meu tio tinham uma construtora, e eu convivia muito com obras. Sou mais construtor do que engenheiro. Interesso-me mais por “como fazer” do que pelo estudo de teoria, como faz um engenheiro calculista no sentido clássico da palavra. Minha escolha talvez tenha sido por falta de opção, influenciado pela família. Na verdade, queria fazer algo na área de exatas, como matemática, mas tive medo de não ter trabalho.

E para o engenheiro havia trabalho...

Quando eu entrei na faculdade, em 1973, o engenheiro recém-formado escolhia o emprego. Quando eu saí, em 1978, fiquei seis meses desempregado. O ano de 1973 foi o final de uma época de crescimento absurdo, investimento maciço em obras públicas.

E como começou seu interesse pela madeira?

Fui trabalhar na construtora em que meu pai era funcionário. Em 1978, Zanine Caldas queria montar uma parceria em São Paulo. Ele entrou em contato com meu tio, que o conhecia desde os anos 1950, época em que Zanine fez maquetes, móveis e paisagismo para a construtora que meu pai e meu tio tinham então. Nessa parceria, meu tio entrou com um terreno na Granja Viana, em Cotia, na Grande São Paulo, e Zanine fez a casa.

Eles não tinham quem a montasse, e meu tio me convidou. Quando fui vê-la, estava desmontada, no chão, sob uma lona. Olhei tudo cortado e numerado, da mesma forma que fazemos hoje, e disse para mim mesmo: “É isso que quero fazer”. Meu contato com Zanine começou nesse momento, pois tinha que ligar para ele, para esclarecer dúvidas. Só o conheci pessoalmente seis meses depois. Eu conhecia as casa do Joá, no Rio de Janeiro, por fotos

O início de sua carreira foi influenciado por Zanine. Mas quais as diferenças entre seu trabalho e o dele?

Ele fazia uma pré-montagem no local da produção, desmontava e mandava para a obra. Nunca fizemos essa pré-montagem. Se há necessidade de acertos, fazemos na própria obra. Zanine utilizava mão-de-obra local, de Nova Viçosa, interior da Bahia. Fazia as casas conforme uma retícula que criou no chão, de 1 m x 1 m, casas de 3 m x 3 m, 3 m x 4 m. Quem trabalhava lá não sabia medir, ler ou escrever.

Nós partimos da idéia de qualificar a mão-de-obra. Para isso, fizemos algumas adaptações. As representações de planta, por exemplo, não seguiam os parâmetros profissionais. Em um corte, onde teríamos que representar um pilar atrás que estava fora do alinhamento, não o fazíamos, para facilitar a compreensão. Montamos uma linguagem adequada à mão-de-obra, até que aprendessem
a ler plantas. Assim, formamos uma equipe excepcional, na produção e na montagem.

Então, a diferença entre seu trabalho e o de Zanine é que o dele era mais artesanal?

Sim. Ele pensava que tínhamos de produzir um sistema adaptado àquela mão-de-obra, que nunca mudaria. Nós, desde o início, partimos daquela base para avançar, seja no apuro tecnológico, no entendimento das estruturas, na precisão da montagem e, sobretudo, na qualificação da mão-de-obra.

A idéia de Zanine é ótima, mas, na medida que ele simplificava demais o sistema, a mão-de-obra não evoluía. É claro que Zanine, como arquiteto, tinha uma visão de artista, de pensador. Nossa visão é voltada para como construir, é uma visão de engenheiro.

Nunca me interessou a questão arquitetônica. Eu construo o que as pessoas me encomendam. O trabalho do arquiteto é muito mais complexo do que o do engenheiro.

E hoje, como é o processo de montagem da estrutura?

Desde a compra da madeira até a estrutura montada, é tudo por nossa conta. Compramos das serrarias, fazemos o projeto, adquirimos a ferragem, acompanhamos a montagem. Antes, o processo era muito diluído.

Quando acontecia um problema - por exemplo, uma viga rachada -, quem era responsável? Ninguém queria fazer projeto de madeira pela falta de garantia, não havia um sistema de responsabilidade.

Depois de trabalhar com Zanine, começamos a fazer obras em madeira, até que isso representou 40% do faturamento. Foi um processo gradual e natural, até o dia que passamos a trabalhar só com esse material

O engenheiro Mário Franco, professor da FAU-USP, disse uma vez que queria ser arquiteto. Você também tem esta vocação?

Talvez eu seja um bom engenheiro, mas jamais seria um bom arquiteto. Arquitetura é difícil; engenharia é muito mais fácil.

Qual a razão do conflito entre engenheiros e arquitetos?

Esse conflito, na maioria das vezes, existe entre maus engenheiros e maus arquitetos. Cansei de participar de reuniões nas quais o arquiteto sugere algo que faz sentido, mas o engenheiro preguiçoso, que não quer pensar, diz que não é possível e o arquiteto, sem conhecimento técnico, conforma-se. Nossa equipe está aberta a novos experimentos. Mas a madeira não é a solução para qualquer uso ou problema; ela tem área de aplicação muito definida.

E qual seria essa a área?

Para nós, ela é muito clara, em termos de custo, durabilidade, prazo e pertinência. Por exemplo, prédios com, no máximo, quatro andares, acima disso é complicado; jamais criar situações de contato com o solo; sempre usar beirais grandes.

Você disse que alguns arquitetos não sabem explicar o que querem. Algumas vezes, os arquitetos dizem que os clientes não sabem o que querem. Onde termina essa conta?

Termina em que o cliente é mais importante que tudo. Às vezes, o arquiteto começa com um projeto racional, preocupado com custos, e o cliente muda aqui, muda ali, e chega um ponto em que nem o arquiteto, nem o cliente, nem eu sabemos por que aquilo foi feito. A madeira, nesse aspecto, tem vantagem: como é pré-fabricada, não se pode mudar nada. Utilizamos muito tempo de projeto, mas a montagem é rápida.

O que é muito tempo de projeto?

Em casos mais sofisticados, levamos seis meses para projetar. É muito planejamento e pouca ação, o inverso da construção convencional. Mas a madeira exige planejamento maior em instalações.

Sua casa é considerada uma obra-símbolo da arquitetura brasileira. Ela começou a ser desenhada pelo senhor, que depois pediu auxílio a Marcos Acayaba. É isso?

Não. Desde o início procurei Acayaba e pedi a ele um projeto. Diversas situações dificultavam o trabalho: o terreno, que comprei em 1985, era muito ruim, face sul; a umidade que vem da represa de Guarapiranga é intensa; anos antes da construção, parte da rua desabou, e, então, está cheio de entulho no subsolo; o talude é 1:1; a fundação precisaria ter poucos pontos de apoios.

Ele já conhecia o terreno?

Ele conhecia minha outra casa, que ficava em frente, um projeto do Zanine, de 1978, onde eu morava desde 1982. A primeira coisa que Acayaba me perguntou foi: “Por que eu?”. Eu conhecia uma série de arquitetos da minha geração, e entre mim e ele há diferença de uns dez anos. Achei interessante justamente o fato de ele ser mais velho, inclusive para aprender.

O primeiro projeto que Acayaba fez, em escala 1:100, é exatamente o que foi construído. Fiquei muito surpreso com a proposta, esperava algo muito mais simples, mais discreto, com a casa paralela às curvas de nível, e não prependicular a elas. E esse é o grande lance da casa, pois dessa forma ele voltou os dormitórios para o norte e os banheiros para o sul.

De início, pensei: não vou fazer esse projeto, é caro; tem quatro andares, e eu imaginava um pavilhãozinho. Não tinha dinheiro e não queria vender a outra casa. Mas, conversando com Acayaba, vi que o projeto tinha grande lógica, que resolvia todos os problemas. Estudei-o e disse que, se fosse viável técnica e economicamente, nós o faríamos.

E quanto tempo levou o cálculo da estrutura?

Mais de seis meses. O projeto é de 1987. Começamos a obra em 1989. Levei quase um ano, um ano e meio, para fazer o detalhamento da estrutura, mas não trabalhava só nisso.

Depois desta e de outras obras que realizou com esse material, Acayaba ficou com receio de ser rotulado como arquiteto da madeira. Você também?

Na casa dele, no Guarujá (litoral paulista), ele também utilizou a madeira. Acho que Acayaba tem uma visão parecida com a minha: faz-se em madeira quando o material é indicado e pertinente. Esse é o pressuposto de uma boa arquitetura, de uma boa obra. Partindo de um sistema construtivo errado, tudo vai dar errado. Mas o projeto de minha casa - com quatro andares e balanços grandes - foi muito bom, pois quebrou a imagem de que a madeira é frágil, que só serve para a casinha cheia de pilares. Deu idéia de que a madeira é um material contemporâneo.

Quais outras obras são marcantes tecnologicamente?

A casa de Acayaba, no Guarujá; a residência Baeta, na mesma cidade; e a residência Valentim, em Santa Catarina. Dos trabalhos de Acayaba, para mim esses são os mais importantes.

Na maioria das vezes, seu trabalho usa madeiras de espécies nativas, de difícil reposição. Como fica a questão da ecologia?

Minha empresa fez 400 casas. Se as dividirmos por 20 anos, teremos 20 casas por ano, duas por mês. Não é um volume que represente um problema ambiental. Mas isso não justifica não pensar no futuro. Já fizemos algumas casas com madeira de reflorestamento, como a de Marcelo Aflalo, onde usamos o eucalipto.

Estamos começando a trabalhar com fornecedores com selo verde, que produzem madeira nativa em áreas com manejo, ou seja, com exploração sustentável. Ainda não tenho material certificado, mas a idéia é, em prazo relativamente curto, trabalhar só com esse tipo de produto.

A madeira certificada é mais cara?

Não necessariamente. É mais difícil de obter, pois ainda existem poucas com certificação. A questão econômica, neste caso, não é fundamental para nós, uma vez que a madeira é apenas um insumo. Mesmo que ela seja mais cara, o reflexo no custo final da obra é muito pequeno.

Não tenho nenhum tipo de preocupação em trabalhar só com madeira nativa ou só com madeira de reflorestamento. Primeiro que, em contrapartida, pode existir madeira de reflorestamento que não é certificada. A questão é: todo material tem de ser certificado. Isso vale para todos que trabalham com madeira, que fazem caixilharia, assoalho e até qualquer material de construção civil.

A madeira de reflorestamento não é mais frágil?

Depende da espécie. O Eucalipto ciptodora, por exemplo, tem resistencia quase igual à do jatobá. Só que o crescimento dele é muito lento. Espécies de crescimento rápido - a grandes ou a luna- são mecanicamente inferiores. A casa de Aflalo é um exemplo típico: usamos fechamento externo, deixando a madeira protegida do tempo. Enfim, a boa madeira é aquela bem usada.

Como o senhor vê a possibilidade de explorar tecnologicamente a madeira?

Temos 30% da floresta tropical do mundo. Se conseguirmos explorar isso de forma ambientalmente sustentável - e temos tecnologia para isso -, estaremos inseridos na visão de que o futuro da madeira é muito grande. O que não podemos fazer é continuar não agregando tecnologia. Em 1500, explorávamos toras; hoje, exportamos madeira serrada. Temos que exportar casas prontas, móveis.

Texto de Adilson Melendez e Fernando Serapião| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 264
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