Entrevista: Hector Vigliecca

"Hoje a produção é fantástica"

Nesta entrevista, o arquiteto e urbanista fala sobre sua trajetória e os prós e contras de projetar na escala urbana

Com grande número de trabalhos que envolvem a escala urbana, o arquiteto Hector Vigliecca, nascido no Uruguai, tornou-se um personagem ímpar da arquitetura paulista: além de vencer mais da metade de todos os concursos de que participou, seu discurso - que trouxe importantes contribuições para o debate sobre a contemporaneidade em São Paulo - influenciou uma geração de arquitetos.

O uruguaio Hector Vigliecca se formou em 1968 pela escola de arquitetura e urbanismo da Universidade da República (Udelar), em Montevidéu, na qual lecionou até se mudar para o Brasil, em 1975, no contexto das perseguições políticas empreendidas pelo regime militar em seu país. Trabalhou com Joaquim Guedes e no departamento de arquitetura de uma grande construtora. Foi sócio de Bruno Padovano e atualmente dirige, com Luciene Quel, Ruben Otero e Ronald Werner Fiedler, o escritório Vigliecca & Associados.

O arquiteto defende a vinculação entre o edifício e a cidade - contrária à arquitetura como objeto -, concentrando-se em projetos pertencentes à grande escala. Participa, assim, de inúmeros concursos, nos quais já foi premiado 41 vezes. Nesta entrevista a PROJETO DESIGN, Vigliecca fala sobre sua trajetória, sobre o debate arquitetônico, universidades e os prós e contras de projetar na escala urbana, sempre tão envolvida por interesses políticos não estáveis.

O que o motivou a vir ao Brasil?

Cheguei ao Brasil fugindo do Uruguai. Vivíamos o período de governo militar. Eu era professor da Faculdade de Arquitetura de Montevidéu e teve início uma verdadeira caça às bruxas. Na escola, mesmo quem não estava envolvido direta ou indiretamente com os grupos armados era perseguido. Eu sempre fui militante e tive minha posição política bem definida, o que me custou quase dois meses na cadeia. Em certo momento me chamaram para um interrogatório, que durou um dia. Saí de lá, fui para minha casa, que ficava perto da central de polícia, e arrumei as malas, decidido a ir embora do país.

O senhor tinha algum contato no Brasil?

Muita gente já tinha vindo para cá. O Brasil estava no fim do governo de [Ernesto] Geisel, início do período de [João Baptista] Figueiredo. Existia uma demanda fantástica por arquitetos: qualquer estúdio em que batíamos à porta tinha trabalho para oferecer. Era só ver qual o melhor salário, qual o melhor escritório, e então começar a trabalhar.

Do ponto de vista político, não havia troca de informações entre os governos?

Sim, mas isso aconteceu um pouco depois. Quem me recebeu primeiro, e de maneira extraordinária, foi Joaquim Guedes. A polícia de Montevidéu me chamou para um novo interrogatório, um ano depois de eu ter vindo para o Brasil. Perguntaram-me com quem eu trabalhava, o que eu fazia aqui; depois me liberaram e me deram um passaporte novo. Voltei para cá e trabalhei mais dois ou três anos com Guedes. Depois fui para a Construtora Camargo Corrêa, num departamento de arquitetura chamado Consórcio Nacional de Engenheiros Construtores, o CNEC, onde fiquei por uns dez anos. Isso foi em 1975, eu tinha 35 anos.

O senhor deixou algum projeto em andamento em Montevidéu?

Eu me dediquei muito ao Centro Cooperativista Uruguaio, uma instituição voltada para a habitação de interesse social a partir de um modelo que depois foi adotado na gestão da prefeita [Luíza] Erundina.

E o senhor teve alguma participação?

Não, nunca tive vocação para ser funcionário público. Simplesmente começaram a aparecer concursos de habitação, e ganhamos alguns, perdemos outros. Vila Mara foi uma obra de referência para o Brasil, retomou um discurso que o país tinha esquecido: fazer habitação de interesse social não é só fazer casas, é fazer cidade também. Isso aconteceu em 1987. Mas antes ganhamos o concurso do Sesc Nova Iguaçu [no Rio de Janeiro], que foi o estopim para que eu saísse da CNEC e montasse escritório com Bruno Padovano.

De onde o senhor conhecia Bruno Padovano?

Não me lembro mais; devo tê-lo conhecido no IAB, aqui em São Paulo. Quando cheguei ao Brasil senti falta da atualização que tínhamos no Uruguai em relação ao que acontecia na Europa, ao pensamento inglês, ao Archigram - coisas que passaram em branco por aqui. O Brasil teve um longo período de buraco negro em meio ao processo mundial de transformação do modernismo, do pós-modernismo.

Mas houve quem trabalhasse nesse sentido por aqui.

Uma coisa é você trabalhar com imagens e outra é entender o que quer dizer o movimento, qual a sua leitura do mundo - e isto não foi feito no Brasil. Eu tinha um conhecimento diferente: vinha de uma prática de concursos, coisa que não se fazia aqui havia 20 anos. Logo que cheguei, chamei Guedes para participarmos do concurso para o centro de convenções da Bahia. Ele aceitou, relutante, mas pediu que nos juntássemos a um sócio baiano, amigo seu, o Assis Reis.

O Brasil se esqueceu dele, antes e hoje, mas é um indivíduo de inteligência extraordinária, um arquiteto de mão cheia. O prédio da Chesf [Companhia Hidrelétrica do São Francisco, em Salvador], que ele projetou, é uma das obras mais extraordinárias feitas no Brasil. Dificilmente Assis Reis está presente nos livros, embora revele uma coerência surpreendente entre arquitetura e construção.

O edifício da Chesf é em pilotis, todo feito de tijolos - inclusive os pilares -, algo de engenhosidade e detalhamento espantosos. Vindo de outro país, eu conhecia Oscar Niemeyer, os irmãos Roberto, Lucio Costa, mas nunca tinha ouvido falar de Assis Reis.

A que o senhor atribui esse esquecimento de Assis Reis?

Não sei. Talvez ninguém tenha conseguido entender a obra dele. E também ele é totalmente ermitão. Hoje sabemos que é preciso fazer um pouco de barulho, divulgar o que se está fazendo.

O senhor teve que convencê-lo a participar do concurso?

Foi muito divertido. Comecei a trabalhar com base na filosofia dos projetos do Archigram, ou seja, pensando que o arquiteto não define a arquitetura, e sim uma estrutura que a realidade transforma depois na obra final. Define-se um módulo reprodutor. Um dia Guedes chegou na Bahia e instaurou-se uma espécie de mesa examinadora: ficamos uma tarde inteira discutindo o projeto, até que ele disse que era melhor desistirmos do concurso. Fiquei inconformado e perguntei se ele não se incomodava que eu entrasse no concurso sozinho. Chegando em São Paulo, o irmão mais novo dele, Paulo, disse-me que tinha duas colegas na FAU [USP], recém-formadas, que estavam inscritas no concurso. Entrei na equipe delas.

Qual o nome dessas arquitetas?

Não lembro. Estávamos no escritório de Guedes quando o irmão dele chegou e disse que o Jornal Nacional acabara de noticiar que uma equipe jovem de São Paulo tinha vencido o concurso. Foi assim que aparecemos em página inteira no Jornal da Tarde. Era uma novidade por aqui, fazia tempo que não havia concurso de arquitetura no Brasil. Mas tudo acabou em desastre. O governo da Bahia ficou sabendo que os vencedores eram duas meninas e um estrangeiro, o que acabou motivando a contratação do segundo colocado, a equipe de Maurício Roberto. Por causa disso, o IAB o expulsou da instituição. Foi algo muito triste e eu fiquei constrangido.

Como Guedes comentou sua vitória?

Eu cometi uma gafe, fui ingênuo. Algumas pessoas diziam que era a oportunidade de montar meu escritório, que o contrato era milionário, e então não chamei Guedes para o trabalho. Depois de alguns anos eu me desculpei com ele, disse-lhe que, se ele tivesse participado do processo, o edifício teria sido construído. Não tenho dúvida alguma: teria feito aquela obra se me associasse a Guedes.

E a obra dos Roberto foi construída?

Foi, mas não acompanhei bem. Estive lá há alguns anos, vi de longe, e me pareceu um pouco abandonada. O partido era completamente diferente do meu. Mas, pensando bem, o projeto deles era melhor, era o que eu teria feito agora.

O que aconteceu depois?

Deram-me a brilhante idéia de processar o governo da Bahia, e eu perdi em todas as instâncias.

Nesse momento o senhor estava validando seu diploma aqui no Brasil, não?

Sim. Eu me preparei muito, li uns 40 livros. Foi uma oportunidade fantástica de saber o que as pessoas estudavam aqui.

Por quanto tempo o senhor manteve escritório com Padovano?

Quase nove anos, período em que desenvolvemos todo o projeto executivo e a fiscalização da obra do Sesc Nova Iguaçu. Fiz mais de 800 viagens ao Rio durante os quase quatro anos da obra; pegava um avião todas as terças-feiras. Era um projeto que já pensava na construção do coletivo, tinha um raciocínio extremamente preciso em relação a ruas, praças e níveis, fazendo distinção clara entre o que é e o que não é urbanizado.

Padovano também tinha esse discurso?

Bruno vinha de uma formação em Harvard, com alguns professores que eu admirava profundamente, como Richard Meier. Fiz uma análise pormenorizada da obra de Meier: ele tem uma maneira de realizar arquitetura que é absolutamente extraordinária. A elaboração de sua obra é fantástica, seus projetos revelam exatamente, por dentro e por fora, quais são, no edifício, as áreas principais e as secundárias. Um Palladio do racionalismo. Bruno teve esse contato com Meier e tinha uma cabeça internacional.

Nesse período vocês participaram de outros concursos?

Sim, muitos. Até um de decoração de carnaval na avenida Tiradentes. Ganhamos e o projeto foi implantado. Era a época do cometa Halley, mas nos inspiramos mesmo foi em Aldo Rossi. Acho que foi uma importação indevida.

Quando o senhor começou a lecionar aqui?

Eu já lecionara no Uruguai e comecei logo aqui também. Guedes havia me convidado para dar aulas na USP, mas não aceitei porque me parecia ainda muito cedo para isso. Depois, na década de 1980, comecei a lecionar na graduação do Mackenzie. Agora estou só na pós-graduação. O aluno que chega à universidade tem uma formação muito fraca.

O senhor acha que piorou?

Desde a época em que eu comecei até hoje há uma grande diferença. Comecei acompanhando bancas na USP, a convite de Bruno. O que se via lá era um terror, uma piada. Um aluno fazia o projeto de um sabonete, outro de uma cadeira, outro de um shopping center: não existia nenhum tipo de reflexão ou de contribuição para a realidade.

Hoje a produção é fantástica. Acho que começou a haver mais comunicação, internet, venda de livros, desde que o Brasil saiu daquele buraco negro, e isso mudou muito a qualidade e o volume de informação. Quando cheguei ao Brasil, era um sacrifício comprar a Domus e L’Architecture d’Aujourd’hui. Mas o que me afastou da graduação foi mesmo a carga horária. Não dá para conciliar o escritório com 16 horas semanais de aulas.

Como era o ensino no Uruguai?

Ainda não existia a internet, mas estávamos próximo de Buenos Aires. As faculdades de arquitetura tinham uma vitalidade incrível naquela cidade. Havia a revista Summa, que era bem diferente do que é hoje, produzindo - acho que ilegalmente - umas pequenas publicações feitas de papel-jornal, chamadas Summario, em que se traduziam artigos europeus interessantíssimos. Eles nos colocavam a par das reflexões na Europa, principalmente Inglaterra e depois Espanha.

Num encontro com amigos espanhóis ouvi que, na época de Franco, a atualização da arquitetura naquele país acontecia, curiosamente, através da revista Summa. Era uma revista barata, qualquer estudante podia comprar. E um verdadeiro caldeirão, trazia grandes assuntos e pensadores, como Yona Friedman, Archigram, Alison + Peter Smithson.

A que o senhor atribui a existência desse buraco negro no Brasil?

Não passei essa época por aqui, mas sei que o governo militar praticamente anulou as escolas de arquitetura. Houve muita falta de informação, embora outros países passassem por isso também. Eu falava de Leon Kier, por exemplo, quando cheguei ao Brasil, mas ninguém o conhecia. Acho que hoje nem precisamos olhar para ele, mas naquele momento era importante.

Aqui em São Paulo, o senhor sente que, como uma espécie de Assis Reis, não é valorizado?

Assis Reis nem estava preocupado em ser ou não valorizado. Agora, que arquiteto não aprecia ser reconhecido? Qualquer pessoa que quer dar algo para a vida aprecia o reconhecimento. Todos nós, arquitetos, temos nossa vaidade. Precisamos controlá-la, no sentido de que, quando se exerce a profissão, devemos nos colocar como o diretor de uma peça de teatro, estar por trás das cortinas, deixar que os atores façam a sua obra. Nunca faço arquitetura fotogênica. Acredito que, ao contrário, a boa arquitetura é aquela que desaparece. A vaidade está em ouvir comentários de pessoas que entendem os motivos do projeto.

Então eu lhe digo: em São Paulo, existe certa unanimidade sobre sua influência na formação de uma geração de arquitetos que se contrapõe à escola paulista. O que o senhor pensa disso?

Não sei dizer. O que é a escola paulista?

Paulo Mendes da Rocha, por exemplo.

Eu admiro Paulo Mendes, gostaria de fazer o que ele faz, ter a contundência dele. O Museu Brasileiro da Escultura é um nó urbano, não foi pensado para ter grades. Estamos falando de um mestre. Escola paulista é o concreto?

Uma visão da estrutura em primeiro plano, visão de objeto, espaço contínuo...

Sim, está bem, 90% dos arquitetos fazem objetos.

O senhor não.

Eu não faço objetos. Mas na obra de Paulo Mendes a estrutura é a própria arquitetura, e isso é muito difícil de fazer, vamos ser francos. Tentam imitar, mas é muito difícil chegar a essa capacidade de síntese. Acho que deixei algumas sementes, como os membros do Grupo Arquitetura [NPC], que foram meus estagiários e são hoje arquitetos de mão cheia. Marcelo Barbosa também, mas não sei exatamente qual é a minha influência, nem se ela chega a se contrapor a algo maior.

Sob esse ponto de vista, vemos poucos projetos seus realizados, se considerarmos o peso de seu nome, não?

Sinceramente, acho que tenho azar: 90% da minha obra está aqui, nas gavetas. Eu sempre tive vontade de fazer projetos para grandes escalas, e é isso que tenho de monte aqui. Só que trabalhar em escalas tão grandes é estar vinculado ao poder público, o que é algo complicado no sentido da realização: habitação de interesse social, urbanização de favelas, planos de operações urbanas, e agora os estádios, nada disso tem agilidade. Mas tem gente que tem uma sorte imensa! Mario Biselli, que aprendeu a fazer concurso comigo, hoje tem duzentas obras construídas, enquanto eu tenho quatro!

E isso angustia o senhor?

Claro que me angustia. Brutalmente. Mas também tenho um consolo: fizeram a mesma pergunta a Paulo Mendes da Rocha e ele respondeu que até se alegra por alguns de seus projetos não terem sido construídos.

O que o senhor destacaria entre seus projetos atuais?

Um muito interessante é o laboratório da Petrobrás na Ufscar [Universidade Federal de São Carlos, no interior de São Paulo], resultado de um concurso feito pela própria universidade. Entregamos o projeto executivo, as obras começam este ano. Estamos tentando também retomar um projeto com Rio Claro. Imagine, é uma cidade que se criou a partir do traçado do trem, o qual funciona como uma divisória no município. A Fepasa montou oficinas de manutenção numa área imensa no meio da cidade: são 370 mil metros quadrados, em torno dos quais Rio Claro cresceu. É uma área vazia!

Negociamos a transferência das instalações para fora da cidade, para fazer uma grande operação urbana no lugar. A cidade tem, bem perto, um aeródromo abandonado, também com uns trezentos e tantos mil metros quadrados. Fizemos duas grandes operações urbanas. Mas se você me perguntar quando verei o resultado disso, eu respondo que não sei.

Além dos estádios de futebol...

Estamos fazendo oito projetos. Fomos melhorando de um projeto para outro, ficamos experts. Mas perdemos alguns: desenvolvemos o projeto e de repente o desenho apresentado é outro. Em todo caso, estamos associados a grupos muito fortes. Investimos bastante dinheiro nisso.

Mas os trabalhos não foram remunerados?

Na maioria sim, em relação aos custos. Mas nós fizemos uma viagem de três meses para a Europa, analisamos estádio por estádio da Copa da Alemanha. Produzimos umas 300 páginas de estudos.

Esses projetos com programas esportivos começaram com o concurso do Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo?

Sim, foi a partir dali que começamos a ser procurados - embora naquele momento tenhamos desenvolvido o projeto de forma intuitiva.

E como está aquele projeto?

Parado. Precisavam de um projeto básico pronto, algo muito complexo porque envolvia dois ginásios, a piscina, os espaços intermediários, hotel. Foi um trabalho brutal e, agora, está tudo parado. Não dá para entender, politicamente, porque o lugar é privilegiado. Ter uma unidade de excelência esportiva no meio da capital, em frente do parque Ibirapuera, é uma grande oportunidade. E o equipamento está em estado lamentável, não dá para abrigar nenhum tipo de competição.

Em que outros projetos o senhor está trabalhando?

Em três livros sobre a obra do escritório, abordando os concursos nacionais, os internacionais e a habitação social.

De quantos concursos o senhor já participou e quantos venceu?

Foram 77 concursos, 41 prêmios e nove primeiros lugares.

Texto de Evelise Grunow e Fernando Serapião| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 349
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora