PERFIL

Entrevista: Gustavo Penna

"Meu avô dizia: 'quantos vivem a buscar o ideal no espaço, e o ideal aqui na terra, ao alcance dos nossos braços'"


Foto: Jomar Bragança

COMO O SENHOR SINTETIZA SEU PROCESSO CRIATIVO?

Minha preocupação é interpretar bem a demanda do projeto e isso significa abordá-lo bem por todos os ângulos, o que é da abordagem típica do arquiteto. Para começar, gente, para mim, é plural e não singular. Quando a demanda vem do cliente - que é importantíssimo -, não é ele o foco principal. Eu quero também imaginar a rua onde vai ficar a arquitetura, as pessoas que vão olhar. Um prédio, um edifício qualquer que ocupa um espaço no mundo precisa pedir licença para estar ali. Licença ao prédio do lado, licença com relação à calçada e com os outros prédios. Ele  tem que estabelecer uma relação de harmonia.

Quando o meu cliente é o “editor” dessa proposição, ele que encomendou, ele começa a entender que deve contribuir para que o objeto arquitetônico que vai surgir seja até mais sedutor, seja mais harmonioso, que convide ao olhar, à percepção. A questão dele, cliente, também dever ser analisada com muito carinho.

Tenho muito a noção de empatia, de me transferir para o lugar da pessoa, de ouvir de dentro e tentar não censurar. Então, você tem de descobrir uma intenção bonita daquela atitude, do desejo de construir, de ampliar sua estrutura, de beneficiar alguém. Quando essa interpretação é feita de uma maneira mais precisa, sem ser muito datada, a arquitetura tende a durar mais tempo e cumprir outras missões. Então, basicamente, o trabalho é esse: de compreensão do que significa a demanda.

O QUE MUDOU NA SUA MANEIRA DE EXERCER A PROFISSÃO DESDE A ÉPOCA DA SUA FORMAÇÃO ATÉ OS DIAS ATUAIS?

Mudaram as ferramentas de trabalho e o escritório ficou mais informatizado. O grupo que trabalha comigo hoje é formado por pessoas que nos conhecem há mais tempo, que já jogam por música. É como se tivéssemos capacidade de descobrir antes onde algo está falhando e encontrar solução para aquilo.

Eu persigo as mesmas coisas que perseguia quando saí da escola. Não fosse assim, como eu sobreviveria esse tempo todo? Não ia conseguir conviver comigo mesmo. Se você não tem honestidade de propósito consigo mesmo, com as buscas, não dá para acreditar em arquitetura e que ela seja capaz de melhorar a vida das pessoas. Acreditar que a arquitetura não é só construção de boniteza, mas da beleza.

Muita gente me pergunta se arquitetura é dentro ou fora. Não é dentro, tampouco fora: é através. A questão do ser através é a mesma em que eu pensava quando saí da escola. É um prédio que não converse somente com ele mesmo, mas que proponha um diálogo com o mundo e que os espaços externos sejam tão arquitetados quanto os internos. E que disponha de áreas de convite ao convívio.

O QUE MAIS AGRADA E O QUE MAIS INCOMODA NO OFÍCIO, NA FORMA COMO HOJE O EXERCE?

O que mais me agrada é fazer várias coisas diferentes ao mesmo tempo. No momento em que estou intervindo em área de 9 milhões de metros quadrados - praticamente uma cidade -, em Governador Valadares, estou fazendo uma pequena capela ou um museu em uma cidade histórica. São formatos pequenos e propostas que variam de tamanho e função: hospital, escola, teatro, estação de televisão, museu, praça, monumento. Tudo isso provoca a invenção. O gostoso disso é inventar.

O que me incomoda é a falta de cultura do Brasil para a arquitetura. Até parece que existe um sistema que impede que as coisas saiam perfeitas, que saiam do jeito que foram pensadas. Parece existir um momento na obra em que os vários atores da cena arquitetônica começam a se dar o direito de alterar o trabalho. Não falo isso com arrogância, mas com tristeza, porque cada um tem sua missão. A minha é fazer com que a ideia pactuada no início chegue até o final.

Acredito que não haja outro país do mundo - pelos menos nos países civilizados - onde ocorra o que se dá aqui. Imaginava que, com mais tempo de produção, isso fosse se acabando, mas ainda é recorrente. Às vezes o gerente do contrato da obra se sente autorizado a fazer alterações no projeto. As entidades de classe - conselhos de arquitetura, IABs - e as escolas deviam conduzir um grande processo de elucidação a esse respeito, porque os próprios arquitetos não estão sabendo qual é a sua missão.

QUAL A PERSPECTIVA PARA OS ESCRITÓRIOS DE ARQUITETURA NUM PAÍS EM CRISE?

O mundo nunca precisou tanto de arquitetura como atualmente. As cidades não serão mais as mesmas e terão que ser repensadas pela mobilidade urbana, pela questão energética, pelas mudanças climáticas. O arquiteto tem que partir para o ataque, perder as esperanças, no sentido da afirmação feita por André Comte-Sponville [filósofo francês], no livro A felicidade desesperadamente. Ele diz que a esperança paralisa. Perder a esperança significa, então, colocar-se em ação, resolver problemas.

Essa é uma atitude parceira, generosa, e atitude solidária, no sentido mais bonito do termo. Não o termo como é usado muitas vezes pelos políticos e sim com a ideia de participar. Às vezes tem uma praça que a comunidade está procurando fazer, você vai lá e ajuda. Como remunerar? Às vezes tem uma pessoa que pode pagar por aquela obra e pode também pagar você.

Eu falo para os alunos das escolas de arquitetura: em vez de ficar esperando alguém contratar você, parta para a luta, comece na sua rua. Faça uma proposta para a prefeitura, junte, encomende-se um projeto. Pegue esse tempo que você está gastando em chorar, faça um projeto dentro do seu escritório e apresente para a comunidade. Tente arranjar pessoas capazes de mobilizar recursos para a realização disso. Procure fazer como Lina Bo Bardi falava: com o que se tem à mão. Meu avô dizia: “Quantos vivem a buscar o ideal no espaço, e o ideal aqui na terra, ao alcance dos nossos braços”.

CLIQUE AQUI para conferir o perfil do escritório Gustavo Penna Arquitetos & Associados.



Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 431
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