PERFIL

Entrevista: aflalo/gasperini

"Esse é um dilema nosso, pensarmos que nossa responsabilidade de arquiteto é fazer a interface entre os valores culturais, urbanísticos e a viabilidade dos projetos"

Como é trabalhar no terreno das suposições do mercado imobiliário?

Luiz Felipe Aflalo Herman Estamos sempre de prontidão, com sede de colocar na mesa um novo terreno ou projeto. Mas, no início, é um trabalho com grande dose de irrealidade, nem mesmo o terreno é do empreendedor. Então, fazemos um estudo rápido, baseado em um conjunto de suposições. Quando finalmente o cliente nos contrata e aquilo vira projeto, começamos a nos questionar sobre o que fizemos antes.
José Luiz Lemos da Silva Neto A cidade está se remodelando e novas áreas estão surgindo. Por vezes, começamos a trabalhar com três hipóteses de terreno para um mesmo projeto. É difícil o cliente chegar com o lote já pronto para nós.  

Vocês fazem por vezes, então, as vezes do empreendedor?

Grazzieli Gomes Rocha Sim, faz parte do nosso escopo tomarmos decisões que impactam no produto final, como o tamanho das lajes por exemplo. De qualquer forma, mesmo sendo mais indefinido este nosso campo inicial de trabalho, acho que o nosso processo é próprio do arquiteto, de querer melhorar sempre.
Roberto Aflalo Filho Todas as boas soluções tem valor agregado. As vezes é uma pena perdermos o exercício, mas é sempre possível resgatá-lo em outro trabalho.
LF A experiência não morre. Fomos adquirindo uma visão de maior alcance, para elucidarmos algo que está além da encomenda do cliente. 
RA Existe a área imobiliária, com sua dinâmica própria. Participamos de especulações, criamos tabela de áreas, a volumetria do prédio, sua linguagem, uma sequência, enfim, para tornar o trabalho cada vez mais real. Mas a incerteza é inerente ao projeto. Ele é um balão de ensaios de algo que vai acontecer no futuro. Quando você consegue materializar algo é que o cliente entende o projeto e, para ele, então, surge algo de valor.  

O que é esse algo palpável?
JL
 Para alguns, uma imagem, para outros, uma planta. Alguns querem entender os fluxos, outros querem ver números. Nesse momento inicial, então, é sempre importante entender o que é fundamental para cada cliente para fazermos o trabalho evoluir.
LF Houve uma grande transformação na arquitetura. Antes, você podia trabalhar isolado numa ilha, com um papel e uma lapiseira. Mas o nosso escritório foi ganhando um corpo ferramental, que traz um conteúdo muito grande. E, em resposta, o cliente foi esperando receber sempre mais. Um bom projeto tem que ter diferenciais, e o cliente, então, quer ver tudo. É um processo desgastante.  

O cronograma é inimigo dos projetos para o mercado imobiliário?
RA Você está construindo a cidade mas, por outro lado, tem que dar soluções muito rápidas. Esse é um dilema nosso, pensarmos que nossa responsabilidade de arquiteto é fazer a interface entre os valores culturais, urbanísticos e a viabilidade dos projetos. 
GG Mas o imediatismo faz parte do jogo.
LF E a reflexão é importante, sempre. A sensação é de que estamos vivendo muito perigosamente.

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 434
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