Entrevista

SuperLimão Studio

A arquitetura que conta histórias é o universo em que se move o trabalho do SuperLimão Studio, que completa 15 anos de existência em 2017 e já tem mais de 80 projetos executados, desde residências até escritórios, lojas e restaurantes. Perenidade dos projetos versus customização da arquitetura, a necessidade de personalização dos espaços em época de comunicação instantânea e consequente pasteurização das obras, o bom senso como prerrogativa para a sustentabilidade e o conhecimento abrangente do profissional de arquitetura são assuntos abordados na entrevista a seguir

Arquitetura, design, comunicação visual, desenho industrial, branding. Tudo isso faz parte dos projetos do SuperLimão Studio, escritório criado em 2002, em São Paulo, e que, entre idas e vindas de sócios e fundadores, é atualmente liderado por Thiago Rodrigues, formado pela FAAP (2001), Lula Gouveia, engenheiro e formado arquiteto pela FAU/Mackenzie (2007), e Antonio Carlos Figueira de Mello, que cursou turismo (Cásper Líbero, 2006) e, pós-graduado em marketing, teve experiências anteriores com projetos relacionados à questões ambientais. O trio está junto no SuperLimão desde 2007, que nesses 15 anos de existência já teve mais de 80 projetos executados.

A multidisciplinaridade é palavra chave dos seus trabalhos, o que significa dizer que, do revestimento ao mobiliário, dos sistemas arquitetônicos à produção dos objetos, não há limites para a criatividade do SuperLimão. Sua sede, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, é assim um misto de escritório de arquitetura, onde inexiste a compartimentação hierarquizada de salas, e oficina de protótipos, pois uma das práticas comuns da equipe é dar novos usos a materiais e sistemas industriais.

Eles compreendem que o seu papel é entender os fluxos e as atividades dos espaços como uma extensão do indivíduo, e criar ferramentas com potencial para o desenvolvimento de novas tecnologias. Na sua comunicação institucional, assim, dizem buscar “novas linguagens estéticas inspiradas no dia a dia, reunindo a funcionalidade, a simplicidade, a estética e o prazer. Temos como missão criar novos processos e concepções de espaços, questionando os modelos existentes, destacando os erros e acertos e buscando sempre aperfeiçoar esse desenvolvimento”.

Vocês possuem atuação 360 graus, ou seja, concebem desde a arquitetura da edificação até o mobiliário e a produção visual. Sem mencionar a customização que fazem de sistemas industriais, normalmente usados com outras finalidades. Como se construiu essa filosofia de trabalho dentro do escritório?
Thiago Rodrigues A atuação multidisciplinar ligada à arquitetura foi uma visão muito comum no passado recente da profissão. Os arquitetos modernos faziam do mobiliário à comunicação visual, ensinava-se desenho industrial nas escolas. A divisão de tarefas é que veio depois, na história. Desde o início, nosso compromisso foi criar uma linguagem consistente, tanto na arquitetura, como no mobiliário e assim por diante. Nos parecia estranho o desmembramento das áreas de conhecimento que afetam a percepção que o usuário tem do espaço.
Lula Gouveia O perigo da segmentação é o conjunto perder unidade. Além das formações multidisciplinares das pessoas que foram construindo o SuperLimão, eu destacaria também o fato de nós, por muito tempo, termos sido os responsáveis pela construção dos nossos projetos. Eram criações malucas, difíceis de serem aceitas pelos fornecedores e parceiros. Cansamos de ouvir que eram inviáveis e, então, tivemos que entender um pouco de tudo para viabilizarmos as nossas ideias.
TR A experiência da pessoa no espaço não percebe a divisão disciplinar. Mesmo quando trabalhamos com parceiros, fazemos questão de que seja tudo desenvolvido em equipe, para garantirmos a sintonia dos projetos.
Antonio Carlos Figueira No início, tivemos um trabalho intenso de conscientização dos clientes sobre a importância de contratarmos equipes capazes de, com a gente, criarem a comunicação global da empresa. Sobretudo nos projetos comerciais e aqueles ligados à receptividade, como os restaurantes, é imprescindível oferecer experiências completas aos usuários.

Qual foi o primeiro projeto em que vocês atingiram esse propósito?
ACF
 Eu citaria alguns projetos, em fases diversas, que foram criando um conjunto de inovação. Acho que tivemos pontos de evolução na nossa trajetória, com marcas grandes, como o [showroom da] Firma Casa [em São Paulo], que começou a ser desenvolvido em 2009 e ficou pronto em 2011. Ele nos trouxe uma mega projeção, inclusive porque tínhamos os Irmãos Campana como parceiros. Também o Google Campus, em 2015, foi um ponto forte na nossa carreira. Teve pouca divulgação, por questões do cliente, mas a grande velocidade associada à multiplicidade de questões técnicas que ele requeria foi algo diverso na nossa trajetória. Temos também uma série de experiências com restaurantes, lojas, em que trouxemos agências de comunicação e de branding para trabalharem com a gente, e aonde a arquitetura e a comunicação das marcas foram desenvolvidas juntas, acho que de forma notória. Como o Riba [restaurante, com unidades em São Paulo e no Rio de Janeiro, esta ainda em construção] e o bar Dona Vitamina. O escritório tem hoje mais de 80 trabalhos implantados e, deles, pelo menos 60 foram de execução nossa.
LG Apesar de termos essa formação mais abrangente, passando por todas as áreas, nossa pretensão não é a de fazer tudo, sempre. O bom de conhecer o global é sabermos quando é hora de trazermos as especialidades, como a programação visual e o paisagismo, a luminotécnica, e, nesse sentido, irmos formando equipes eficientes, preparadas paras as nossas peças fora do padrão - eficientes e econômicas. Por isso, eu não citaria um projeto especificamente, mas partes dos nossos vários trabalhos.

Personalização é palavra chave na arquitetura do SuperLimão. Que barreiras encontram para criarem projetos especiais, únicos?
LG
 Não é em tudo que dá ou que precisamos inventar. A maior barreira, seja de fornecedor, do parceiro ou do cliente, é o preconceito que existe em relação à destinação dos materiais e sistemas. Há uma certa resistência à inovação no Brasil. Mas a partir do momento em que você demonstra que é algo possível, e que depende de muito estudo, teste, protótipo, ela se desfaz. Temos que entender a cadeia produtiva como um todo, estarmos informados sobre o ferramental e os materiais habituais do fornecedor.
TR Quando começamos a ser contratados para projetos maiores, onde, por exemplo, criamos unidades distintas para a mesma marca, tivemos que inventar artifícios para personalizar cada espaço. Isso faz sentido para a experiência da marca. Nosso trabalho conta histórias e as pessoas não toleram mais a ideia da repetição na arquitetura.
ACF Colocando isso num panorama atual, a customização está cada vez mais presente nos processos criativos. É tendência contrária à produção em massa, sem personalização, como a que faz a China. Vários dos nossos fornecedores, então, com linhas industriais, têm nos procurado para fazermos projetos especiais. Isso porque, cada vez que a produção começa a se repetir, surge uma cópia, mais barata e com pior qualidade. Uma prática negativa do mercado que faz com que as empresas mudem o tempo todo. Trazemos essa questão em várias frentes do nosso trabalho. Cada material cria um espaço, uma arquitetura diferente.
TR Juntando todos esses fatores, a China, a produção em massa, a crise e onipresença de instrumentos como Instagram como referência visual para os projetos, o que está acontecendo é uma pasteurização geral da arquitetura. Todos os restaurantes usam a mesma cadeira, que nem é a original.

Mas a arquitetura não é moda, ela é feita para durar. Como conciliar customização e perenidade dos projetos?
LG 
Cada projeto tem a sua natureza. Alguns devem durar muito tempo, outros não. O importante é pensar no ciclo todo, tentando trazer o máximo de flexibilidade para o projeto. Esta é uma maneira de trabalhar com essa necessidade constante de reinvenção, sem desperdícios.
TR Nos projetos residenciais, aprendemos muito sobre customização. Partimos de uma tela em branco, que vai sendo preenchida pelo morador. Temos que entender como ele usa a casa. Um apartamento reflete o seu morador, mas isso não significa que não existam pessoas que busquem histórias parecidas.

Quais as suas referências profissionais? É a arte, o design, a moda ou a arquitetura?
TR
 Discutimos muito a questão da função e da estética. Tem um aspecto curioso: embora a gente não se rotule em determinado estilo, as pessoas fazem isso conosco. Nos chamam de industriais, por exemplo, porque costumamos usar materiais modulares - a flexibilidade que vem da indústria. O estilo, então, acaba sendo consequência dessas decisões sobre materiais. Mas, na nossa percepção, excedemos o universo industrial. Ou seja, somos vários estilos ao mesmo tempo. Outra coisa que aprendemos com os projetos residenciais foi transportarmos a personalidade do morador para a arquitetura. Seja nos revestimentos ou nas características espaciais. Há apartamentos de natureza social, destinados a receber amigos, outros em que a ideia é promover o isolamento. O design do mobiliário depende desse uso pretendido. Como sempre tivemos profissionais de várias disciplinas convivendo no escritório, essa reflexão é natural para nós. Qual a sensação do morador quando ele entra na casa? O que ele enxerga de material? Nossos projetos têm essa abrangência.
LG Certa vez, fizemos uma palestra numa maratona de arquitetura, de incentivo a estudantes e jovens profissionais. O palestrante que nos antecedeu foi surpreendente, no mau sentido. Aconselhou a plateia a não perder tempo com os conceitos dos projetos, ao contrário, disse que deveriam sobretudo produzir imagens belas. Isso nos assustou, porque dizer que o importante é fazer um projeto bonitinho era a pior mensagem a se passar para aqueles jovens. O que nós fazemos é estudar muito o conceito, o cliente, a história do lugar e, a partir daí, resolvermos os materiais, etc. Quando o projeto vem muito bem embasado, ele tende a durar. E quando muda, muda de uma maneira mais fácil. Mas quando é ruim, é ruim para sempre.
TR Somos conhecidos como um escritório de projetos sustentáveis. É algo com que nos identificamos mas, ao mesmo tempo, é perigoso, porque o sustentável virou uma etiqueta aplicável a qualquer coisa. Acho que o mais importante é o bom senso, no sentido de se fazer o uso consciente dos recursos. A acessibilidade irrestrita à tecnologia fez mal a toda uma geração de arquitetos, enquanto que, com bom senso, você pode ser criativo e responsável com os materiais e as técnicas. Isso sim é que deu embalo para o nosso escritório. Já tínhamos bagagem sobre isso e fomos ajudando a divulgar essa concepção abrangente do termo sustentável. Este é um dos grandes motores do escritório atualmente.

Como se organiza o escritório para a filosofia de trabalho de vocês ser viável financeiramente?
ACF
 Nos questionamos continuamente sobre isso, testamos continuamente modelos de gestão. Não temos a subdivisão em departamentos - de criação, estudo ou conceito, executivo e equipe de obra. O que existe é uma certa hierarquia, mais relacionada ao tempo de trabalho das pessoas aqui no escritório. O mais importante, porém, é que cada profissional acompanha o ciclo completo do trabalho em que está envolvido, amparado pelo responsável do projeto. Eu, por exemplo não sou arquiteto de formação, então, me dedico ao administrativo, financeiro, comercial e comunicação. Já o Thiago e o Lula se dividem na parte técnica. Mas nós três tentamos participar, juntos, da conceituação dos projetos. Depois, cada um acaba tendo suas responsabilidades dentro do escritório.

Em que ponto estão na sua trajetória empresarial? Têm planos de expansão? 
ACF Há espaço para crescimento no mercado, mas penso que isso não está necessariamente relacionado ao tamanho da equipe. Estamos sempre preocupados com o aumento da qualidade dentro do escritório e como temos que nos estruturar para que isso aconteça. Diria que temos, hoje, um bom tamanho, maior do que em certas épocas, menor do que em outras. Não precisamos crescer para termos mais projetos, considerando inclusive as parcerias com outros escritórios. Nosso objetivo é priorizar a qualidade e termos uma equipe de alto nível profissional, embora não muito grande. Também os clientes se profissionalizaram. Hoje, já chegam falando da marca, das prioridades do fundo de investimento, sobre o plano de expansão, etc. Somos jovens, há muito o que desenvolvermos ainda. Acho que estamos na primeira metade da nossa história.
TR Queremos manter o tamanho que nos permita estarmos envolvidos de perto com os projetos. Não queremos perder a mão, ficarmos girando a máquina e passando de vez em quando na obra para ver como ela está andando. 

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 438
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