Entrevista

Fórum Internacional de Arquitetura e Construção

Ao assumir a curadoria do dia da arquitetura no Fórum Internacional de Arquitetura e Construção, evento que é realizado anualmente e simultâneo à Expo Revestir, a PROJETO sugeriu aos promotores do evento que a atenção da mais recente edição - a 15a - se voltasse para a arquitetura brasileira. A proposta estava ancorada na experiência de quatro décadas em publicar o melhor da produção nacional em sua especialidade. Para a conversa/ debate, a revista convidou uma seleção (mínima) de seis escritórios constituídos por profissionais de diferentes gerações que têm suas trajetórias vinculadas à da publicação

Foto: Fpepe Guimarães

Paulo Roberto dos Santos Barbosa, do estúdio São Paulo Arquitetos, ainda não tinha nascido quando Roberto Loeb, do escritório LoebCapote Arquitetura e Urbanismo, formou-se, em 1965, pela FAU/Mackenzie. Quatro décadas depois, Barbosa graduou-se pela Universidade Santa Cecília/Santos e, onze anos após sua formatura, compôs o time vencedor do concurso para a futura sede conjunta, em Brasília, do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR) e do Departamento do Distrito Federal do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB/DF), competição da qual o experiente Loeb participou como jurado. “Fui a favor do projeto de vocês” contou Loeb no último dia 10 de março, quando ele e Barbosa reencontraram-se no Transamérica Expo Center, em São Paulo, para participarem do Dia do Arquiteto, derradeira seção do Fórum Internacional de Arquitetura e Construção (Fiac), evento que ocorre simultâneo à Expo Revestir, uma das mais importantes mostras de inovações (produtos e tecnologias) para a arquitetura e construção. Em 2017 a Expo Revestir completou quinze edições sequenciais, mesmo número de sessões do fórum, que neste ano reuniu diferentes e representativas gerações de profissionais do traço para uma agradável conversa/debate.

Realizado pela primeira vez com curadoria da PROJETO, em sua mais recente edição o Fiac teve como foco a arquitetura brasileira - em anos anteriores estiveram no fórum o arquiteto japonês Kengo Kuma, o português Eduardo Souto de Moura, que recebeu o Pritzker em 2011, entre diversos outros grandes nomes da arquitetura mundial.

Para Fernando Mungioli, publisher da PROJETO, o tema foi uma forma de homenagear os arquitetos do país e a produção nacional, no ano em que a revista completou quarenta anos de existência. Seis escritórios (Andrade Morettin Arquitetos; Gustavo Penna Arquiteto & Associados; Biselli & Katchborian Arquitetos Associados, LoebCapote Arquitetura e Urbanismo, FGMF Arquitetos e Una Arquitetos), que tiveram parte de suas obras publicadas pela revista ao longo desses anos, foram convidados para apresentarem suas trajetórias, mostrarem seu projetos, discorrerem sobre seus métodos de trabalho e aspirações, para uma plateia que somou mais de 1.100 pessoas. Em seguida, responderam à indagações de seus pares mais novos (exceto Gustavo Penna, que por um contratempo saiu antes do início do debate).

Barbosa, do São Paulo Arquitetos, quis saber de seus colegas mais antigos - “levei três dias para formular a questão”, ele brincou - se a arquitetura que observara nas apresentações era capaz de desenhar cidades melhores, ou se a construção feita de forma espontânea, sem a mão dos arquitetos, tinha maior peso na construção das cidades.

Escolhido entre seus sócios para também fazer uma pergunta, Gabriel César e Santos - que faz parte do escritório Coa Associados, parceiro do São Paulo Arquitetos no projeto vencedor do CAU/BR e IAB/ DF - pediu aos participantes que mencionassem e comentassem sobre seus mestres ou referências. Pinçado da conversa, o que o leitor encontra a seguir é um extrato desse encontro que, a partir de tais indagações, derivou para uma série de temas pertinentes ao universo da arquitetura.

Paulo Roberto do Santos Barbosa - Arquitetura faz cidades?
Roberto Loeb Fiz parte do júri e fui a favor do projeto [da sede do CAU/BR e IAB/DF] de vocês, que conquistou uma posição muito interessante na implantação e na arquitetura. O que nos preocupou desde o início era o valor da construção, porque temos que mostrar para os clientes - principalmente aos engenheiros - que somos capazes de fazer obra dentro do custo e principalmente por ser a sede do CAU/ BR e do IAB Brasília. Respondendo a parte da sua pergunta sobre a periferia e a grande quantidade de obras feitas sem arquitetos, considero que, no Brasil, os depósitos de materiais de construção são verdadeiras farmácias, onde se procuram remédios sem nenhuma orientação. Deveríamos fazer um esforço para criar grupos de arquitetos jovens trabalhando junto a esses depósitos, para orientar pequenos empreendedores e pessoas que querem construir suas casas, para que tenham melhor qualidade, desempenho e custos possíveis. Os projetos que realizamos são aqueles que gostamos de fazer, mas não representam o crescimento das cidades. São símbolos de qualidade, referências, mas há muita coisa para fazer para resgatar as cidades.

Fernanda Barbara 
A pergunta tem uma dimensão ainda mais forte quando falamos de projetos urbanos, em função da extrema dificuldade que enfrentam para serem implementados. Acho que, nesse âmbito, podemos falar em crise do projeto. Mas talvez crise não seja adequado porque o Brasil nunca viveu uma estabilidade ou uma forma de gestão pública que assumisse, de algum modo, formas de fazer um planejamento, um projeto urbano participativo, de construção programada e desejável para a maioria da população. Nunca vivemos esse momento. Apesar de ter havido um maior número de projetos urbanos dentro da nossa geração, não houve maior quantidade de implementação. Talvez tenhamos conquistas do ponto de vista de legislações. Também há questões políticas envolvendo essa falência. Nós que damos aula sabemos que essas questões sobre a forma de fazer, hoje fortemente levantadas pela nova geração, são muito importantes de serem apreendidas nesse momento.

Vinícius Andrade 
Essa questão [de fazer as cidades] é a pergunta do momento e pode abrir uma reflexão quanto às possíveis formas de atuação do arquiteto na cidade e na sociedade. O grupo de arquitetos que está aqui representa uma certa forma uniforme de atuação, via demanda do cliente - seja ele público ou privado - com um programa e lugar pré-determinados para os quais procuramos uma solução. Discutimos muito nas universidades com os alunos se essa é a única maneira de o arquiteto atuar. Não tenho as respostas de quais são as possíveis maneiras, mas já sabemos que não é a única. Acho interessante quando você adiciona outro elemento à pergunta que é a autoconstrução, que, de fato, representa um volume gigantesco. Nossa produção é irrisória no desenho da cidade. Talvez sejamos capazes de produzir um elemento de referência, mas não estamos fazendo a cidade melhor. Hoje o maior arquiteto do Brasil é o sistema da laje pré e o tijolo cerâmico. Este sim está fazendo a cidade. Existe uma lei nova, federal, recém-aprovada - uma conquista do CAU - que é a lei da assistência técnica. Em Brasília, está sendo praticada. A Codhab [Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal] oferece um serviço público de assistência técnica em projeto de arquitetura. Em Ceilândia (DF), quem quiser reformar, ampliar ou fazer a sua casa, tem um arquiteto prestando um serviço público para projetar para você. É uma forma de atuação inusitada. Não sei no que vai dar, mas me parece uma iniciativa muito interessante.

RL 
O escritório sempre se envolveu em projetos sociais. Por exemplo, o [edifício] São Vito [projeto de Aron Kogan], que fizemos propostas de reconstituição e acabou sendo demolido [em 2011]. A zeladoria urbana foi uma ideia nossa, no centro da cidade, pensando que cada rua poderia ter um síndico, como se fosse um edifício deitado. Esse projeto foi implantado, em algumas ruas teve muito sucesso porque cuidavam da iluminação, das questões do lixo, das questões de segurança. O escritório não ganhou com isso, mas a cidade, com certeza. Fizemos também o primeiro Poupatempo, uma proposta para responder ao que eu tinha sofrido na juventude, na espera dos balcões. Usamos um sistema de atendimento em mesas, criando uma relação direta entre quem vai pedir e quem oferece o serviço. Acho que nosso trabalho começa com sentir na pele a dificuldade que os outros passam.

Gabriel César e Santos - Quais são os seus mestres e referências?
Mário Biselli Antes de mais nada, quero homenagear um grande mestre que foi o Carlos Bratke. Acredito que ele teve um período em que, com a sua experiência, construiu um assunto de muito interesse para a arquitetura. Em 1985, quando cursei o quinto ano [na FAU/Mackenzie], tinha quatro professores que acabaram se estabelecendo como mestres para mim: Carlos Bratke, Roberto Loeb, Décio Tozzi e Antônio Carlos Sant’Anna Júnior. É engraçado como se constitui um mestre na cabeça da gente porque, às vezes, a arquitetura acaba sendo uma questão periférica. E essas pessoas pareciam ter uma elegância incrível, uma autoridade, um discurso muito bonito, um modo de explicar e expor as ideias. Depois fui trabalhar com o Héctor Vigliecca, que também se tornou muito importante para mim.

Fernando Forte 
Ao contrário dos meus sócios [do FGMF Arquitetos] não fiz estágio, mas acho que, para ser seu mestre, deve ser alguém mais próximo. Falar em Renzo Piano ou outros que são ídolos fica muito distante. Na faculdade tive algumas experiências com pessoas que passaram essa sensação para mim, como o Abrão Sanovicz e o Paulo Mendes da Rocha. Mas me lembro de alguns detalhes do dia em que o Rodrigo [Marcondes Ferraz] estava fazendo um atendimento com o [Siegbert] Zanettini - que não faz uma arquitetura que, plasticamente, me agrada tanto - e ele começou a falar sobre arte, em seguida resolveu um detalhe da estrutura metálica e voltou a falar sobre o assunto. Vi o domínio que ele tinha, que passava do tema arte para outra coisa supertécnica. Saí daquela conversa impressionado, pensando que um dia queria ter esse controle das coisas. Não ser só técnico e não ser só abstrato para poder ser uma pessoa mais completa. Isso ficou na minha cabeça e acho que a gente vai sempre aprendendo com as pessoas.

FB 
A pergunta me leva a afirmar que fazemos parte de uma produção da arquitetura brasileira de grandes profissionais. O Brasil do século 20 teve - tenho até medo de citar porque são inúmeros - uma produção efetivamente fabulosa dentro do panorama internacional da arquitetura. É um país que tem arquitetos como Oscar Niemeyer, [João Batista] Vilanova Artigas, Lina Bo Bardi, Paulo Mendes da Rocha, que tem ganho todos os maiores prêmios do mundo, os irmãos Roberto, o [Afonso Eduardo] Reidy. Não podemos dizer, infelizmente, que somos frutos disso, mas sim que somos devedores de uma produção e de arquitetos extraordinários. São muitos mestres.

Luis Capote 
Convivo hoje com um grande mestre para mim que é o Roberto [Loeb]. Há dezessete anos trabalhamos juntos e juntos assinamos projetos há mais de quinze. Vejo que o convívio atual com o Roberto é uma escola que ainda vem crescendo. Embora tenhamos uma grande diferença de idade, conseguimos nos entender nos projetos e o que vemos na prancheta é a obra que vocês conseguem observar.

Lourenço Gimenes 
Tenho percepção um pouco delicada nessa questão de mestres, porque considero absolutamente necessário que tenhamos maturidade para elegê-los. É muito comum que as pessoas definam seus mestres e tentem se espelhar nessas pessoas, em vez de aprender através do traço, da construção e do desenho delas. O que realmente importa são lições que, às vezes, ultrapassam o domínio da própria arquitetura. Infelizmente, como professor, vejo na universidade que os alunos tentam mimetizar soluções, estilos. Ter mestres não é isso. Ter mestres é olhar, através da visão da pessoa que admiramos, o que realmente importa, que é um sentido de humanidade que vamos traduzir para a arquitetura da nossa própria forma. Abomino essa ideia de usar referências como muletas do seu próprio projeto. Referência é repertório. Tem que ter repertório de projeto e não usar isso de forma direcionada para construir sua arquitetura. Referências devem ser a arte, poesia, cinema, paisagem urbana, paisagens sociais. Essas são, de fato, referências de projetos. É preciso ter muito cuidado não só para eleger os mestres, mas também o que enxergar a partir disso.

VA
Para ter um mestre, é preciso merecer. Tem que ser reconhecido pelo mesmo, precisa ser recíproco. Nunca fui reconhecido por nenhum dos arquitetos que admirei e continuo admirando. Então, acho que não consegui ter um mestre. Mas, na minha fantasia, criei vários: os professores da faculdade de que gostava muito; o Paulo Mendes, que é sedutor, muito mais do que pela arquitetura, [pela forma de] como encarar a vida; o Eduardo de Almeida, por quem tenho uma admiração muito grande. O Oswaldo Bratke que foi um mestre não correspondido. Mestre platônico, tenho vários. Queria contar só de um que é o Roberto Loeb. Quando estávamos na FAU/USP, ficávamos amigos do André Leirner só porque ele era sobrinho do Roberto e levava a gente para ver suas obras. Na minha percepção, naquela época, o Loeb estava botando para quebrar. Tinha projetos que começavam a falar de uma arquitetura leve. Esse cara me influenciou profundamente. Mas ele não é o meu mestre. Ele nem sabe que eu folheei os projetos dele escondido quando estava fechado lá na biblioteca.

MB 
Aprendemos intensamente com todos esses grandes mestres do século 20 que a Fernanda [Barbara] citou, e essa é uma questão chave da arquitetura brasileira, presente no trabalho de todos os arquitetos que aqui apresentaram seu trabalhos. O brasileiro entende o partido como um movimento que vai do todo em direção à parte, algo muito particular da nossa cultura. Quando, depois de formado, fui para fora do Brasil, achava que isso era óbvio, mas não é. O Gustavo Penna mostrou aquele gesto espetacular que é típico da arquitetura brasileira que, às vezes, no desenho de um corte resolve o projeto inteiro. Oscar [Niemeyer] fazia isso e todos os grandes mestres fizeram. A arquitetura brasileira vai bem, obrigado, porque temos dois arquitetos que ganharam o Pritzker.

RL
O Vinícius falou de algo muito interessante que é pesquisar, olhar, independente de considerar mestre ou não. De captar e beber na fonte daquilo que se pode pegar. Acredito que os arquitetos brasileiros - e aqui está uma turma bastante representativa - tenham rigor. Estou vendo o detalhamento com que cada um enfrenta os projetos. Existe uma profissão muito arraigada, no saber detalhar. Todos aqui estamos envolvidos é com o rigor. 

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 437
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