Entrevista: FGMF Arquitetos

"Sempre quisemos ter volume grande de projetos para poder experimentar diferentes naturezas e escalas de trabalho"

Comemorando 15 anos de existência, o escritório paulistano de arquitetura atinge a marca de 350 projetos desenvolvidos. Manter o caráter investigativo arquitetônico, a diversidade de atuação e a gestão empresarial focada na excelência e na elevada produtividade são os planos que os sócios Fernando, Lourenço e Rodrigo traçam para o futuro.

Comandado por Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz, o escritório FGMF Arquitetos completou, em 2015, uma década e meia de existência. Impossível ficar alheio ao seu nome, figurando o trio como presença constante em premiações, publicações e mostras de arquitetura brasileira dos últimos anos. Nesta entrevista, os jovens paulistanos falam sobre a origem e os meandros da sua trajetória profissional, focada na diversidade de tipologias e de escalas de atuação, assim como no permanente caráter investigativo arquitetônico, que, embora enfatize a liberdade criativa, é também guiado pela visão empresarial, pragmática. “Não dá para tocar o escritório achando que é um ateliê”, pondera Gimenes, filosofia que se reflete ainda no ativo caráter prospectivo com que comandam o FGMF: “(...) nunca tivemos a postura passiva de esperar o cliente bater na nossa porta”, ele complementa.

De projeto de mobiliário à intervenção urbana, passando por inúmeros trabalhos residenciais, corporativos e imobiliários - e, quem sabe, de equipamentos urbanos, uma das áreas sob a mira da equipe -, o seu portfólio está atingindo a casa dos 350 projetos. Estes são parte de um percurso que teve início paralelamente à vida acadêmica, quando, após identificarem a mútua afinidade projetual no debate do desenho de uma casa proposto pelo falecido Joaquim Guedes, na FAU/USP, em 1999, foram convidados a criar um café em um centro de compras de São Paulo.

Com equipe atual de cerca de 30 funcionários, Forte, Gimenes e Marcondes Ferraz são favoráveis à ideia de ampliar, se necessário e na contracorrente da crise atual do país, a estrutura empresarial para abrirem ainda mais o leque de trabalhos, como desejam. E uma nova marca está preparada para coroar esse momento, concebida pelo estúdio BijaRi. Nela, o quadrado laranja de FGMF adquire a estrutura dinâmica de um gride, pontuado pelas iniciais dos sobrenomes dos arquitetos.

Como surgiu o FGMF Arquitetos?

Fernando Forte Tudo começou em 1999, quando éramos colegas na FAU/USP. O [Joaquim] Guedes propôs um projeto diferente do que vínhamos fazendo na faculdade, de uma casa, no Rio de Janeiro. Estávamos no quarto ano e aquela foi a primeira vez que nos deram um projeto que não era nem público, nem cultural. Ele sempre gostou de ser polêmico. Apesar de individual, deveria ser debatido entre os alunos e essa discussão acabou mostrando, para mim, o Lourenço e o Rodrigo, que tínhamos um alinhamento projetual. Começamos, então, a pensar como seria um escritório nosso, até que apareceu o primeiro trabalho, de um café num shopping center, seguido pelo de um restaurante.
Lourenço Gimenes Nossas referências eram diferentes das dos nossos colegas. A FAU era doutrinária em relação ao modernismo, de que nós gostamos, é claro, mas o que nos aproximou foi vermos que os nossos projetos eram diferentes dos da turma. Algumas das nossas referências eram Kenzo Kuma, Renzo Piano, a produção europeia relacionada à tecnologia da construção, enfim, percebemos um raciocínio complementar entre nós. Saímos da zona de conforto da FAU.

Que estímulos vocês tinham para isso?

FF Nenhum de nós é de família de arquiteto. Eu, na verdade, só tive certeza de que estava na faculdade certa no quarto ano. O Rodrigo e o Lourenço já sabiam isso antes, desde pequenos, mas era mais por vocação do que por influência familiar ou algo do tipo.
Rodrigo Marcondes Ferraz Começamos a nos perguntar o que mais tinha no mundo da arquitetura além do que aprendemos na FAU. Isso na era pré-internet, com referências restritas a alguns poucos sites e aos livros que comprávamos na faculdade ou trazíamos de viagens ao exterior.
FF Uma coisa importante para mim foi a reforma da biblioteca da FAU, feita pelo Piratininga. Ela se tornou mais amigável e convidativa quando abriram aquela frente toda, no térreo. Comecei a frequentar muito mais a biblioteca e, com isso, a consultar as revistas com obras contemporâneas. Eu me lembro da reportagem sobre a Maison Bourdeaux, de [Rem] Koolhaas.
O que já tinha do FGMF naqueles anos iniciais de atividade profissional?

LG O mais importante é que, com a intimidade maior, percebemos que as nossas metodologias eram complementares. Mas o clima era o mesmo de um trabalho de faculdade, só que desenvolvido para um cliente específico.
FF E surgiu um grande desejo de vermos os projetos serem construídos.
LG Gerenciamos a primeira obra na raça, sem nenhum conhecimento. Algo que temos em comum é a forma de descobrir como as coisas funcionam. Tivemos muita satisfação ao ver a passagem do papel para o real, que é, no final das contas, a essência da arquitetura. Mantemos até hoje essa visão investigativa dos projetos, mas sem deixar de lado o pragmatismo. A partir daí, nos perguntamos sempre qual é o limite entre a experimentação e a realização.
FF Esse batismo de fogo teve três aspectos importantes: confiamos um no outro, o que nos aproximou; funcionou como uma segunda formação, técnica e arquitetônica, quase tão importante quanto a da FAU; e nos permitiu fazer obras de grande porte rapidamente. Sempre pensando em projetos para serem construídos, esse é o nosso DNA.
LG Atualmente, 1/4 do escritório é formado por uma equipe que supervisiona a obra. Sabemos que não é suave a transição do papel para o tijolo e, por isso, acompanhamos desde a contratação da construtora até a entrega final. Equivocadamente, muitos profissionais não entendem isso como sendo arquitetura.

Pelo relato de vocês, parece que não há divisão de tarefas entre os sócios. Isso é verdade?

LG Um pouco tem, sim, por causa das aptidões pessoais. Menos em projeto, de que todos participam igualmente.
RMF Essa divisão não é por tipologia, mas entre as partes administrativa, em que eu sou o responsável; comercial, com o Lourenço; e imprensa e obra, com o Fernando.
LG São três setores do escritório: obra; projeto, com duas coordenadoras; e os sócios. Eu diria que obra integra todo mundo, só no canteiro é que dá para entender as interfaces todas. Nosso aprendizado foi assim também, a FAU nos deu uma base crítica importante, mas a arquitetura se aprende no cotidiano. E eu acho que o papel da faculdade é esse mesmo, dar princípios para que você corra atrás do conhecimento.

Inclusive os empresariais.

LG Não dá para tocar o escritório achando que é um ateliê. Claro que a prioridade é manter a densidade projetual e o perfil investigativo, que, em certos casos, é de experimentação pura. Mas se trata de uma empresa, temos que pagar as pessoas, aluguel, softwares. Nossa dinâmica de gestão foi sendo desenhada para gastarmos menos tempo naquilo que não é arquitetura.

Qual a resposta para atingir esse equilíbrio?

LG Não encontramos ainda.
RMF Na FAU havia uma divisão clara, entre os professores que eram arquitetos de ateliê, e tinham produção de sucesso, e os de empresa. Mas no exterior a realidade era outra.
LG Trabalhei no [escritório de] Jean Nouvel durante o período da faculdade e me chamou a atenção o profissionalismo do gestor. Ele acompanhava o andamento das equipes de projeto, atendia os clientes e buscava oportunidades de trabalho.
FF Não desmerecendo os estúdios, sempre quisemos ter volume grande de projetos para poder experimentar diferentes naturezas e escalas de trabalho.
LG É muito importante isso que o Fernando está dizendo. Olhar o escritório como uma empresa e a arquitetura como um serviço é algo que vem a reboque dessa diversidade que almejamos.
RMF Nos interessam desde as casas até os aeroportos.

Quantos projetos desenvolveram até agora?

FF Estamos com quase 350 trabalhos, desde um sofá até o projeto urbano. O que, além de estimulante, nos deixa menos vulneráveis a crises.
LG Não queremos nos especializar, embora saibamos que isso implica uma grande perda de produtividade. Mas é mais estimulante. Seria triste nos acomodarmos numa zona de conforto.

O que são trabalhos de prospecção para vocês? Concurso, por exemplo, é uma importante frente do escritório?

LG No começo, prospecção era mais um trabalho de formiguinha mesmo. Uma das primeiras casas que fizemos veio de um terreno que o pai do Rodrigo tinha vendido e nós ficamos dois anos atrás dos compradores, para convencê‑ los a serem nossos clientes. Felizmente está crescendo a curva da espontaneidade da demanda, mas nunca tivemos a postura passiva de esperar o cliente bater na nossa porta.
RMF Para cada tipo de projeto tem uma prospecção diferente. Num condomínio, por exemplo, procuramos fazer o projeto piloto e, assim, ter contato com os moradores. Já nos comerciais, o acesso vem através dos facilities, nos prédios, dos incorporadores.
LG A nossa história com a [incorporadora] Zarvos foi assim também. Ligamos para o Otávio e oferecemos o nosso trabalho. É preciso dar as caras e, claro, ter a capacidade de realização.
RMF Mas concurso nunca foi algo a que nos dedicamos efetivamente.
LG Seria um veículo interessante, de amadurecimento da nossa arquitetura, inclusive, mas a verdade é que nunca conseguimos formatar o escritório para isso. Concursos sempre desequilibram a nossa estrutura.
FF Mas costumamos participar de concursos fechados.

Querem crescer ou atingiram a capacidade máxima produtiva?

LG Falar em crescimento neste período é um pouco estranho, até. Mas, sim, ainda há novas áreas que queremos desenvolver e, se para isso precisamos crescer, crescemos. 
FF Não estamos muito preocupados com a estrutura do escritório, o que importa são os projetos que queremos fazer. Mas há outros caminhos além do crescimento apenas, como o da qualificação.

Que áreas são essas?

FF Um aeroporto, pequeno. Fórum, sede administrativa, estação, museu, projetos fabris, que já temos até no nosso portfólio, mas queremos fazer outros ainda.
LG Também pensamos em grandes equipamentos, de complexidade operacional e técnica, e que gerem  impacto no entorno.
RMF Estádio.
FF Isso deve ser muito chato.
RMF Mas, em resumo, nosso desejo é ter projetos que nos deixem criar com liberdade.
FF Se o cliente diz que já sabe o que quer, não dá certo.
LG Descobrir o que fazer, essa é a graça.

Como definiriam a identidade do escritório?

LG Talvez seja a ânsia pelo erro como processo.
FF Não gosto quando me dizem que algo tem a nossa cara. A casa Marquise [leia reportagem nesta edição de PROJETOdesign], por exemplo, tem um aspecto modernista, dos anos 1950, mas ela surge de um raciocínio da ocupação do terreno. Algo simples, mas coerente, diferente de tudo o que fizemos até agora. E caiu como uma luva para a família, tanto no que diz respeito ao sistema construtivo, quanto ao orçamento e ao programa.
LG Não queremos ter uma assinatura. Respeitamos quem queira, mas para nós é o oposto.

Mas é evidente que existem princípios de projeto. Como a relação, muitas vezes filtrada, com a luz natural.

LG Isso sim, mas não é um formalismo.
FF Percebemos certas premissas, olhando em retrospectiva. Vamos aprofundar algumas, mas não queremos ficar burilando uma mesma solução. Faz até mais sentido, mas não é isso o que queremos para o nosso escritório. De forma inocente, nos permitimos seguir esse nosso modo errático de projeto. Talvez isso mude no futuro, mas o campo das possibilidades ainda nos fascina.


Em termos institucionais, que leitura vocês fazem da arquitetura brasileira atual? Sentem-se representados?

LG Acho que não é questão do desempenho das instituições. Elas refletem a bagunça de como nos colocamos profissionalmente.
FF Falta elas trabalharem com os arquitetos ainda em formação. Nós começamos a tocar a nossa vida profissional sem a orientação adequada sobre como cobrar ou gerenciar a carreira ou o escritório.
LG O que gera deturpações de mercado, o trabalho vira negociação e não competência.
FF E leva a coisas como a cobrança de RT, que todo mundo condena, com razão. Mas precisamos discutir a melhoria de honorários dos arquitetos.
LG E os arquitetos têm que participar da conversa. Costumamos nos comportar como se pertencêssemos a feudos, olhamos ao redor com certa desconfiança. Não nos percebemos enquanto classe profissional e não conseguimos nos impor nem no setor privado, nem no público.
FF É só comparar o CAU [Conselho de Arquitetura e Urbanismo] com o Creci [conselho dos corretores de imóveis]. No prédio comercial, cobramos de 0,3 a no máximo 0,9 do VGV [Valor Geral de Vendas]. Este já é um caso excepcional, de um escritório como aflalo/gasperini, por exemplo, enquanto o corretor, corriqueiramente, tem taxa de ganho de oito a dez vezes maior do que a nossa, em torno de 4% do VGV. E, não desmerecendo, é uma atividade que nem precisa de curso superior para ser realizada. Não faz sentido, a nossa responsabilidade no processo é muito maior.
LG E tem também o próprio peso que a sociedade dá a uma tarefa e a outra. O arquiteto, e junto com ele toda a equipe de projetistas, é considerado custo; já o corretor, é estratégico. E olha que o nosso custo é absolutamente marginal no processo.
FF 0,2% do valor total determina 100% do empreendimento. Ou seja, tudo. A preocupação da sociedade deveria ser: contrate bons profissionais.
LG Por isso defendo que haja o nivelamento técnico dos arquitetos. As instituições deveriam lutar contra o amadorismo, seja técnico ou de como se formulam e se cumprem os contratos. Sou totalmente favorável às normas de desempenho e à responsabilização criminal. Temos que mostrar ao mercado que somos profissionais competentes.
FF O que, novamente, leva à questão da formação. Muitos cursos deveriam ser fechados.
LG O mau prédio prejudica muita gente e por muito tempo.
FF Mas acho que esse é um ciclo vicioso difícil de ser rompido.
LG Voltando às instituições, e olhando pelo lado de lá, é difícil organizar os arquitetos. Não queremos participar de nada.

Vocês têm uma grande exposição na mídia especializada e, em vários casos, de projetos não executados. Acham que faz diferença terem projeto ou obra publicados?

RMF Não temos restrição. Alguns projetos trazem questões interessantes e acho até que no Brasil publicamos poucos trabalhos em andamento.
LG Cada caso abre discussões diferentes. Pragmático versus conceitual.
FF Também é interessante comparar o projeto com a obra, mas, na verdade, eu tenho um carinho especial pela publicação de projetos prontos. Os recursos tecnológicos são tão excessivos que banalizaram um pouco até a representação da arquitetura.
RMF Guardamos uma imagem da arquitetura que representa 5% do trabalho todo. Depois dessas perspectivas fantásticas é que vem o desenvolvimento verdadeiro, os acertos com o cliente, negociações com os projetistas, as dificuldades da obra.
LG Mas tem o seu interesse discutir projeto, o que importa é o conteúdo. Prefiro ter acesso à informação, e aplicar meu filtro a ela, do que não ter. Sabemos que densidade esperar de cada veículo.



Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 427
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