Entrevista

Diébédo Francis Kéré

Diébédo Francis Kéré nasceu em 1965 em Gando, Burkina Faso, oeste da África, e se formou arquiteto pela Universidade Técnica de Berlim. Em 2005, ele fundou o Kéré Architecture, na capital alemã, um ano após ter recebido, ainda estudante universitário, o Prêmio Aga Khan para Arquitetura (2004) pela sua primeira obra, a Escola Primária de Gando. Nesta entrevista, realizada em junho em Milão, Kéré fala sobre a essência da sua arquitetura, sobre a vertente da Low Tech e a importância do envolvimento da comunidade na construção dos seus projetos


Foto: Erik Jan Ouwerkerk 

Em 2008, Burkina Faso aparecia no Relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento como o país de menor índice de alfabetização. De fato, não foi na sua aldeia natal, Gando, que Francis Kéré aprendeu a ler, já que lá não havia escolas. O menino treinado em carpintaria na África ganhou uma bolsa de estudos e se mudou para Berlim, onde anos depois cursou a faculdade de arquitetura. Ainda no início dos estudos, idealizou o projeto de uma escola primária e a construiu em Gando (2001), empregando conceitos básicos de ventilação passiva.

Ao adobe, material tradicionalmente utilizado no local, adicionou cimento e fabricou tijolos com os moradores, usando o traço que aprendera na Alemanha nas suas viagens extracurriculares para participar de oficinas de técnicas de construção. O que parecia um projeto pontual, de motivação pessoal, impulsionou, no entanto, a sua carreira. Kéré foi um dos vencedores, em 2004, do Prêmio Aga Khan para Arquitetura, que, criado em 1977, tem peridiocidade trienal e se destina ao reconhecimento de obras em locais de crença islâmica, sobretudo projetos com conotação social. Naquele ciclo do prêmio, de 2002 a 2004, estiveram entre os vencedores arquitetos como César Pelli (pelas Petrona Towers, em Kuala Lampur) e o escritório Snohetta (pela Biblioteca de Alexandria).

O sucesso do projeto de Gando, tanto no que diz respeito ao envolvimento dos residentes quanto à projeção internacional que recebeu com o prêmio, motivou Kéré a continuar com o seu trabalho na África. Seguiram-se, em Gando, a construção de uma vila para os professores, a extensão da primeira escola, bem como o projeto de uma escola secundária e da biblioteca; além de novos trabalhos - em desenvolvimento - para outros países ou vilas africanas. Como a Opera Village, um centro artístico, educacional e médico parcialmente construído na capital de Burkina Faso (Ouagadougou), e, na mesma cidade, o complexo da nova Assembléia Nacional - em substituição à sede do Parlamento que foi destruída, em 2014, durante a revolta popular que deu fim a 31 anos de regime ditatorial no país.

O que pode parecer proibitivo - a morosidade da execução dos projetos por causa da falta de verba - é, para Kéré, essencial para que os moradores se sintam envolvidos no processo. Inovação, sustentabilidade, identidade cultural, expressividade arquitetônica são temas abordados na entrevista a seguir, em que o arquiteto africano menciona também o seu projeto para o pavilhão temporário da Serpentine Gallery, de Londres, aberto à visitação até 8 de outubro.

A construção do seu primeiro projeto, a Escola Primária de Gando, ocorreu quando ainda iniciava a faculdade de arquitetura. No entanto, foi este o trabalho que impulsionou a sua carreira. Não parece contraditório?
Francis Kéré Foi um grande desafio. Quando cheguei na Europa e tive acesso às informações sobre arquitetura pensei em me dedicar, paralelamente, à adaptação daquele conhecimento para as necessidades da minha vila. Queria criar uma escola que fosse agradável e resistente, tanto à estação chuvosa quanto à seca, uma infraestrutura útil e na qual se utilizassem materiais locais - não tinha dinheiro para a construção - e que envolvesse as pessoas na sua execução. Queria aprender com elas e ensinar algo em troca também. Foi com essas ideias que comecei o projeto. Eu era um jovem estudante, ainda com pouco conhecimento na área, mas pensei que não deveria esperar o final do curso para começar o trabalho. Parecia-me que, amparado pelas pessoas de Gando, o pouco que eu já sabia bastava para começar a construção. Este era o meu plano, retribuir a minha comunidade pela oportunidade que tive de estudar. E posso dizer que tive sucesso, vieram outros projetos e, ainda no segundo ano da faculdade, terminei o terceiro trabalho em Gando.

Mas insisto que me parece que era cedo demais.
FK Em Berlim, a escola é uma espécie de conexão entre o fazer, o pensar, o desenhar e o projetar. Dá muita habilidade porque te ensina rapidamente o conhecimento tradicional da arquitetura; como criar o conceito e a lidar com o material. Eu estava particularmente interessado na questão da realização dos projetos; nas minhas horas livres viajava pela Alemanha para participar de workshops de construção. Entre eles, foram muito importantes para mim as oficinas sobre técnicas antigas de fabricação artesanal de tijolos.

Um conhecimento que você utilizou no projeto de Gando. Não havia na sua vila o hábito de se construir com tijolo?
FK
 Exato. As pessoas de lá estão habituadas com o adobe, que, no entanto, não resiste à chuva. Minha intenção era construir estruturas mais duradouras, foi por isso que adicionei cimento à argila para estabilizar o tijolo e regularizar a superfície. Todos feitos manualmente. Ou seja, usei o material disponível no local, a terra, mas de um modo diverso. Nas minhas viagens pela Alemanha aprendi como se fazia antigamente a mistura dos materiais. São técnicas velhas, simples e aplicáveis facilmente na África, um país não industrializado. Na minha vila, nós precisamos do low tech, não do produto industrializado.

Você costuma definir o seu trabalho como experimental. Qual é o balanço entre inovação e tradição nos projetos de Burkina Faso?
FK O tijolo é o elemento de ajuste entre a tradição (o adobe) e a inovação (o próprio tijolo, empregado em Burkina Faso). Também foi a primeira vez [na escola primária] que se fez um telhado solto da construção, permitindo sair o calor. Mas, em compensação, é tradição que as pessoas participem das construções, ou seja, as casas são erguidas coletivamente em Gando. O que eu fiz foi levar essa prática para a realização de uma escola, ou seja, um equipamento público que normalmente é de responsabilidade do governo. Incentivei a comunidade a abraçar o projeto e elas se envolveram. Fizeram parte do passo seguinte, de construção de uma casa para os professores, depois da extensão da escola primária, da biblioteca e, agora, estamos construindo uma escola secundária. Cada espaço funciona como um pequeno centro que, visto em conjunto, constitui uma grande árvore. Uma comunidade.

Configurou-se, então, um campus.
FK Sim, o espaço público é muito usado na África. Há um grande senso de comunidade, as pessoas se encontram para conversar. Basta oferecer a elas um pouco de sombra. E, com a continuidade do trabalho, tive a chance de fazer inovações pontuais. Passo a passo, fui inserindo mudanças, tanto para melhorar, sempre, quanto para manter as pessoas conectadas ao projeto. É diferente de se impor uma solução, modular. Sem inovação não há desenvolvimento.

Como uma pequena escola, com três salas de aula, localizada em uma vila rural obteve visibilidade mundial? Foi surpreendente receber aquele prêmio?
FK 
Muito! Eu não tinha sequer a intenção de divulgar o trabalho da escola, era uma ligação minha com a comunidade onde nasci. Eu queria construir a escola, como uma retribuição ao meu povo, depois voltar para a Alemanha e seguir com meus estudos. Mas as pessoas começaram a ver o trabalho e a se interessarem por ele.

Como isso aconteceu?
FK Um antigo professor me incentivou a falar sobre o projeto, a apresentá-lo, em Berlim, para levantar fundos para a construção. Comecei a fazendo palestras em busca de patrocínio, primeiro em instituições potencialmente parceiras, depois as escolas de arquitetura se interessaram pelo projeto. Até que alguém me propôs para o Aga Khan e eu tive a felicidade de vencer.

E isso impulsionou a sua carreira rapidamente.
FK Mais ou menos. Demorou quatro anos para que uma obra de 2001 fosse reconhecida. Mas, de uma certa forma, impulsionou sim, me deu visibilidade. O que, contudo, não me trouxe mais meios para poder construir a casa dos professores e a extensão da escola primária, que estava sendo idealizada em 2004.

Qual a freqüência com que viaja para Burkina Faso?
FK Quando tem muitas construções simultâneas, vou cerca de cinco vezes por mês.

O projeto da Opera Village tem um conceito diverso dos demais, não é?
FK A Opera Village é uma outra ideia, de um artista [o diretor alemão de cinema e teatro Christoph Schlingensief, falecido em 2010] que sonhou em construir com as pessoas de Burkina Faso, um dos locais mais pobres da África, um sentido de identidade cultural. Ele considerava o meu trabalho um tipo de escultura social, parafraseando [Joseph] Beuys, capaz de ativar cada indivíduo da comunidade. A vila não está construída ainda, é um organismo que cresce lentamente, seguindo o ritmo dos financiamentos. Mas, no fundo, acho que esse crescimento lento é um aspecto fundamental do projeto, pois permite que ele seja apreendido pelas pessoas como pertencente a elas. É o que está acontecendo agora. Temos mais de 200 crianças frequentando a escola, temos uma pequena clínica que funciona como maternidade, temos encontros de artistas, professores, doutores. A vila está crescendo como uma espiral, que deverá ter no seu centro a construção mais importante, destinada a multieventos.

Um trabalho de escala maior, como o do Parlament House (Assembléia Nacional) em Burkina Faso.
FK Burkina Faso é um país baseado na agricultura. Eu queria um edifício transparente, aberto à comunidade e que as pessoas pudessem escalar. Terá terraços, onde irá crescer a vegetação. O teto do prédio, então, é um espaço de educação, para testar modos de fazer as plantas crescerem. Claro que não temos recursos para construí-lo agora, mas é importante abrirmos para o debate e passarmos a mensagem de que não devemos fazer cópias baratas. A Europa tem uma história diferente da nossa e é climaticamente diversa também. Vamos olhar para o contexto social e econômico de Burkina Faso.

Você participa com certa freqüência de instalações artísticas. Foi um projeto de diversificação do seu trabalho?
FK Não, foi algo que aconteceu, simplesmente. São trabalhos importantes para mim porque me permitem explorar novos usos dos materiais, que é o traço fundamental da minha arquitetura. Estou sempre em busca de descobertas e da supresa do espaço. Nas instalações, estudo o material simples para dele extrair novos usos e expressões.

Como isso se aplica no projeto para o Pavilhão Serpentine?
FK É a madeira que cria a surpresa. Envolvi a comunidade de engenheiros e produtores habituados com os projetos da Serpentine e também com o material. O importante é que a arquitetura seja um processo transparente, para que todos os envolvidos possam trabalhar em conjunto.

Quais arquitetos ou artistas servem de inspiração para o seu trabalho?
FK Minha inspiração fundamental é a natureza, observo o comportamento dos recursos naturais e os seus processos de envelhecimento. Na arquitetura, admiro Mies van der Rohe e Louis Khan.

E sobre a arquitetura vernacular africana?
FK Uma das constantes da arquitetura africana, inclusive a vernacular, é a criação de sombras, espaços para reunir as pessoas. Vivi isso na minha infância. É um processo colaborativo; todos, na África livre, sabem construir suas casas.

Texto de Evelise Grunow| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 439
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