Entrevista: Andrade Morettin Arquitetos

"Acreditamos na arquitetura enquanto desafio técnico"

Sediado em São Paulo, o escritório Andrade Morettin Arquitetos completará 20 anos de existência em 2017. Vinícius Andrade e Marcelo Morettin, seus sócios fundadores, comandam, ao lado dos associados Marcelo Maia Rosa e Renata Andrulis, uma equipe competente, que desenvolve trabalhos de escalas, programas e naturezas distintos, públicos e privados, caracterizados pelo rigor técnico e pela consistência do partido. Tal essência ou chave dos projetos, eles analisam, é o que confere flexibilidade à arquitetura que, vista em duplo movimento - retrospectivo e em direção ao futuro -, pretendem manter leve. Essa é a identidade da sua produção.

Por leveza, assim, entenda-se sobretudo a material. A arquitetura feita com componentes em suas mínimas espessuras, apesar das máximas dimensões, racional na execução e empregando sistemas industrializados. Uma inspiração evidente para eles é a do repertório que denominam genuinamente brasileiro, como as construções suspensas sobre a água: a primeira casa construída por eles, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, em 1998, é, no fundo, uma palafita, relembram.

Quase que independentemente do tema, a conversa com o trio de arquitetos - Maia Rosa também participou da entrevista - recai na prancheta, ou seja, no cotidiano de criação e desenvolvimento dos trabalhos. Eles se identificam como negociadores, com os clientes, fornecedores, construtores e consultores, ao mesmo tempo flexíveis na tomada de decisões e zelosos pelo que é essencial a cada projeto: a chave ou, em outras palavras, o partido reduzido ao mínimo. “Gostamos de comparar o processo de projeto a um origami complexo. Existe um momento em que todas as dobras, colapsadas simultaneamente, produzem o objeto final, regido por uma matemática que concilia tudo. Senão, não fecha”, ensaia Maia Rosa.

A trajetória profissional - formado o escritório a partir da participação bem-sucedida em concursos e da rápida repercussão da sua obra na mídia especializada, que, juntas, trouxeram alguma estabilidade financeira e novas encomendas - e a sua identidade criativa são temas da conversa a seguir. No próximo ano, deverá ser inaugurado um dos mais importantes projetos de Andrade Morettin Arquitetos: a sede e centro expositivo do Instituto Moreira Salles, na avenida Paulista, em São Paulo.

Como está estruturado o escritório?

Vinícius Andrade Temos os sócios fundadores - o [Marcelo] Morettin e eu - e há três anos o Marcelo Maia Rosa e a Renata [Andrulis] se tornaram associados. Esse é o que chamamos de núcleo duro do escritório, complementado por outros oito arquitetos no nosso corpo criativo. Nossa estrutura, hoje, está no limite tanto físico quanto de interlocutores com os quais conseguimos lidar no cotidiano. A criação passa por conversas de que participam todos os sócios, já que acreditamos na arquitetura enquanto desafio técnico e, portanto, de concepção coletiva. Com o conceito estabelecido, então, o Marcelo e a Renata assumem a coordenação dos projetos e os desenvolvem com a equipe. E quando se trata de um projeto maior, ou mais complexo, como foi o caso [da nova sede] do IMS [Instituto Moreira Salles, em construção, em São Paulo], fazemos também workshops internos.

Há quanto tempo estabeleceram tal configuração?

VA No começo éramos três apenas: eu, o Morettin e uma estagiária, que nos ensinou a usar o Autocad.
Marcelo Morettin Crescemos não exatamente por causa de uma estratégia empresarial, e sim como consequência natural das nossas decisões profissionais. Mas nunca concebemos individualmente nenhum dos projetos, nosso raciocínio permanece o mesmo. E, até esse limite físico que temos hoje, conseguimos acompanhar de perto todos os trabalhos.
 
Quantos projetos costumam desenvolver simultaneamente?

VA Em torno de 20, com suas escalas e etapas diversas de desenvolvimento.
MM Nesta conta estão também as obras, que acompanhamos semanalmente.
VA Chegamos empiricamente a esse número, não conseguimos ultrapassá-lo. Por isso, acabamos indicando alguns projetos para escritórios amigos, de arquitetos jovens e competentes. Acho interessante darmos oportunidade de trabalho para quem está começando também. A rede interessa a todos porque também eles nos trazem coisas novas.
 
Como se dá a relação do escritório com as engenharias?

Marcelo Maia Rosa Acho que a boa qualidade do projeto depende da nossa interlocução com todos os consultores. Da maneira mais democrática possível. Não há uma imposição vertical, cada projeto tem o seu próprio desafio, seja econômico ou de logística de obra, por exemplo. Costumamos rever nossos projetos em função de determinada solução de um projetista e isso se estende inclusive à nossa relação com os clientes. Somos flexíveis porque acreditamos que todos que participam do projeto podem colaborar com o seu desenvolvimento. Claro que isso depende de termos um partido sólido o suficiente para resistir às mudanças. Por isso as discussões internas ao núcleo do escritório são fundamentais para nós.
MM Não me lembro de nenhum caso em que não tenhamos feito todo o ciclo, desde o projeto até a entrega da obra. O exemplo mais interessante para responder a essa pergunta é o edifício que vocês estão publicando [o residencial na rua Marcos Lopes; leia reportagem na seção Arquitetura]; é o maior que já fizemos para um cliente tradicional. E o tipo de acompanhamento foi idêntico ao de uma casa ou prédio de pequeno porte, o que é importante para garantir que decisões de projeto sejam efetivadas.
VA Tanto insistimos em apresentar alternativas que eles aceitaram utilizar o painel pré-fabricado, que não faz parte do repertório deles. Uma solução que, no final das contas, é melhor para todo mundo, e não teria acontecido se terceirizássemos esse meio de campo.
MM Alteramos o projeto executivo para retomar nossa proposta inicial. E fez toda a diferença. É um edifício enorme mas, no fundo, sua concepção de fachada tem apenas planos de concreto, fechamentos de painéis, caixilho e guarda-corpo.
MMR Fica simples depois de uma certa fase. Estávamos há pouco na obra do IMS vendo protótipos, e agora que sabemos quem serão os fornecedores e quais são as possibilidades econômica e técnica do projeto alteram-se as questões.
MM Oito meses de projeto com a Front e, na obra, vimos uma opção melhor.
VA Os engenheiros têm que estar na obra também. É importante estarem todos lá.
 
Como se aprendem esses pormenores do ofício? Acredito que nem seja o papel da faculdade ensinar esse tipo de coisa.

VA Foi na guerra do cotidiano que aprendemos.
MM A arquitetura, como a medicina, por exemplo, é uma atividade muito complexa, não dá para aprender tudo na sala de aula. Vamos complementando depois, com a prática. Só a experiência e o enfrentamento de determinadas situações é que dão maturidade profissional. Demora uma década para se aprender alguma coisa de arquitetura.
VA Por outro lado, termos trabalhado com bons profissionais nos deu certo atalho. Com Eduardo de Almeida, Joaquim Guedes, Marcelo Fragelli e Emilio Donato, com quem trabalhei um ano em Barcelona. Como diz Hélio Olga, o mais importante é aprender como não fazer. Isso reduz a possibilidade do erro.  
MM Também a maturidade dá tranquilidade para saber pelo que brigar. Tem coisas que deixamos passar na obra, mas de outras não abrimos mão.

Que outras atividades complementam a atuação e a contínua formação profissional de vocês?

VA Estou no IAB/SP há três anos, cuidando da organização dos concursos. Continuo dando aula na Escola da Cidade, de onde o Marcelo está licenciado.
MMR Também costumamos nos revezar em palestras.
VA E uma coisa que tem funcionado para nós, como retroalimentação, é a diversificação dos projetos. Nunca quisemos nos especializar.
MMR Desde uma casa modesta até uma mais luxuosa; de um empreendedor mais arrojado a outro mais convencional. E, também para refletirmos sobre o nosso trabalho, estamos desenvolvendo um livro sobre o escritório em conjunto com a Bei [Editora]. O mural com os nossos projetos nos fez revisar alguns dos trabalhos em andamento.

O residencial para baixa renda Jardim Lidiane e o edifício na rua Marcos Lopes foram desenvolvidos ao mesmo tempo. Quais os desafios e ensinamentos de lidar com duas realidades tão diferentes mas do mesmo programa?

VA Era isso que queríamos: projetar, ao mesmo tempo, para faixas de renda tão distintas.
MM Vejo como algo natural porque, embora sejam trabalhos muito longos e, portanto, haja um momento em que se discutem questões extra‑arquitetônicas - não dá para ignorar aspectos sociais ou de inserção urbana; é preciso ter sensibilidade para lidar com eles -, na maior parte do tempo se está no campo da arquitetura e do desenho urbano. O ponto de partida é diferente e as perguntas são outras, mas, uma vez definidos os critérios, o projeto vira um problema, no sentido de raciocínio, a ser resolvido. Do ponto de vista do desenvolvimento do projeto, a máquina é a mesma. 
MMR Os dois projetos têm uma questão curiosa em comum: a luta pelo térreo mais aberto, integrado à cidade.
VA Acho sintomático as nossas respostas enveredarem por esse caminho da criação. O nosso foco é o projeto, isso é que nos dá a tranquilidade para criar em universos tão distintos. 

Vocês se colocam como negociadores dos projetos?

VA O centenário de Artigas me fez lembrar de algo que ele costumava dizer e que nos contaminou: sendo um arquiteto formado engenheiro, a arquitetura passa por uma interpretação técnica da realidade. O nosso raciocínio é estruturado assim, a nossa motivação é a colocação do problema. Esse é o nosso alimento. 
MM Negociação é a palavra. Desde o projeto do concurso do IMS isso ficou bem claro para nós. Perante ela, o desafio é encontrar a chave que vai além do partido; diria que é o partido reduzido ao mínimo. Aquilo que dará ao projeto um caráter especial mas, ao mesmo tempo, está aberto a todas as negociações. A arquitetura é muito diferente da arte, tem que negociar. Claro que somos ciumentos com o cerne do projeto, temos o nosso ponto imutável, mas percebemos ao longo do tempo que são várias as possibilidades para construí-lo. É nesse espaço que fazemos as nossas negociações. 

Que arquitetura interessa a vocês?

MM Somos atentos a outras arquiteturas, não ao arquiteto, especificamente, mas às palafitas e outras construções precárias, por exemplo, que são arquiteturas leves. Ao mesmo tempo, é uma experiência espacial e construtiva muito interessante entrar na Casa da Música, de [Rem] Koolhaas, no Porto.
VA A arquitetura como referência, e não como objeto de admiração, também faz parte da interpretação técnica do problema. Renzo Piano, assim, é uma referência para o projeto de um museu; Glenn Murcutt, para a casa no campo; [Roberto] Moita, para um trabalho na Amazônia. Por outro lado, existe a arquitetura que admiramos, independente da pesquisa de um projeto. Como a dos nossos mestres, Artigas e Paulo [Mendes da Rocha], assim como a de Koolhaas. Não necessariamente a sua construção, mas o seu processo de pensamento. Também gostamos muito dos japoneses, do ponto de vista da materialidade, e das construções populares brasileiras; as palafitas nos interessam desde sempre. Costumamos reconhecer na arquitetura portuguesa a nossa produção vernacular, mas as palafitas são do repertório brasileiro.

Continuam a participar de concursos, que tiveram papel importante no trabalho de vocês?

MM Temos restringido o leque para concursos maiores, de urbanismo, ou fechados. 
VA Construímos o nosso escritório à base dos concursos, mas existe um aspecto que tem nos preocupado. Nossa geração não deveria concorrer nesse tipo de concurso que tem o objetivo de pegar a molecada, com escopo ou escala reduzidos. Acho que isso é um problema e está na hora de nossa geração abrir espaço para os mais jovens. É uma bandeira que eu tenho defendido no IAB, mas que depende do entendimento coletivo. É difícil estabelecer uma barreira.
MM Acho que isso não acontece em países com mais tradição na realização de concursos. Há critérios para direcionar aos jovens o projeto da creche, da escola infantil, enfim. O inverso é mais fácil de se estabelecer, restringir aos escritórios grandes a participação em concursos de maior complexidade.
VA Foi o caso do concurso [para a revitalização do bairro paulista] da Água Branca, onde só concorreram 26 projetos de escritórios consorciados.

O escritório completará 20 anos em 2017. Que autocrítica fazem do seu percurso profissional?

VA Tivemos muita sorte. Começamos como a associação de duas pessoas completamente sem contatos e, então, qual era a nossa esperança de nos tornarmos um escritório de verdade? Participar de concursos. Esse era o começo possível, sobretudo com a falta de trabalho de 1995. Ganhamos, então, menção honrosa no concurso dos Correios, o que nos deu dinheiro para abrir o escritório; depois vieram a menção em Barcelona e a vitória no concurso da Faculdade de Medicina [da USP]. Desde então, tivemos dez primeiras colocações em concursos, o que é algo bastante difícil de acontecer. Ou seja, a sorte não acabou. Sabemos que ganhar concurso não é só fazer bem-feito.
MM Também foi fundamental, em paralelo à vitória no concurso da Faculdade de Medicina, ter a nossa primeira obra, em 1998, publicada em várias revistas de arquitetura. A nossa casinha na Vila Malalena saiu ao lado da casa em Bordeaux, de Koolhaas, na Arquitectura Viva. Isso nos trouxe prestígio e o reconhecimento de que estávamos num caminho diferente daquele da arquitetura paulista. A nossa produção leve, identificada como um pequeno manifesto. O concurso atinge os clientes, mas as publicações trazem reconhecimento. Essas duas coisas juntas, depois de um tempo em que o arquiteto consegue manter a cabeça fora da água, dão oportunidades de trabalho. Foi assim que a Zarvos chegou na gente: o Otávio e o José Casarin liam as revistas, conheciam os jovens arquitetos. Os projetos começam a surgir e passamos a depender menos da sorte e mais do que fazíamos. O desafio passa a ser a manutenção da sua arquitetura.
VA Existe a autocrítica quase como método aqui no escritório.
MM Revendo os projetos, no processo do livro, nos recordamos da importância que a arquitetura leve tem para nós. Revimos, então, projetos em andamento. Queremos fugir do estilo formalista, mas queremos construir a nossa identidade. Essa é a nossa principal autocrítica porque, com essa história de cada projeto ser uma coisa nova, pode ser uma cilada querermos nos reinventar a todo momento.
VA Nós nos reconscientizamos do lugar em que trabalhamos: São Paulo. Nossa paisagem é complexa e muito heterogênea, é ínfima a nossa importância nela. Se repetíssemos todos os nossos projetos - o que não acontece e não vai acontecer -, nem assim a cidade seria monótona. Nosso papel, então, deve quase ser o de quem repete um mantra: somos um grão, não o centro do universo.

    Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 423
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