COLUNAS

Mãos à obra!

Antes de tudo, parabéns à PROJETO por suas quatro décadas - e o agradecimento pela divulgação da arquitetura! Há quarenta anos, idade da publicação, o Brasil tinha metade de sua população atual e um terço dos domicílios. Nesse tempo, o país saiu da ditadura, formou uma democracia e aguçou as esperanças de entrar no rumo do desenvolvimento. Embora tenha sido espetacular o esforço brasileiro ao construir um sistema urbano com 5.500 cidades, vinte metrópoles e duas megacidades, de fato, nossas cidades apresentam grande passivo ambiental, extensas áreas sem urbanização, mobilidade deficiente, escassez de serviços públicos e alto déficit habitacional.

Produzimos edificações de alta qualidade (como a revista vem registrando), mas a precariedade é majoritária no parque imobiliário nacional. Agora, até o final dos anos 2030, a população tenderá à estabilidade. Mas o número de domicílios aumentará como nunca em uma geração: mais quarenta milhões de moradias, o que representa mais de meio Brasil urbano. Imagine-se, então, construir adequadamente mais de meia cidade em cada cidade? Para além das moradias, os equipamentos sociais, as infraestruturas, o espaço público. Àquela demanda reprimida, fruto dos últimos quarenta anos, soma-se esta nova, ambas gigantescas, que precisam ser tratadas de acordo com o tempo atual e com os valores democráticos.

Trazer esse conjunto para as exigências contemporâneas é um monumental desafio que o Brasil precisa priorizar para alcançar o patamar de país desenvolvido. É essa a perspectiva aberta para a arquitetura brasileira. A ampla diversidade de nossa competência profissional pode oferecer a resposta necessária. Hoje, apenas parcela pequena do que se constrói tem a participação do arquiteto. Nosso desafio é atender à totalidade da demanda brasileira - no projeto e na obra, no planejamento, na consultoria, no serviço público, na empresa privada; ampliar nossa ação profissional até alcançar toda construção em território nacional, toda a arquitetura brasileira. Claro, tal objetivo se coloca para além do mero desejo do arquiteto, é do campo da política e da cultura. De certo modo, é preciso dar coerência ao arcabouço institucional que produz o espaço brasileiro, recuperar a capacidade do país em planejar e projetar.

É trabalho maiúsculo, que exige instituições da profissão fortalecidas, unidas, e em diálogo com os anseios da sociedade. Esta é tarefa à qual o IAB conclama todos os colegas arquitetos. Desejo que nas próximas décadas a PROJETO possa divulgar essa nova perspectiva, de cidades mais bonitas e menos desiguais, garantido o direito à cidade, a todo cidadão brasileiro.

Sérgio Magalhães, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, diretório nacional

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 435
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