COLUNAS

Ameaça à educação dos arquitetos

Recentemente soube no CAU que um curso de Arquitetura e Urbanismo havia recebido do MEC autorização para funcionamento na modalidade Ensino à Distância. Comumente, o modelo de EaD praticado no Brasil se baseia em videoaulas e exercícios online, ao contrário de centros de excelência estrangeiros, que mantém verdadeiras salas de aula virtuais, com professores e alunos ativos nesse ambiente.

Por mais que o EaD seja uma realidade que vem se difundindo rápida e desastradamente no Brasil, eu sempre imaginei, como muita gente, que as profissões regulamentadas, como as da área da saúde, direito, engenharias e arquitetura estavam sendo preservadas. Afinal, alguém concebe formar um médico à distância? Depois da notícia recebida no CAU e alguma pesquisa, encontrei um curso de Engenharia Civil e outro de Medicina Veterinária, integralmentes à distância e, não um, mas seis cursos de arquitetura à distância. A Abea e o IAB já manifestaram repúdio.

A formação do arquiteto (como do médico, engenheiro etc.), pressupõe aquisição de conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades e competências. Estas últimas, nos ateliês, laboratórios e outros espaços adequados. O que nos choca é a possibilidade da supressão desses espaços pedagógicos e as lacunas / deformações que isso vai causar na educação de nossos profissionais.

Nos anos 70 éramos 28 cursos. Em 1994, 73 cursos. Decorridos mais 20 anos, somos 466 cursos. Com uma diferença: com os programas de financiamento estudantil (Fies, Prouni e sucedâneos privados), que, ao mesmo tempo em que deram acesso à universidade para as classes menos favorecidas, praticamente extinguiram a inadimplência, pequenas empresas educacionais foram compradas por universidades maiores.

O negócio familiar virou big business para fundos de investimento. Com ações negociadas na bolsa, acionistas reivindicando lucratividade, essas megainstituições não raro convocam mais de 1.000 ingressantes em seus processos seletivos. Além de universalizar o ingresso, os programas de crédito educativo poderiam ser um importante instrumento de estado para melhorar o ensino, pois poderiam beneficiar apenas aquelas instituições que aderissem a um rígido padrão de qualidade. Criou-se a benesse, mas nada se exigiu de contrapartida.

São essas universidades, sem a qualidade como obrigação ao Estado, que estão oferecendo os cursos de Arquitetura EaD. Desses seis cursos, dois estão autorizados a ofertar 9.999 vagas cada! Não temos exame de ordem, nosso registro é vitalício e sem necessidade de educação continuada.

Nessas condições, o CAU pode dar registro aos egressos desses cursos EaD, pareando‑os aos egressos de cursos presenciais? Para responder, no mínimo, que se faça um grande debate envolvendo a academia, sociedade, o CAU e o MEC.

Luiz Augusto Contier, arquiteto titular da Contier Arquitetura, conselheiro suplente do CAU/BR. Coordenador do curso de arquitetura da USJT por 22 anos. Professor por 30 anos em escolas de arquitetura

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 436
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