PERFIL: Studio Arthur Casas

Modernismo revisitado

Há alguns anos, quando o imóvel da avenida Atlântica, no Rio de Janeiro - onde, até então, ficava a sede do Consulado Geral da Áustria - foi colocado à venda, uma executiva da consultoria imobiliária Jones Lang La Salle avaliou que, em razão da possibilidade da edificação ser demolida, o terreno tinha potencial para desenvolver vários tipos de empreendimentos: prédio residencial, edifício comercial ou, então, um hotel, ela especulou

Das três alternativas sugeridas, a que acabou se consumando foi a última - hoje no número 3804 daquela avenida, na quadra limitada pelas ruas Souza Lima e Francisco Sá, em Copacabana, funciona a segunda unidade do Emiliano, sofisticado hotel fundado por Carlos Alberto Filgueiras (o empresário faleceu em janeiro, num acidente aéreo na região de Paraty, RJ. No mesmo avião estava o ministro do Superior Tribunal Federal, Teori Zavascki).

O primeiro Emiliano - que se tornou um padrão de luxo e referência em qualidade de atendimento em hotelaria no país - fica em São Paulo, na rua Oscar Feire, nos Jardins, em um edifício que foi reformulado para a ocupação com base em projeto do Studio Arthur Casas (PROJETO 258, de agosto de 2001).

A edificação foi inicialmente concebida como um prédio de apartamentos, cuja construção estava paralisada. A unidade carioca do hotel fica no trecho final da avenida que margeia a praia, a poucas quadras do Forte de Copacabana, e teve concepção inicial do escritório norte-americano Oppenheim Architecture + Design, LLP. Em um primeiro momento caberia ao estúdio de Arthur Casas desenvolver o projeto de interiores do hotel.

O escritório brasileiro extrapolou, porém, esse encargo e foi também contratado para criar a vedação da edificação, que - e mais ainda nesse caso - é como a arquitetura expressa sua relação com a cidade. Encravado entre dois outros prédios, o Emiliano carioca possui uma fachada que é, a um só tempo - embora possa parecer contraditório - impactante e delicada, e, de certo modo, nostálgica: ao tomar emprestado elementos da moderna arquitetura brasileira, com um anteparo na forma de cobogós, equacionados, porém, com materiais contemporâneos. A intenção do escritório era evocar a imagem de casualidade, característica associada ao modo de viver dos cariocas. A princípio, conforme relata a arquiteta Nara Telles, que fez parte da equipe, o escritório acreditava que seria possível recorrer ao concreto para a finalidade. Porém, conclui-se que esse tipo de material, embora tenho evoluído bastante, acarretaria excesso de peso à construção.

Depois de estudarem alternativas, os arquitetos verificaram que a trama que daria identidade ao hotel poderia ser fabricada com resina de policarbonato, resistente a raios ultravioletas, que também não propaga chamas em caso de incêndios - o escritório já tinha experiência com esse material, utilizado, por exemplo, em algumas áreas do shopping JK Iguatemi, em São Paulo.

O Studio Arthur Casas elaborou o desenho pretendido e, em seguida, ele foi convertido em um molde metálico para a fabricação das peças. Agrupados e articulados esses componentes, tem-se a fachada/painel que cobre praticamente toda a face do prédio voltada para a avenida, permitindo, porém, iluminação e ventilação naturais. Essa parede vazada protege a varanda dos apartamentos. Como podem ficar abertos ou fechados de acordo com o desejo dos hóspedes, o movimento de janelas torna a fachada dinâmica, em permanente mutação. Internamente, a espacialidade confirma a reconhecida habilidade de Casas (e da equipe de seu escritório) na resolução de projetos de arquitetura de interiores.

As cores, os revestimentos, o refinamento nas peças escolhidas - tendo em conta que a imagem procurada pela unidade carioca do hotel é mais leve e clara que de seu homônimo paulista - apresenta sutis referências à paisagem marítima. Na recepção, um painel em tecido de autoria de Burle Marx parece dar boas vindas aos hóspedes. De maneira geral, os espaços são amplos e, nos quartos (no total são 90 apartamentos - sendo 1/3 deles suítes - distribuídos pelos onze pisos da edificação), as aberturas deixam entrar de forma controlada a luz do sol. No revestimento das paredes da área de circulação junto aos elevadores, é notável a presença de painéis de madeira com desenho em alto relevo.

Além do restaurante (no térreo) e dos andares de apartamentos, o penúltimo pavimento do Emiliano é ocupado por espaços de relaxamento (spas) e academia. Já na cobertura (ligeiramente recuada em relação aos outros andares, recurso usado para atender a legislação, também evitando a projeção de sombras na praia), ficam a piscina de borda infinita (de onde se avista toda a orla de Copacabana) e um outro restaurante.



Ficha Técnica

Hotel Emiliano
Local Rio de Janeiro, RJ
Data do início do projeto 2013 
Data da conclusão da obra 2017 
Área do terreno 956,35 m² 
Área construída 9.734,37 m²

Arquitetura Oppenheim Architecture + Design e Studio Arthur Casas
Interiores Studio Arthur Casas - Arthur Casas, Cristiane Trolesi, Nara Telles, Felipe Bueno, Adriana Yin, Nara Rosetto, Victoria Chaves, Renata Adoni e Adriana Andugar
Paisagismo Renata Tilli
Acústica Traço Verde
Estrutura AS Brasil
Construção Sig Engenharia
Automação Luritec e Casa do Futuro
Projeto executivo Insite
Esquadrias N2 Projetos
Fotos Leonardo Finotti

 

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 438
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