Rubens Reis e Fupam: Praça Roosevelt e Parque do Belém, São Paulo

Cicatrizes urbanas regeneradas

Dois projetos públicos inaugurados neste ano, em São Paulo, abrem à população novas frentes de convívio social e lazer em meio a tecidos marcados por cicatrizes urbanas

Na região central da cidade, carente de espaços vazios, a reforma da praça Roosevelt - localizada entre as ruas da Consolação e Augusta - seguiu projeto focado na desobstrução física e no estabelecimento de uma unidade de que o local, fragmentado, sempre careceu. Já na zona leste, o traumático cenário das rebeliões de menores infratores nas antigas instalações da Febem Tatuapé deu lugar ao Parque Estadual do Belém, onde a saga dos arquitetos foi manter a abundante área aberta em meio a 210 mil metros quadrados.

História de uma terra de ninguém
No início da tarde da última segunda‑feira de outubro, o arquiteto Rubens Reis estava, mais uma vez, na praça Roosevelt, no centro da capital paulista. Não dá para contar o número de vezes que, ao longo das últimas décadas, ele foi até aquele local, formalmente denominado praça, mas que até há alguns anos era um conjunto edificado.

O paisagista Roberto Coelho Cardoso, um dos autores da proposta original para a Roosevelt, inaugurada em 25 de janeiro de 1970, dizia que ela era “mais que uma praça: é um sistema viário, edifício e viaduto”.

Desde que, no final da década de 1980, ingressou na Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) - atualmente desmembrada em SP Urbanismo e SP Obras -, Reis e outros arquitetos da equipe do órgão público volta e meia eram convocados a propor soluções para a praça, que naquela época mostrava sinais avançados de deterioração.

Já nos seus primeiros momentos de Emurb, conta Reis, o diagnóstico apontava exagero de área construída e excessiva compartimentação. “Cada ocupante se preocupava com o seu pedaço e ninguém cuidava do todo”, afirma.

A proposta da praça original foi elaborada por Roberto Coelho Cardoso, Antônio Augusto Antunes Netto, Marcos de Souza e Luciano Fiaschi.

De acordo com Reis, o quarteto trabalhou a partir de conceitos da chamada renovação urbana, que, naquele momento, já eram alvo de crítica e rejeição na Europa e nos Estados Unidos.

A rigor, a Roosevelt propriamente dita nada mais era que a cobertura de um estacionamento enterrado, programa a que estavam agregados um mercado, um centro esportivo e uma galeria de exposições.

Também não havia um terreno reservado: a praça/prédio deu finalidade pretensamente mais nobre à fração de lote remanescente do sistema viário que, até hoje, conecta as zonas leste e oeste da capital.

A compartimentação excessiva e a falta de compreensão do espaço como um todo, agravadas pela crônica ausência de manutenção e pela carência de áreas verdes, refletiram‑se na rejeição popular à praça.

Antes da requalificação, a Roosevelt era quase uma terra de ninguém. Mas não se deve esquecer que a ancoragem de grupos teatrais alternativos ocorrida na Martinho Prado (uma das ruas laterais da praça) foi o movimento que impediu a completa decadência do local.

Nascida da reconstrução
A estratégia de intervenção na praça, centrada na remoção do excesso de massa construída, consolidou-se em 1995. Reis foi o autor dos estudos e o então chefe do Departamento de Intervenções Urbanas da Emurb, arquiteto José Eduardo de Assis Lefèvre, atuou como coordenador.

A arquiteta Rita Gonçalves, gerente de Intervenções Urbanas da SP Urbanismo, acompanhou a implantação da proposta e das alterações posteriores ao desligamento de Reis da empresa, em 2009.

Para ela, tratou-se mais de retirar elementos existentes do que colocar novos no local - embora nem a construção de um edifício para receber uma divisão da Polícia Militar, na face voltada para a rua Augusta, nem a ocupação de um dos módulos destinados às floriculturas pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) constassem do projeto original.

Entre os pontos alinhavados por Reis no programa da nova praça estavam a ampliação da acessibilidade, a abertura das esplanadas da Consolação e da Augusta e a articulação com o entorno.

Também constavam a ampliação das áreas permeável e de vegetação, e a reintegração do trecho arborizado que fica no entorno da igreja da Consolação. “O projeto procurou tirar partido dos caixões perdidos da estrutura remanescente, criando grandes floreiras para o plantio de árvores”, explica o arquiteto.

Reis desenhou ainda um conjunto de bancos que se espalham pelos espaços de lazer e estar. “A malha estrutural da laje remanescente das demolições definiu o grande eixo arborizado que liga as duas esplanadas”, detalha. Transversalmente a ele, destaca-se a cobertura pergolada, paralela aos delicados módulos destinados às floriculturas e ao café.

Da proposta original, foi suprimido um edifício destinado ao telecentro e à sede do Centro de Informação da Mulher, e abandonada a integração com a área verde da igreja. Mas o que parece incomodar mais o autor é a construção do edifício destinado à PM, ainda em obras.

O arquiteto teme que o prédio possa interferir no espaço desimpedido da nova praça e, com isso, comprometer a ideia de reconexão visual entre o leste e o oeste da cidade, essencial ao conceito do projeto.

“As demandas da igreja, da polícia e da GCM trazem de volta um dos maiores problemas da história desse espaço: o fracionamento e o loteamento, totalmente desvinculados da requalificação urbanística pretendida pelo projeto original”, argumenta Reis.

Na visita à praça, ele lamentou ainda alguns problemas de execução e os recentes conflitos de utilização da área. “Mas ela representa uma grande vitória da cidade e das pessoas que estiveram envolvidas na sua consecução”, concluiu.

Parque Estadual do Belém - Contra o passado de soturna memória

Durante as décadas de 1980 e 1990, eram frequentes as revoltas de garotos mantidos nas unidades da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem), extinta em 2006 e substituída pela Fundação Casa, atualmente responsável pela aplicação de medidas socioeducativas em menores infratores. Foi num desses antigos reformatórios que um passado de soturna memória começou a ser superado.

O terreno onde estava localizada a Febem Tatuapé, na zona lesta paulistana, transformou-se no Parque Estadual do Belém, reaberto, em sua atual configuração, no primeiro semestre deste ano.

Coube a uma equipe de arquitetos trabalhando sob o guarda-chuva da Fundação para a Pesquisa em Arquitetura e Ambiente (Fupam) conceber a conversão do antigo complexo correcional num equipamento com áreas para esporte, lazer e contemplação, no qual boa parte das edificações abriga atividades culturais e educacionais.

O projeto foi desenvolvido para a Secretaria de Economia e Planejamento pela Fupam, por sua vez contratada pela Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa).

Em março deste ano, a gestão do parque foi transferida para a Secretaria do Meio Ambiente. Quando inaugurou o equipamento, o governador Geraldo Alckmin comparou-o a iniciativas semelhantes, citando o Parque das Fontes do Ipiranga (também uma ex-unidade da Febem) e o Parque da Juventude, implantado na área onde antes existia o complexo prisional do Carandiru.

Áreas abertas: o foco da intervenção
A equipe responsável pelo projeto, constituída na sua maior parte por professores da FAU/USP, foi coordenada pelo arquiteto Sylvio Sawaya, ex-diretor da escola.

Ele atribui a implantação do parque à determinação do então secretário Francisco Luna, que teria enfrentado tentativas de ocupação do local com outros programas.

Articulador do time e responsável pelo plano diretor da intervenção (o lote e os terrenos à sua volta são, na maior parte, propriedades do estado), Sawaya explica que a estratégia foi evitar áreas construídas e valorizar os espaços abertos.

Houve também consenso na equipe sobre a recuperação das edificações do antigo reformatório para usos condizentes com o novo programa.

Assim, um pavilhão utilizado pelas internas abriga hoje uma unidade do programa Fábrica de Cultura (a transformação do edifício, incendiado numa rebelião, foi feita pelo arquiteto Pedro Taddei) e no antigo cinema há atualmente um café-concerto (projeto de Maria Alzira Marzagão Monfré).

Embora a orientação genérica fosse manter os espaços livres, havia a necessidade de construir um edifício-sede para o parque.

A edificação, que tanto pelo desenho contemporâneo quanto por suas cores vivas faz interessante contraponto com os prédios antigos, abriga vários serviços de interesse geral dos frequentadores e foi desenhada por Maria Alzira, Alessandro Ventura, André Takiya e Eduardo de Jesus Rodrigues.

Com quase 2,5 mil metros quadrados construídos, a edificação tem 30 metros de extensão em um único nível e estrutura principal formada por uma série de pórticos metálicos paralelos, distantes oito metros entre si.

A cobertura curva em telha também metálica não chega ao chão e traz leveza e fluidez ao volume, além de facilitar a ventilação cruzada. Os pórticos são interligados por lajes planas que protegem os usuários do sol e da chuva. Sanitários, enfermaria, salas de instrutores e gerência são algumas das instalações reunidas no prédio.

Ficha Técnica

Praça Roosevelt
Local São Paulo, SP
Início do projeto 1995
Conclusão da obra 2012
Área do terreno 28.852,14 m2
Área construída 3.672 m2
Arquitetura Rubens Reis (concepção geral); SP Urbanismo - Rita Guimarães Sylvestre Gonçalves, Cláudio José Teodoro Jr. e Thaisa Folgosi Fróes (alterações posteriores); Figueiredo Ferraz (projeto executivo); Borelli & Merigo (projeto executivo e acompanhamento técnico da obra)
Contratante Secretaria de Infraestrutura Urbana - Adriana Siani Boggio e Rogério Achcar
Gerenciamento e fiscalização da obra SP Obras - Pedro Pereira Evangelista, Armen Armaganijan, Norberto Duran e Omar Ayub
Estrutura Ápice
Paisagismo Fabricio Chiaradia Sbruzzi Paisagismo
Luminotécnica Franco & Fortes
Hidráulica HCM
Piso estrutural Mixdesign Tartuce Engenheiros Associados
Impermeabilização Proassp
Elétrica Seel
Ar condicionado Teknika
Construção Consórcio Paulitec/Cil
Fotos Joana França


Parque Estadual do Belém
Local São Paulo, SP
Início do projeto 2010
Conclusão da obra 2012
Área do parque 210.000 m2
Arquitetura e urbanismo Sylvio Barros Sawaya (coordenação); Alessandro Ventura, Carlos Faggin, André Takiya, Eduardo de Jesus Rodrigues, Maria Alzira Marzagão Monfré e Marlene Yurgel (arquitetura); Criscia Eloize Galan Sacardo, Fábio Gallo Júnior, Letícia Bressane, Marco Aurélio Grenier Granzotto, Maria Manuela Pose Guerra, Mariana Keller Frazão, Marília Barbin Vilela, Miguel Mussolino Prata, Patrícia Pies Tan, Paulo Adolfo Martins, Rafael Masashi Saito, Ricardo de Lorenzi Kambara, Sander Norio Rezende e Tatiana Carvalho Feliciano (equipe)
Hidráulica e elétrica Moacyr Alves da Graça e Germano Hernandes Filho
Acústica Hughes Jacques Marie Serres
Ar condicionado Daniel Krempel
Terraplenagem, geométrico e drenagem Daniel dos Santos Barbieri
Paisagismo Raul Pereira e Lígia Teresa Paduletto Silva
Mobiliário urbano Júlio de Andrade Maia
Estrutura e fundações Yopanan Rebello
Construção Consórcio CVS/DP Barros - Sidney Branco de Paiva Pessoa e Francisco Mazza
Fotos Joana França

Fornecedores

Praça Roosevelt
Forte Metal (estrutura metálica);
Esmara (pergolado e bancos de madeira);
Frioterm (equipamentos de ar‑condicionado);
Gerdau (aço);
Metaltec (esquadrias);
Met form (steel deck);
MSM (corrimãos e guarda‑corpos);
Pop (calhas e rufos);
Supermix (concreto)


Parque Estadual do Belém
Monta Steel (estrutura metálica e cobertura);
Holcim (concreto);
Moeller (instalações elétricas);
ABS (instalações hidráulicas);
Neocom (divisórias);
ThyssenKrupp (elevadores);
Rezemar (forros e isolamento termoacústico);
JF (impermeabilização);
Serralheria Abravaliu (esquadrias);
Santo André (pedras, mármores e granitos);
Strufaldi (pisos e azulejos);
Embramadem (portas);
JHBE (ventilação e ar-condicionado);
Ragusa (vidros)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 395
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