Pedro Paulo de Melo Saraiva: Mercado Municipal de SP

Varanda gastronômica

O Mercado Municipal paulistano, construído em 1933, acaba de passar por revitalização. Compõem a iniciativa a restauração do prédio, realizada por Maria Luíza Dutra, a iluminação monumental, orquestrada por Franco & Fortes/Neide Senzi, e, principalmente, a inserção de novos elementos e a coordenação geral conduzidas por Pedro Paulo de Melo Saraiva. O elemento mais forte do projeto é a plataforma metálica elevada, um mezanino que abrigará uma "varanda gastronômica".

Há mais de 15 anos, começou o envolvimento de Pedro Paulo de Melo Saraiva com a revitalização do Mercado Municipal de São Paulo. Em 1988, ele foi chamado para intervir no espaço por Raymundo de Pascoal, então assessor especial de arquitetura do prefeito Jânio Quadros. O projeto era ambicioso: previa a construção, entre outros, de dois grandes mezaninos internos e dois subsolos de estacionamento ao redor do edifício.

A ideia foi engavetada na gestão posterior e retomada na atual, sobretudo graças ao empenho do secretário municipal de Planejamento, Jorge Wilheim , e da presidente da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Nádia Somekh.

Nessa fase não havia, porém, um programa preestabelecido pela administração pública. Coube ao arquiteto e a sua equipe desenvolver um projeto básico, “mais conservador , mas mais viável , economicamente, do que o anterior”, confessa o autor. A experiência inicial foi aproveitada em grande parte, principalmente no que diz respeito ao levantamento de dados e desenhos.

Grosso modo, essa etapa privilegiava duas questões: a infra-estrutura do prédio e a adequação dele a novos usos. Se na primeira a obra caracteriza-se pelo enterramento de instalações e novas áreas no subsolo, a segunda é marcada por elementos expostos, aflorados ou flutuantes.

Em ambas, houve a preocupação com a lógica de execução, uma vez que não era possível paralisar as atividades do mercado. Em determinados períodos, cerca de 3 mil operários trabalharam simultaneamente na obra . Assim, um dos maiores méritos do projeto é revitalizar um símbolo paulistano em pleno funcionamento, e conseguir dar vida nova a um pólo gastronômico vivido.

Como o prédio nunca havia passado por uma grande reforma, a prioridade inicial foi a infra-estrutura, que estava “em colapso”, segundo o arquiteto. As instalações, por exemplo, eram realizadas ao sabor da necessidade e do improviso: fios expostos, ligações clandestinas e esgotos sem tratamento comprometiam aspectos higiênicos.

Saraiva propôs, nesse caso, uma malha subterrânea com canaletas técnicas para passagem das instalações de água, eletricidade, telefonia, esgoto, prevenção de incêndio etc. As canaletas acompanhariam a malha de circulação entre os boxes, que teriam piso removível de madeira. A proposta acabou sendo simplificada, adotando-se dutos enterrados sob as vias, agora revestidas de granito, com alguns pontos visitáveis.

Ainda na infra-estrutura, é importante ressaltar a iluminação, criada em parceria por Franco & Fortes e Neide Senzi (leia abaixo).

Outra parte importante dessa etapa do projeto é o subsolo , inteiramente novo. Nele foram instalados, entre outros ambientes, banheiros públicos, vestiários de funcionários, casa de máquinas, fraldário, enfermaria, refeitório e transformadores. Esse piso, com 1130 metros quadrados , ocupa o único recorte, em planta, do edifício na face voltada para a avenida do Estado.

Sobre ele foi implantada uma doca para carga e descarga de mercadorias, que corresponde à afloração parcial do pavimento enterrado.

Quanto à intervenção para dotar o edifício de espaços para novos usos, o elemento mais visível é a plataforma metálica com pouco mais de 2 mil metros quadrados. Seu posicionamento interno permite a visualização privilegiada dos seis vitrais temáticos, o que faz do novo ambiente sobretudo um mirante, um belvedere.

Ali serão instalados pequenas lanchonetes e restaurantes nos moldes de uma praça de alimentação de shopping center. “Praça não: é uma varanda gastronômica”, corrige Saraiva, para marcar a diferença com as corriqueiras áreas de fast-food. Esse uso reforça a tendência de diversos boxes do mercado, que servem comidas para consumo no local, como o famoso pastel de bacalhau.

A plataforma está apoiada em dois eixos de pilares metálicos, com ritmo estabelecido a partir da modulação preexistente. E aqui cabe um lembrete: apesar do ecletismo tardio da fachada, o prédio possui estrutura de extrema racionalidade , com pilares delgados e grandes vãos.

O acesso a esse piso é feito por escadas rolantes - uma em cada extremidade - e por duas torres de circulação com escadas e elevadores que interligam o subsolo, o térreo e o mezanino. Essas torres podem ser vistas, simbolicamente, como o elemento de ligação entre os dois aspectos marcantes do projeto: a infra-estrutura e os novos usos.

Na plataforma há oito espaços para lojas, cada uma delas dividida em área de atendimento e cozinha. A posição desse conjunto no sentido longitudinal do mezanino conforma espaço maior para as mesas e menor para a circulação de serviço.

O piso da plataforma flutuante alterna madeira e vidro , este colocado sobre as circulações do pavimento inferior, de forma a iluminar os eixos de passagem. O limite de altura das lojas foi demarcado por pérgula, idealizada em madeira e executada em metal.

Algumas sutilezas do projeto - soltar o pilar existente junto aos acessos dos sanitários, por exemplo - demonstram o diálogo franco entre o novo e o velho . Esse relacionamento também é evidente no exterior, onde demolições autorizadas pelos órgãos de patrimônio histórico ficaram registradas: ao retirar anexos sem valor arquitetônico, os arquitetos marcaram a cicatriz com placas de alumínio da mesma cor da estrutura metálica do mezanino.

Igualmente renovada foi a destinação das quatro torres , sempre subutilizadas na história do mercado. As torres A e B, situadas próximo da avenida do Estado e interligadas ao mezanino, serão ocupadas por grandes restaurantes. Junto à rua da Cantareira, as torres C e D - que, apesar de menores, por não contar com anexos, são mais verticalizadas - ganharam pisos metálicos novos e também abrigarão restaurantes.

Todos os novos espaços foram licitados e a abertura de alguns deles está prevista para o final de 2004. A obra foi financiada pelo poder público , sem a participação direta dos 300 permissionários.

No entanto, o processo de favelização dos boxes - alguns deles já possuíam até três pisos - está sendo revertido espontaneamente, uma vez que agora as lojas também são vistas de cima.

Existe a expectativa que o espaço, depois dessa revitalização, passe por grande fase. Tudo indica que o restauro, a iluminação e as intervenções trarão vitalidade ao local. 

E o contato do prédio com a cidade aumentou: com a retirada das grades que o cercavam e o alargamento das calçadas, a população está mais próxima do Mercado Municipal.

FUNCIONAL E MONUMENTAL

A iluminação do Mercado Municipal foi idealizada a partir de dois aspectos: funcional e monumental. O primeiro diz respeito à melhoria das condições de uso do espaço. Os luminotécnicos repetiram, então, a malha de pendentes do projeto original.  

Por orientação de Maria Luíza Dutra, coordenadora de restauro, as novas peças não deveriam assemelhar-se às antigas. Foram especificadas luminárias de vidro borossilicato prismado , que iluminam em baixo e em cima, redistribuindo a luz sem ofuscamento e valorizando a cobertura.

A face superior dos pilares internos foi marcada por projetores de pequenas dimensões escondidos nos capitéis. No entanto, é na fachada que o caráter monumental se evidencia.

Uma leitura dos elementos ecléticos levou os luminotécnicos a destacar o ritmo estrutural das colunas, com os pilares iluminados em diferentes alturas: luminárias de facho assimétrico no piso (embutidas) e nas cornijas; nas cimalhas inferiores, projetores de pequenas dimensões com facho concentrado. 

Os seis vitrais temáticos também foram valorizados pela luz. Como são iluminados de dentro para fora com projetores de facho médio, vistos da rua, à noite, eles apresentam efeito semelhante ao da visão diurna no interior.

O projeto básico de luminotécnica foi desenvolvido por Gilberto Franco e Carlos Fortes e, na fase final, contou com a participação de Neide Senzi , consultora da Secretaria Municipal de Abastecimento. A iluminação teve o patrocínio da Eletropaulo.

Texto de Fernando Serapião| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 297
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