Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha
e MMBB arquitetos: Oca do Ibirapuera

A redescoberta de Niemeyer

O celebrado trabalho de Oscar Niemeyer para o parque Ibirapuera, traçado em 1951 para comemorar o quarto centenário que a cidade de São Paulo comemoraria em 1954, ganha vida nova, livre dos acréscimos e ocupações inadequados que com o tempo se lhe impôs

Primeiro, a prefeitura paulistana desocupou o Pavilhão Manoel da Nóbrega (atualmente ocupado pela Pinacoteca do Estado), onde ficava o gabinete do prefeito; posteriormente, houve a recuperação do Pavilhão da Bienal; agora, os órgãos públicos municipais foram obrigados pela megaexposição Brasil 500 Anos a restituir o brilho original de boa parte do restante da obra.

Entre os trabalhos recuperados, um dos mais importantes é o Pavilhão Lucas Nogueira Garcez, conhecido como a Oca, ou a calota do Ibirapuera, um magnífico domo marcado pelas escotilhas - as aberturas - em sua base, como se vê nas imagens que PROJETO DESIGN reúne neste ensaio especial de Nelson Kon. Arquiteto e fotógrafo de arquitetura, Kon focaliza seu olho de especialista sensível sobre as belas e impressionantes curvas dessa oca modernista.

A grande marquise que une com suas formas serpenteantes os cinco maiores prédios do parque (entre 30 mil e 40 mil m2 cada um) e a Oca (cerca de 10 mil m2 de área construída) também passou por uma grande restauração, com a retirada de “inquilinos” abrigados ali havia décadas. “A marquise vai aparecer plenamente, com a dimensão e a monumentalidade iniciais do projeto, tal como o caminho - a vereda, para lembrar Guimarães Rosa - que conduz a esses maravilhosos recintos de exposições”, afirma o arquiteto Paulo Mendes da Rocha.

Coordenador da restauração, ou da “redescoberta da espacialidade niemeyeriana” do parque Ibirapuera, Mendes da Rocha teve como coadjuvantes operacionais os jovens arquitetos do MMBB (Marta Moreira, Fernando de Mello Franco, Milton Braga e Angelo Bucci), escritório paulistano responsável pelos trabalhos.

Retirados os museus da Aeronáutica e do Folclore, transferidos para outros locais da prefeitura paulistana, o domo de Niemeyer retornou à função para o qual foi projetado - originalmente, a Oca chamava-se Pavilhão de Exposições. A mudança, ou o retorno ao projeto original, começou pela porta de acesso, remodelada e “introjetada”, por meio de um grande pórtico metálico - pintado de branco, cor dominante no prédio - que funciona também como abrigo para visitantes e usuários. Na verdade, a restauração alcança apenas a parte executada do projeto, já que estava prevista outra marquise (menor), que se iniciaria em torno da Oca e terminaria no teatro - ambos, marquise e teatro, nunca construídos.

Internamente, as transformações restauradoras incluem também inovações. Derrubados “puxadinhos” e paredes surgidos ao longo dos anos e acrescentado um shaft, no lugar das antigas escadas rolantes e paralelo ao elevador adicionado ali, uma nova opção de circulação vertical ao prédio de quatro pavimentos foi oferecida aos usuários. Assim, o espaço foi redescoberto em toda a sua grandeza. As belas curvas das rampas agora reaparecem, inteiras. Um sistema de ar condicionado especial, responsável pela manutenção da temperatura ambiente em níveis adequados a telas e esculturas, sem umidade, transformou a Oca “no maior museu climatizado do mundo”, na talvez hiperbólica visão de Edemar Cid Ferreira, presidente da Associação Brasil 500 Anos.

De todo modo, a restauração representa, de fato, retomar o respeito ao projeto arquitetônico original, desnudando para o grande público que freqüenta o maior parque da cidade de São Paulo a arquitetura de Niemeyer com sua originalidade, suas curvas, pilotis e passeios, unidos pela marquise, sempre com a leitura singular das possibilidades do concreto. A Oca, por coincidência, abrigará a exposição de arte indígena. Nada mais adequado.

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 243
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