Núcleo Arquitetura: Terminal de ônibus urbanos da Lapa, São Paulo

Memória fabril

Os arquitetos Luciano Margotto Soares, Marcelo Ursini e Sérgio Salles buscaram estabelecer diálogo entre o terminal de ônibus urbanos da Lapa, em São Paulo, e seu entorno, considerando a memória operária e o perfil popular do bairro e reconhecendo esses fatores como elementos do projeto.

Daí, por exemplo, a opção por revestir com tijolos aparentes a grande parede curvilínea que separa a praça de acesso do pátio interno, fazendo referência direta à vizinha Estação Ciência/USP, explica Margotto.

Além do museu de ciências da USP - que ocupa parte de um conjunto de galpões industriais protegido pelo patrimônio histórico -, ficam no entorno do terminal o mercado municipal, o viaduto sobre a linha férrea, um shopping center e a estação de trem metropolitano.

O local em que ele foi implantado tinha aspecto de abandono. Ali havia apenas a praça deteriorada e, em sua parte posterior, o vazio que nos últimos anos vinha servindo como estacionamento para automóveis e onde, até a década de 1960, funcionou uma garagem de bondes.

A integração com os vizinhos foi definida com a criação de fluxos distintos. O principal é o da praça de acesso ao terminal para os pedestres vindos do shopping center e da Estação Ciência. Outro fluxo decorre do aproveitamento do recuo de dez metros entre a parte posterior do conjunto e a linha férrea. Ali foi aberta a via de pedestres que faz o acesso secundário e interliga o terminal à estação de trem e ao mercado municipal, tornando desnecessário contornar o conjunto pela frente.

Árvores de grande porte, originárias do local por onde hoje transitam os ônibus, foram transplantadas para a praça, totalmente reconfigurada em função da construção e do adensamento de sua massa verde. A fim de humanizar a área de tráfego, novas espécies foram plantadas no canteiro da plataforma mais larga.

Plataformas e serviços de apoio aproveitam o desnível original na parte posterior do terreno e acomodam-se em cota inferior à da praça. Para proteger as plataformas das intempéries e assegurar a incidência de luz natural, os arquitetos projetaram a cobertura em arco, com estrutura metálica. A cobertura não toca as vigas longitudinais de concreto, fazendo surgir a abertura com vedação em vidro ao longo de 110 metros de extensão.

Abas horizontais de concreto corrigem a incidência solar no ponto de encontro entre a estrutura metálica e as vigas. Recortes na parte central dos arcos dão origem a outra abertura linear para a exaustão da fumaça, interrompida apenas nos pontos de travessia dos pedestres, onde os arcos são plenos.

O terminal de ônibus urbanos da Lapa pode ser comparado a outros dois, em São Paulo, que, nos últimos anos, se notabilizaram pela qualidade arquitetônica: o terminal do parque D. Pedro 2º, projetado por Paulo Mendes da Rocha e MMBB, que se destaca pela leveza e elegância da cobertura; e o terminal da praça Princesa Isabel, projetado por João Walter Toscano e Odiléa Toscano, marcado pela cuidadosa inserção no contexto urbano.

A proposta do escritório Núcleo Arquitetura priorizou aspectos técnicos para atender ao programa estabelecido pela Secretaria Municipal de Transportes, que considerava a freqüência de 197 ônibus por hora em horários de pico, sendo 161 veículos comuns ou microônibus e 36 do tipo articulado, além de seis vagas para carros de reserva.

O terminal opera atualmente com capacidade ociosa, mas já está prevista a sua ampliação, para atender ao futuro aumento da demanda.

Ficha Técnica

Terminal de ônibus urbanos da Lapa
Local São Paulo, SP
Projeto 2002
Conclusão da obra 2003
Área do terreno 11 683 m2
Área construída 6 597 m2

Arquitetura Núcleo Arquitetura - Luciano Margotto Soares, Marcelo Ursini e Sérgio Salles (autores); Alexander Gaiotto Mioshi, Ana Virgínia Italiani, André Y. Ciampi,
Luís Cláudio M. Dias, Letícia Campanelli e Lílian M. da Silva (colaboradores)
Maquete Fábio Pileckas Gionco e Tieko Matsuda
Paisagismo CGM Caio Machado (terminal); Luciana Maragliano (praça)
Luminotécnica Paulo Sérgio Scarazzato e Irving Montanar Franco
Estruturas Hauy & Bechara
Instalações SKK
Coordenação de projetos Oficina
Supervisão de execução SPTrans
Construção Paulitec
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Perfilor (telhas metálicas); Lumini (luminárias); Dimep (relógios e controles de acesso); 
Deca (louças e metais sanitários); Docol (metais sanitários); Neocom (divisórias para sanitários); Korodur (pisos externos); Plurigoma (pisos da área administrativa); Portobello (revestimentos cerâmicos); Projecta (estrutura metálica); Orsometal (gradis)

Texto de Nanci Corbioli| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 289

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