José Augusto Nepomuceno, Jô Vasconcellos e Rafael Yanni: Edifício cultural e institucional, Belo Horizonte

Na praça, a orquestra, o rádio e a TV

Criação dos arquitetos Jô Vasconcellos e Rafael Yanni - como reflexo do programa equacionado a partir da consultoria de José Augusto Nepomuceno, artífice da Sala Minas Gerais - a arquitetura do Centro Cultural Presidente Itamar Franco, em Belo Horizonte, MG, tem vários atributos. O principal, é o de constituir um sentido de urbanidade - sintetizada na acolhedora praça que articula as áreas construídas - em uma quadra da capital destituída de espaços públicos de qualidade

Habituado a se integrar às equipes apenas depois do projeto de arquitetura estar definido, José Augusto Nepomuceno, arquiteto e um dos principais consultores em acústica do país, pensou tratar-se de mais uma dessas situações corriqueiras e, inicialmente, não botou muita fé no conteúdo da mensagem enviada pelo maestro Fábio Mechetti, diretor artístico e regente titular da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Na Europa e nos Estados Unidos, justifica Nepomuceno, seria natural um maestro convocar em primeiro lugar um consultor em acústica para configuração de uma sala de concertos. “No Brasil, porém, não dava para acreditar”, justifica.

Condutor da jovem orquestra, Mechetti relatava a Nepomuceno que conhecia seu trabalho - citou como exemplo a Sala São Paulo, na estação Júlio Prestes -, quando comunicou que desejava projetar a sala de concertos para a filarmônica que lidera, afirmando, ainda, sua intenção de que o espaço fosse desenhado por ele. O maestro convidava o consultor para discutir a incumbência sem ter sequer um esboço da arquitetura, postura que, na avaliação de Nepomuceno, é a correta no caso de salas de concerto, apresentações e teatros. A rigor, não havia nem terreno para a futura sede da instituição. Movido pelo inusitado da proposta e obrigação profissional, Nepomuceno retornou a mensagem no dia seguinte - ele estava a trabalho em Munique, na Alemanha, recorda.

Esse, pode-se dizer, foi o acorde inicial da partitura que culminou com a inauguração, no início de 2015, da Sala Minas Gerais (naquele momento inacabada), uma das edificações do Centro Cultural Presidente Itamar Franco, atual denominação do complexo (Estação Cultural Presidente Itamar Franco, o simpático nome anterior, foi abandonado por tolas idiossincrasias). Alinhavados o programa com as necessidades técnicas e artísticas da orquestra - sala principal, capacidade da plateia, camarins, salas de ensaios, administração, espaços de apoio, estacionamentos, entre outras -, começou a se estudar alternativas de terrenos para a futura construção.

Foi nesse momento que os arquitetos Jô Vasconcellos e Rafael Yanni se engajaram na iniciativa - na época, ambos trabalhavam para o Governo do Estado, ela responsável pela implantação e coordenação dos projetos do Circuito Cultural Praça da Liberdade; ele numa função estratégica. Caberia aos dois dar configuração arquitetônica à sala conceituada por Nepomuceno. Antes, porém, da arquitetura, eles deveriam “descobrir” quais terrenos seriam capazes de acomodar o equipamento.

Quando se fechou com o lote do Barro Preto - bairro da região centro-sul daquela capital -, o então governador do Estado, Antonio Anastasia, sugeriu que ao projeto da sala de concertos fosse agregado o das sedes e estúdios da Rede Minas de Televisão e Rádio Inconfidência. Doado pelo governo ao Tribunal de Justiça para que ali fosse construída a sua nova sede, o terreno - onde existia uma edificação parcialmente tombada - abrigou por anos repartições vinculadas à fiscalização de trânsito de Belo Horizonte.

Com a desistência do TJ, o imóvel foi retomado e destinado aos novos edifícios. Jô e Yanni os conceberam com a intenção de que o conjunto se tornasse um novo polo cultural e turístico da capital. A proposta era de que o complexo contribuísse para a transformação do espaço urbano circundante e resgatasse a desejável área de socialização que um dia a região já teve - essa qualidade, lembram eles, fora perdida com a extinção/ demolição do Mercado Distrital da Barroca. O terreno vizinho onde existiu o comércio (projeto de Celso Eustáquio de Oliveira, José Eduardo Ferolla e Sérgio de Paulo) é atualmente ocupado por uma unidade do Hospital Mater Dei (Zanettini Arquitetura).

As edificações foram implantadas no melhor nível de acesso do terreno, de maneira a reduzir a movimentação de terra. A disposição procurou gerar vazios entre elas, condição que propiciou a criação de uma grandiosa praça de acolhimento e lazer. “Que é oferecida para toda a comunidade e usuários em um local carente de espaços públicos, trazendo para a região uma nova identidade”, afirmam os arquitetos, destacando que o conjunto resgata e confirma o caráter e o compromisso social que, em sua avaliação, um equipamento desse porte deve contemplar.

Ainda de acordo com a explicação de Jô e Yanni, a sede da orquestra e as instalações da TV/Rádio refletem uma organização espacial pré‑estabelecida, sendo espelho do programa. A estrutura é totalmente modulada para otimizar custos e acelerar prazos. “Foram os critérios acústicos que determinam as formas dos espaços sensíveis e a organização dos ambientes circundantes”, eles ressaltam. “As necessidades acústicas de isolamento estrutural determinaram a implantação preferencial da grande sala de concertos sobre terreno natural, sem subsolos, e afastada das outras estruturas. Ela é implantada de forma a receber em seu nível médio o público que chega pela praça e faz circularem músicos e instrumentos diretamente no nível do palco.

Os grandes estúdios da TV também são implantados sobre terreno natural com acesso de docas e equipamentos diretamente na cota original”, eles descrevem. A zona multifuncional é formada por estacionamento, pré-foyer e serviços, sendo articulada pelas circulações horizontais e verticais. “O pré-foyer e entradas servem como áreas de transição entre o interior e exterior, tão necessárias às regiões de clima tropical”, eles observam. O público que chega a pé desembarca no ponto mais alto do terreno, onde o trânsito é menos intenso - estacionamentos foram dimensionados para a demanda das três instituições. Entradas e saídas de carros se dão em ruas distintas, na cota natural e no fluxo das ruas do quarteirão, sem cruzamento com o público.

O edifício tombado foi recuperado, sendo destinado à praça de alimentação que atenderá o público das três instituições e de equipamentos próximos, com restaurante, café e lanchonete. Para os espetáculos, banheiros generosos e cafés em todos os níveis atendem a rápida demanda dos intervalos, e o café/ terraço/jardim serve também de apoio e descanso para os músicos em dias de rotina. “Atualmente, com a obra entregue à comunidade, notamos que a população apropriou-se do espaço, criando um lugar de encontro prazeroso e referencial para a cidade”, asseguram os autores. (*)


Interior da sala de concertos. A acústica da Sala Minas Gerais, com projeto de José Augusto Nepomuceno, autor também do projeto da Sala São Paulo, na estação Julio Prestes, foi elogiada por praticamente todos os artistas que lá já se apresentaram.

ARQUITETURA E ACÚSTICA DA SALA MINAS GERAIS 
A Sala Minas Gerais foi concebida para alcançar padrões internacionais de excelência acústica. Sua sonoridade deveria ser percebida com proximidade, clareza e envolvimento, para os músicos e para a audiência. Entre muitos outros padrões acústicos, foi definido um tempo de reverberação na ordem de 2,2 segundos com a sala vazia, similar ao de outros projetos contemporâneos. Considerando que a sala de concertos pode ser entendida como instrumento musical, a base fundamental para a formação de sua resposta acústica são geometria e volumetria, e não exatamente os acabamentos, como o senso comum parece sugerir. A assinatura sonora está relacionada ao equilíbrio de inúmeras reflexões sonoras em diferentes locais, diferentes direções e diferentes intervalos de tempo. Esse equilíbrio tempo‑espacial é responsável pela acústica da sala.

No caso da Sala Minas Gerais buscamos um formato nada convencional, parte em terraços distribuídos ao redor do palco e parte como as tradicionais salas em forma de “caixa de sapatos”. A sala tem capacidade para 1480 lugares num volume interno de aproximadamente 18.950 m3. Para chegar ao seu dimensionamento, trabalhamos com modelos arquitetônicos e sobre modelos físicos em escala para avaliação acústica, além de investigações presenciais em salas de referência ao redor do mundo. Uma vez que o formato interno estava definido, foi iniciada a seleção dos materiais de acabamentos e das topografias acústicas.

Estas soluções foram novamente avaliadas em modelos computacional e físico. Nos testes em modelos, a sala alcançou qualidade semelhante às das melhores salas de concerto do mundo. Nos testes com a orquestra, e depois nas temporadas de 2015 e 2016, sua sonoridade foi aclamada por músicos e maestros. A sala tem detalhes de altíssima tecnologia como sistemas de ajuste acústico e rigoroso controle de ruído. Sua construção dá continuidade a mudança na forma brasileira de desenvolver projetos de espaços para escuta de música, que foi radicalmente iniciada em 1997, com a Sala São Paulo. (**)

  
JÔ VASCONCELLOS & ARQUITETOS ASSOCIADOS 
Jô Vasconcellos (EAU/UFMG, 1971) é titular do escritório Jô Vasconcellos & Arquitetos Associados. Foi responsável pela implantação e coordenação dos projetos do Circuito Cultural da Liberdade, em Belo Horizonte. Rafael Yanni (EAU/UFMG, 1997), trabalhou no escritório técnico de arquitetura da UFMG e no Núcleo de Entregas e de Empreendedores Públicos do Escritório de Prioridades Estratégicas do Governo de Minas Gerais. José Augusto Nepomuceno (Faculdade de Belas Artes, 2007) é especialista em acústica e planejamento teatral. É titular do escritório Acústica & Sônica



Ficha Técnica

CENTRO CULTURAL PRESIDENTE ITAMAR FRANCO 
Data do início do projeto 2011
Data da conclusão da obra 2015
Área do terreno 14.400 m2
Áreas construída Orquestra (11.162 m2); TV (4.240 m2); Rádio (1.639m2); Estacionamento (14.067 m2); Casa Histórica (1.420 m2); Praças (7.000 m2)

Coordenação geral e realização Codemig
Arquitetura Jô Vasconcellos e Rafael Yanni (projeto e coordenação técnica geral); Escritório de Prioridades Estratégicas do Governo do Estado de Minas Gerais; Joana Magalhães (assistente de arquitetura)
Consultoria técnica, programa e arquitetura acústica Acústica & Sônica - José Agusto Nepomuceno
Coordenação geral dos projetos e acompanhamento Jô Vasconcellos
Projetos executivos e complementares SPM
Projetos executivos de arquitetura Fernando Brentano
Estrutura Charles Simon
Luminotécnica Sônia Mendes
Comunicação visual Greco Design
Paisagismo Jô Vasconcellos, Rafael Yanni e SPM
Grafite Drin Cortes
Fiscalização Concremat
Construção OAS
Fotos Jomar Bragança

Fornecedores

Fundações Geomec, Geofix
Estrutura metálica Techneaço, Tecnoman, Femec, Mecbrun
Climatização Jam 
Luminárias Philips, Iluminar, Erco, Everlight, Itaim
Pisos Tarkett Stone, Taralay
Pisos, forros, portas e revestimentos acústicos Cox Port
Portas metálicas acústicas Secmet
Drywall, forros Resicon
Fachadas e esquadrias de vidros BM Consutoria, Desare
Instalação de pisos Revestform
Painéis de madeira Owa
Painéis acústicos Isofibras
Brises Hunter Douglas 

Texto de Adilson Melendez (*) e José Augusto Nepomuceno (**)| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 434
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