Nelson Dupré: Cinemateca Brasileira, SP

Cobertura estabelece relação entre galpões

Além da implantação do espaço de eventos e da Sala BNDES no bloco lateral esquerdo, a intervenção estipulou a cobertura da circulação externa, de forma a estabelecer relação entre os galpões

Fundada em 1940, a Cinemateca Brasileira - vinculada ao Ministério da Cultura - é responsável pela preservação e divulgação da produção audiovisual brasileira. Desde a década de 1990, ocupa uma série de galpões construídos em 1884 (com projeto de Alberto Kuhlman), que funcionaram como Matadouro Municipal de São Paulo até 1927. O conjunto, cedido à instituição pelo município e situado no bairro de Vila Clementino, é tombado pelo Condephaat e pelo Conpresp, órgãos de preservação do patrimônio em âmbito estadual e municipal, respectivamente.

A fase inicial de reconfiguração dos galpões, que data de 1989, foi idealizada por Lúcio Gomes Machado e Eduardo de Jesus Rodrigues (leia PROJETO 175, junho de 1994). No entanto, desde o ano 2000 as intervenções passaram a ser coordenadas por Nelson Dupré. Com o ingresso de uma nova diretoria executiva na instituição, no final de 2003, dinamizaram-se as ações em várias áreas, entre as quais se incluiu a aceleração da recuperação física das instalações.

O núcleo da atual intervenção foi o edifício situado na lateral esquerda do conjunto. Em seu projeto, Dupré seguiu uma linha que não busca restaurar o que poderiam ser elementos originais da edificação. Ele preferiu assimilar e evidenciar as alterações realizadas ao longo dos anos. Houve sutileza na inserção do novo programa, que se mostra claro, sem entrar em conflito com o histórico. O vidro em extensas superfícies foi o material ao qual o arquiteto recorreu com mais freqüência para assinalar sua atuação.

Nos acessos da Cinemateca Brasileira, Dupré substituiu os antigos portões por vedação com vidro transparente. A troca sinaliza, simbolicamente, que a instituição quer se expor - a cogitada ampliação da calçada frontal no largo em que se situa, em vias de ser aprovada pelo município, vai facilitar essa intenção.

A solução de transparência foi também adotada na cobertura do percurso externo que conecta os três galpões do conjunto. Protegida no centro e com laterais vazadas para facilitar a circulação do ar, ela é fixada nas paredes com a ajuda de tirantes. No geral, é plana - a ligeira variação no formato na área de acesso deriva do que se supõe que fosse a cobertura original daquele trecho do matadouro.

No galpão onde se situam o salão de eventos e a Sala BNDES, além da área de apoio e da cozinha, as janelas laterais e frontais foram recompostas com esquadrias metálicas e vidros. Com isso, foi possível trazer para o interior desses ambientes uma luminosidade de que não desfruta o bloco paralelo (que abriga a Sala Petrobrás, outro espaço de exibição). O piso é de cimento queimado; no teto, com forro claro, nota-se a estrutura do telhado do tipo shed. As paredes de tijolo aparente ostentam sua irregularidade, mostrando que os fechamentos não foram efetuados no mesmo momento.

Na parte frontal da edificação, foi mantido e protegido com piso envidraçado um trecho dos trilhos do trem que trazia os animais para o abate, descobertos durante as obras. Na cobertura, não foi possível recompor a estrutura de madeira, já muito danificada. Dupré realizou pesquisas para descobrir como ela foi montada e redesenhou com perfis metálicos as tesouras sobre as quais se apóiam telhas cerâmicas do tipo francesa.

No fundo do galpão, a nova sala de cinema, com 230 lugares, oferece visão perfeita de qualquer ponto da platéia. Como foram mantidas as aberturas nas laterais, um dispositivo comanda a abertura e o fechamento das cortinas, para produzir as condições adequadas para a exibição de filmes. O anexo na lateral direita da sala - uma caixa de vidro com estrutura metálica, contida dentro de paredes parcialmente arruinadas - foi reservado para acomodar futuramente, no nivel térreo, um café. No mezanino estão localizadas áreas de trabalho.


Nelson Dupré
Nelson Dupré formou-se em 1973 pela FAU Mackenzie, onde leciona desde 2004. É autor, entre outros trabalhos, da conversão de parte da estação ferroviária Júlio Prestes na Sala São Paulo, sede da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (leia PROJETO DESIGN 233, julho de 1999)



Ficha Técnica

Cinemateca Brasileira
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2000
Data da conclusão da obra 2007
Área do terreno 23.286,15 m2
Área de intervenção 1.814,44 m2
Arquitetura Nelson Dupré (autor); Mauro Pucci (coordenador); Renata Maradini e Fernando Gasperini (colaboradores)
Restauro Maria Luíza Dutra
Iluminação Ladislao Szabo
Ar condicionado Contractors
Elétrica P. d’Aprille
Eletroacústica R. Boseli
Estrutura Cia. de Projetos
Gerenciamento e supervisão de projetos técnicos e obras Sfera Engenharia - Marcos Barrichello
Fotos Dario de Freitas

Fornecedores

Construmet (estruturas metálicas);
Cristalseg (vidros);
DB Som (portas acústicas);
Div-Som (painéis acústicos);
Giroflex (poltronas);
AirTime (arcondicionado);
Cineplast (cortinas acústicas rolô e tela);
Estrela Gesso (forro de gesso);
RW (pintura)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 339
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