Mauro Munhoz: Museu, São Paulo

A história do futebol, no campo e sob as arquibancadas

Escrita nos gramados, ao longo dos jogos, a história do futebol brasileiro se consolidou debaixo das arquibancadas do estádio do Pacaembu, em São Paulo, no Museu do Futebol, projetado pelo arquiteto Mauro Munhoz

A intervenção de caráter revitalizador e urbanista, leva a marca do desenho e do detalhamento refinados do autor, superando as limitações em geral impostas pelos orçamentos às obras de caráter público.

Num início de tarde, em setembro, Mauro Munhoz saltou do táxi e desceu as pouco freqüentadas escadas laterais do estádio do Pacaembu, que unem a rua Itápolis à praça Charles Miller, em São Paulo. Em seu semblante, passos e trejeitos, a costumeira calma que o caracteriza. Simbolicamente, o percurso que ele fazia representa o mesmo gesto de quem está propondo revitalizar um importante espaço público de São Paulo.

Quando Munhoz foi chamado para criar o projeto do Museu do Futebol, a área a ser ocupada ainda não estava escolhida. Entre as opções, havia a Casa das Retortas, uma antiga garagem da CMTC atrás da Pinacoteca do Estado e a área sob uma das arquibancadas do estádio do Pacaembu, chamada popularmente de Tobogã. “Além do acesso difícil, ocupar o Tobogã - construído de forma autoritária e tecnicamente discutível - seria corroborar com uma idéia errada”, argumenta o arquiteto. Por outro lado, “não há lugar mais apropriado para abrigar um museu sobre o futebol do que um estádio”, reconhece.

Então, ele sugeriu outra opção: ocupar a parte frontal do estádio, um trecho sob a arquibancada curva, atrás do gol mais próximo ao norte. Essa área construída fica entre as duas arquibancadas retas, assentadas sobre os taludes naturais. “É uma espécie de edifício-ponte”, define Munhoz. O espaço agora destinado ao museu possui térreo mais três pisos escalonados: quanto mais alto, menor a laje. No passado, abrigou, entre outras, áreas administrativas e até mesmo uma churrascaria.

A Grande Área, como é chamado o hall de acesso. Com a retirada de vigas e lajes na entrada do museu, a estrutura foi reforçada
Aproximando-se do discurso urbano, o arquiteto prevê que o museu ajudará a revitalizar a praça em frente do estádio, que, afora o uso eventual como estacionamento e para feira livre, permanece desocupada quase o tempo todo. “Este é um dos grandes espaços abertos de São Paulo”, avalia Munhoz, abrindo os braços. O arquiteto elaborou um projeto complementar - ainda não viabilizado - que transforma a área numa grande esplanada.

Além disso, o autor sonha com estacionamentos subterrâneos sob as duas ruas laterais, que, atualmente, com residências de alto padrão, em dia de jogo ficam inundadas de automóveis (quando o estádio foi construído, nos anos 1940, eram poucos os freqüentadores que tinham carro). Para ajudar a dar vida ao local, todos os ambientes complementares - lojas, cafés, restaurante, auditório e bilheteria - voltam-se para fora e ocupam a galeria aberta em forma de arcada que domina a parte frontal do piso térreo.

Munhoz propõe que nos afastemos da fachada do estádio. É fácil descobrir por quê: o discurso do arquiteto nasce da relação entre o prédio e a cidade. Com caráter cívico e composição protomoderna, e por isso mesmo associado a regimes totalitários (para piorar, construído durante o Estado Novo), o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, conhecido como Pacaembu, é o grande estádio de São Paulo. Não no que se refere à capacidade, mas a sua história: ele é público, central e intimista. Em qualquer lugar da arquibancada, o torcedor está próximo ao campo. Tem extraordinária e sensível concepção, que o implantou em um fundo de vale, com as arquibancadas assentadas sobre a topografia. “Existiu aqui uma clara intenção, desde o plano dos ingleses da Cia. City para o bairro, que separam o lugar para a construção de um estádio, até o projeto do escritório de Severo Villares. Ninguém sabe de quem ela partiu, mas existe uma intenção”, divaga Munhoz, observando a edificação.

“Vamos entrar?”, ele convida. O acesso do museu coincide com o eixo monumental que, em tese, define a entrada nobre do estádio. Lá dentro, a aparente tranqüilidade do arquiteto contrastava com o frenesi de engenheiros e operários, pressionados pelo prazo de inauguração, previsto para dali a alguns dias.

O passeio começa pelo hall de entrada, onde é evidente a malha estrutural, de 5 x 5 metros. Munhoz aponta a estrutura pouco generosa - criada para abrigar espaços compartimentados - como uma das dificuldades do projeto. Para aumentar o pé-direito, que chega a ter a altura de até três pisos, foram cortadas lajes e vigas, o que exigiu reforço estrutural. Outro problema: a área escolhida para o museu é fragmentada em dois setores isolados (um a leste e outro a oeste), separados justamente pelo eixo central. Para resolvê-lo, o arquiteto criou um percurso contínuo e uma ligação externa entre as duas partes no segundo piso.

De forma geral, o Museu do Futebol não possui acervo. Para seduzir o visitante, a museografia - criada por Daniela Thomas e Felipe Tassara - utiliza imagens, projeções e sons, tal como o Museu da Língua Portuguesa (também idealizado com a participação da Fundação Roberto Marinho). O hall de entrada recebeu uma coleção de peças, sem valor comercial, doadas por torcedores. Dada a devoção quase religiosa ao esporte nacional, o espaço - chamado oficialmente de Sala Grande Área - foi apelidado, durante o projeto, de “sala dos ex-votos”.

Subindo uma escada rolante, o sedutor percurso atravessa, inicialmente, o primeiro piso em sentido leste, onde estão as primeiras das 15 áreas expositivas. Uma curiosidade que dificilmente os visitantes perceberão: em todos os andares, as saídas de emergência estão em nível, junto às escadarias do talude. O Corpo de Bombeiros foi convencido de que todos os andares eram térreos. “Não fazia sentido criar rotas de fuga dentro do prédio se é mais rápido sair diretamente para a rua”, avalia Munhoz.

No final do primeiro piso, chega-se ao mais surpreendente espaço do museu: a Sala da Exaltação (que Munhoz, em outra alusão religiosa, batizou de “catedral”), repleta de monitores com imagens de torcidas. Além disso, é possível fazer ali uma leitura da sensível topografia do projeto original através de seu avesso: dá para perceber o momento em que o talude natural de terra descola do edifício, revelando-se, pela primeira vez, as entranhas da feliz concepção dos anos 1940.

Mais uma escada rolante e o percurso continua no segundo piso, todo ele iluminado por aberturas circulares com telas metálicas que filtram a luz. Antes de entrar no museu, o visitante atento terá notado, por trás dessas aberturas, a silhueta do movimento do público. Já dentro do prédio, o mesmo visitante perceberá que ele agora faz parte da experiência, compondo aqueles vultos. “Assim, a leitura do projeto fica mais fácil”, opina Munhoz. Essa mesma situação é percebida na nova passarela, posicionada exatamente no eixo de entrada do segundo pavimento. Esse elemento é a única intervenção de Munhoz visível na fachada do estádio. Com 150 metros, a elegante passarela unifica os dois setores, possibilitando a passagem para o lado oeste, onde fica a segunda parte do percurso, simétrica à primeira - tal como o desenho do estádio. No último andar ficam as áreas administrativas.

A passarela possui piso de madeira maciça disposto no sentido do trajeto, com as peças trespassadas por tirantes também de madeira. Cada trecho, por sua vez, é estruturado com vigas metálicas, atirantadas às vigas de concreto do estádio. O detalhamento desse e de outros elementos (forros, caixilhos etc.) revela um dado interessante: apesar do orçamento limitado, típico de obra pública, é perceptível a qualidade do detalhamento de Munhoz, conhecido pelo apuro no desenho e pelo requinte de materiais (em geral, em obras privadas e caras). Ao assumir instalações expostas, por exemplo, a obra não perdeu o caráter dos projetos do arquiteto e se manteve dentro do custo proposto.


Mauro Munhoz formou-se pela FAU / USP em 1982 e desde 1989 mantém escritório próprio em São Paulo

Ficha Técnica

Museu do Futebol
Local São Paulo, SP
Início do projeto 2005
Conclusão da obra 2008
Área construída 7.000 m2

Arquitetura Mauro Munhoz (autor); Daniel Pollara e Paula Bartorelli (co-autores); Laércio Monteiro, Guilherme Zoldan, Paula Thyse, Vívian Santinon, Mariane Bona, Renata Swinerd, Laís Delbianco, Luiz Henrique Ferreira, Eloise Amado, Suzana Barboza, Sarah Mota Prado, Carolina Maihara, Pedro Simonsen e Luís Felipe Bernardini (equipe)
Curador Leonel Kaz
Museografia Daniela Thomas e Felipe Tassara
Acompanhamento do projeto Fundação Roberto Marinho - Lúcia Basto Construção Engineering
Estrutura Cel - Júlio Timerman
Fundações Infra Estrutura - Eliana Joppert
Climatização Thermoplan - Eduardo Kaiano
Acústica Passeri & Associados
Automação e cabeamento Jugend
Instalações Nestor Caiuby (hidráulica e prevenção de incêndio); Norberto Glawez (elétrica)
Luminotécnica LD Studio
Esquadrias DQ
Áudio e vídeo Loudness Projetos Especiais e KJPL Peter Lindquist
Acessibilidade Bosco & Associados
Consultoria de restauro Mauro Munhoz
Projeto de restauro Wallace Caldas
Comunicação visual Vinte Zero Um Comunicação
Imagens 3D Sputnik
Compatibilização de obra dos projetos técnicos Mauro Munhoz
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Otis (elevadores e escadas rolantes);
Dorma (portas automáticas e giratórias);
Carneiro (portas de enrolar);
Springer Carrier (ar-condicionado);
Pilkington Brasil (vidros);
General Electric, Interpam, Lumini, Philips (luminárias);
Interlink (cabeamento estruturado);
Eivaldo Antonio Fuza Serralheria (forro acústico);
JSF, TRA (itens de serralheria);
Concrejato (obras de acabamento, fachada e instalações hidrossanitárias);
Construtora Ribeiro Caram (demolição e reforço estrutural);
Qualieng (instalações elétricas e de combate a incêndio);
Fantástico (pintura de estruturas e esquadrias metálicas);
Star Center (instalação do ar-condicionado);
Anizio Martins de Almeida Neto EPP (instalação dos vidros)

Texto de Fernando Serapião | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 346
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora