Kruchin Arquitetura: Empreendimento de uso misto, SP

Na praça, a torre, a cidade e os planetas

A praça na qual convivem edifícios de programas distintos é um dos elementos da proposta arquitetônica do empreendimento multiúso implantado na região da Bela Vista, em São Paulo. Chamado de Praça Pamplona, o complexo reúne uma torre de escritórios com vinte andares, um edifício destinado a ser centro de estudos, e um teatro digital/planetário - que se juntaram a um antigo sobrado recuperado

Ao longo do trajeto de quase dois mil números da Pamplona - rua paulistana que começa na Bela Vista e termina no Jardim Paulista - não existia, até o final do ano passado, sequer uma praça pública - talvez até possa ser assim chamada a área de acesso de pedestres ao shopping Cidade São Paulo (PROJETO 424, de agosto de 2015), na esquina da referida rua com a avenida Paulista. Ainda assim, e apesar da razoável presença de árvores de porte, não se pode afirmar que não persista, na região, a carência por equipamentos desse tipo, o que torna ainda mais relevante o empreendimento situado no número 145 daquela rua, edificado a partir de projeto do escritório Kruchin Arquitetura, do arquiteto Samuel Kruchin.

Ao contrário do que seria esperado - em razão de ser essa a prática quase recorrente entre as empresas do segmento imobiliário - o nome Praça Pamplona não foi apenas instrumento de marketing, uma vez que o empreendimento da Brookfield Incorporações reúne, efetivamente, algumas características que justificam chamá-lo dessa forma. Afinal, o público que a partir do acesso pela rua Pamplona fizer o percurso (que é franqueado também àqueles que não trabalharão nos edifícios) em direção à torre, tem a sua disposição não apenas uma praça, como também pode desfrutar de um belvedere - junto ao térreo do edifício de escritórios - de onde se descortina uma incomum e agradável vista dos arredores.

No terreno do empreendimento - que possui frentes tanto pela via que lhe emprestou o nome como para rua Sílvia, que nesse trecho é paralela à Pamplona - existia um sobrado bastante deteriorado da década de 1930 (de perfil arquitetônico eclético tardio, porém edificado com técnica construtiva moderna), que por muitos anos funcionou como sede da Fundação Instituto de Física Teórica da Universidade do Estado de São Paulo, além de alguns insignificantes galpões (também ocupados pela Fundação) que agora foram removidos. O Praça Pamplona é constituído por uma torre de escritórios, um teatro digital/planetário e um edifício de pesquisas destinado ao instituto, que se juntaram ao sobrado.

Autor do projeto, Kruchin conta que a fundação realizou uma concorrência para dar uma ocupação mais adequada ao terreno e ele foi contratado pela Brookfield (o que atribui às experiências acumuladas por seu escritório com a recuperação/conversão de edifícios históricos e também por ter projetado alguns edifícios educacionais/pesquisas) para elaborar a arquitetura do complexo, aonde programas de naturezas distintas iriam interpor- se. Kruchin recorda também que, antes da versão final, algumas soluções apresentadas pela equipe foram descartadas pelos conselheiros do instituto. “Gostamos muito, mas não era bem isso que desejamos”, foi, segundo o relato do arquiteto, a reação dos integrantes do conselho às primeiras configurações sugeridas para o teatro digital/planetário.

Quando se deparou, em uma praia do litoral norte paulista, com uma concha excepcionalmente grande e incomum para aquela região, é que ocorreu a Kruchin a configuração para o teatro/planetário que, por fim, convenceu e arrebatou os conselheiros do instituto: a de uma casca que envolve o equipamento e que evoca, figurativamente, a imagem de um nascedouro de estrelas.

Se a concepção formal do teatro digital/planetário tornou-se fonte de angústia e inquietude para o arquiteto, a implantação do complexo pareceu- lhe nítida desde o primeiro momento e se manteve praticamente intacta até o fim: a de que seria preciso estabelecer um eixo para conectar o elemento preexistente (o sobrado da Pamplona) com a torre que o projeto havia posicionado no extremo oposto do terreno, no limite com a rua Sílvia, com os dois outros blocos (centro de pesquisa e teatro digital/planetário) figurando como satélites que orbitam esse eixo.

Posicionada no centro desses blocos, a praça em dois níveis, que se mistura ao espelho d’água, é o quinto elemento da composição - aquele ao qual o projeto confere a função de articulador entre os outros. Conceitualmente, a composição procura sintetizar o processo de desenvolvimento de uma metrópole (e em particular o desenvolvimento da capital paulista) em diferentes momentos e situações.

Nessa proposição, reflete Kruchin, o sobrado restaurado (com frente para a via pública e antecedido pelo jardim tombado) é uma recuperação/reverência ao passado; a moderna torre de 20 andares com seu mirante/belvedere representa o presente e futuro de curto prazo da grande cidade; e o centro de pesquisas, em combinação com o teatro digital/planetário, é o exercício/especulação do futuro em horizonte quase imensurável - o eixo que conecta os extremos do terreno e a praça são os elementos de aglutinação urbana do conjunto.

“A cidade é atraída para o interior do lote e com ele se confunde. O terreno abre-se ao espaço público, convertendo-se em ruas e praças sem, no entanto, abdicar do seu caráter privado”, argumenta o arquiteto. Outra possível interpretação do projeto sugere ser um imenso teatro urbano onde os edifícios são ora público, ora plateia, como se estivessem em uma grande arquibancada - permitindo observar o outro praticamente na íntegra, com a praça ocupando o papel que, na Grécia Antiga, era desempenhado pela ágora.

Para a torre - que, na composição, funciona como pano de fundo do empreendimento e ocupa toda a testada do terreno voltada para a rua Sílvia - o projeto definiu uma planta de configuração retangular com uma volumetria sóbria e contemporânea, na qual as sacadas técnicas rompem a linearidade e  pontuam visualmente o perímetro dos pavimentos.

Embora tecnicamente seja considerada como fundos, a face voltada para a rua Sílvia repete o mesmo desenho, porém com as sacadas técnicas revestidas com um único material - na face voltada para a praça interna, uma parte da sacada é envidraçada. O volume de embasamento (onde estão garagens) recebeu um tratamento paisagístico junto à calçada, complementado por um painel pintado nas paredes com imagens estilizadas do casarão.

Situado na parte central do terreno, o centro de pesquisa fica em cota inferior à do acesso principal da residência. Também de conformação retangular, com uma das extremidades em semicírculo e a outra em balanço, a edificação tem três pavimentos; a face voltada para as praças caracteriza- se por anteparo trapezoidal, que lhe confere personalidade. Já o teatro digital é esteticamente o mais expressivo do complexo - embora seja o de menor área construída, tornou-se protagonista do empreendimento. Com acesso pela rua/eixo, no trecho em que se transforma em passarela sobre a praça da cota inferior, o edifício possui dupla volumetria esférica, “roubada” das conchas que envolvem caracóis e mariscos, simulando o universo e corpos celestes.

Kruchin Arquitetura
Formado em 1980 pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Samuel Kruchin é titular do Kruchin Arquitetura, escritório que constituiu em 1988. Depois de ter sido uma das primeiras empresas privadas a trabalhar no segmento de preservação e restauro, o estúdio ampliou seu espectro de ação, atuando em escalas que vão do desenho de mobiliário a planos urbanísticos



Ficha Técnica

Praça Pamplona
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2011
Data da conclusão da obra 2016
Área do terreno 6.555,54 m²
Área construída 36.764,89 m²

Arquitetura Kruchin Arquitetura - Samuel Kruchin (projeto e coordenação geral), Aline Stievano (coordenação), Peter Ribon, Agda Piazzon, Isis Beretta, Lucas Leite, Renata Mello, Larissa Carrelli (arquitetos), Cristiane Gonçalves, Gustavo Guedes, André Bernardi, Renata Gouveia, Mariana Hetem, Natalia Ferrari (colaboradores)
Paisagismo Benedito Abbud
Decoração Patricia Anastassiadis
Estruturas NG Engenharia (concreto), Ernesto Tarnockzy (metálica)
Fundações Portela e Alarcon
Instalações SKK Engenharia
Bombeiro Claudinei Passoni
Climatização Teknika
Luminotécnica Mingrone Iluminação
Consultoria de caixilhos MN Consultoria
Impermeabilização Proassp
Acústica Akkerman
Elevadores Empro
Consultoria em Teatro Digital Scisse Visual Acuity
Consultoria em concreto PHD Consultoria
Construção Brookfield Incorporações
Fotos Daniel Ducci

Fornecedores

N.Didini (revestimento em cobre)
Miaki (impermeabilização)
Engemetal (estrutura metálica)
Glassec (vidros)
Itefal (esquadrias)
Unicom (concreto projetado)
Doka (formas)
Quartzopel (painel artístico em agregado mineral)
Thyssenkrupp (elevadores)
Agrotexas (vegetação)
Remaster (piso elevado)
Euromarble (granito piso elevado)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 435
  • 0 Comentários

ENVIE SEU COMENTÁRIO

Assine PROJETO e FINESTRA!
Acesso completo grátis para assinantes


Quem assina as revistas da ARCO pode acessar nosso acervo digital com mais de 7 mil projetos, sem custo extra!

Assine agora