Kengo Kuma e FGMF Arquitetos: Japan House, SP

Matriz japonesa,
nuances modernas

Delicadas lâminas de madeira de um pinheiro típico do Japão e um painel de concreto leve na forma de cobogó tornam a Japan House um (suave) marco na paisagem da avenida Paulista. Intervenção que deu origem ao espaço cultural juntou o arquiteto japonês Kengo Kuma e o escritório paulistano FGMF Arquitetos

Para os especialistas não é novidade que juntar diferentes funções num mesmo espaço urbano é fundamental para manter a sua vitalidade ou, se for o caso, recuperá-la. Na avenida Paulista, em São Paulo - uma via de vocação comercial mas que abriga também residências - embora não tenha sido algo planejado, esse caráter multifuncional foi reforçado nos últimos anos com a inserção de espaços culturais, entre os quais foram pioneiros o Centro Cultural Fiesp, o Itaú Cultural e, ainda mais emblemático, o Museu de Arte de São Paulo.

O mais recente a se juntar a eles abriu as portas em meados de maio e se chama Japan House. Localizado no início da avenida, próximo da praça Oswaldo Cruz, o espaço é parte da estratégia do governo japonês de divulgar, em cidades fora do Japão, a cultura e a economia do país em seus variados aspectos - Londres e Los Angeles também terão Japan Houses, programadas para inaugurar no final do ano e concebidas, respectivamente, pelos japoneses Masamichi Katayama (Wonderwall) e Junji Tanigawa.

Espaço multiúso com áreas para exposições e eventos culturais (ao qual se agregaram loja, café e restaurante) a unidade paulistana foi projetada pelo arquiteto japonês Kengo Kuma em parceria com o escritório brasileiro FGMF Arquitetos. O novo complexo cultural da Paulista ocupa as instalações de uma antiga agência bancária que, para receber o novo programa, passou por profunda reformulação, tanto na parte interna como no exterior - a permanência do banco noutra fração do prédio evidencia o que era e expõe, por contraste, o quanto a avenida (e a cidade) qualificou-se em termos arquitetônicos, ainda que, conforme pontua o arquiteto Lourenço Gimenes, sócio do FGMF, se trate de obra de pequeno porte.

Gimenes conta que, inicialmente, os sócios do FGMF foram convidados por uma empresa de consultoria (Suriana) para tomar parte no processo (quando ainda não se falava em projeto de arquitetura) de estruturação da iniciativa. Participaram, inclusive, da pesquisa e seleção de edificações/terrenos que poderiam se prestar ao programa. Escolhido o edifício da avenida Paulista, a Suriana associou-se à Toda do Brasil - construtora de origem japonesa que atua no país - que habilitara-se para participar da concorrência e foi contratada para a empreitada.

O sócio do FGMF informa ter sido a construtora que confiou a Kuma a tarefa de desenvolver o estudo - e como o FGMF estava envolvido com a iniciativa, tornou-se responsável pelo projeto em São Paulo. Ele observa ainda que, por tratar-se de adaptação, a edificação impunha certos limites ao desenho. Para receber o programa foram realizadas, entre outras, as seguintes modificações: conexão entre pavimentos com rasgos nas lajes; inclusão de circulação vertical; e reforço estrutural necessário a um novo tipo de púbico – o que era uma agência bancária transformou-se em espaço multiúso.

O projeto que Kuma criou para São Paulo - o seu primeiro projeto em terras brasileiras - é a um só tempo sutil e marcante. Representativo da sua maneira de pensar/expressar arquitetura, nem por isso soa como um objeto estranho à cidade - “não é a arquitetura japonesa posta em São Paulo”, sintetiza Gimenes. É, por isso mesmo, exemplo de uma vertente cultural daquele país permeável a outras influências. Na Japan House, o elemento central da intervenção é a cortina de lâminas de madeira (hinoki, um pinheiro típico do Japão) que recobre a face oeste do prédio, funcionando tanto como elemento plástico como objeto funcional (brise).

Já a lateral (por onde se dá a entrada principal, antecedida por uma micro-praça) é visualmente definida por uma segunda pele - um painel na forma de cobogó (fabricado com concreto de ultra alto desempenho, extremamente leve). A intenção, explica Gimenes, era que o edifício se firmasse como um marco na paisagem e atraísse as pessoas para o seu interior. Ainda que tenha o DNA de Kuma, não é correto dizer que trata-se de arquitetura puramente japonesa, mas de um diálogo entre esta e o Brasil, utilizando elementos que fazem parte do repertório da moderna arquitetura brasileira.

Se, na parte externa a intenção foi de marcar a paisagem, na espacialidade a preocupação foi a de que ela não disputasse atenção com as exposições - o espaço, detalha Gimenes, foi idealizado para receber tanto um espetáculo de dança como mostrar o motor de um carro de altíssima tecnologia. “Como não existe um programa expositivo definido, miramos mais o conceito do cubo branco”, ele explica. Existem, portanto, pouquíssimos elementos definidores da identidade do espaço. As estruturas e as instalações aparentes são dois deles; outro é uma chapa metálica expandida mergulhada em papel, que combina material contemporâneo com a milenar tradição artesanal japonesa.

É esse material que ora funciona como forro, ora é divisória, noutros é porta. “São elementos diáfanos que criam diálogo com a estrutura existente, filtram a iluminação e funcionam também como material acústico. Nas grandes portas de correr, temos a mesma tela aplicada sobre uma base opaca, com a ideia de fechar e isolar ambientes, se necessário”, conclui Gimenes. 

 
 

Kengo Kuma & Associates + FGMF
Kengo Kuma formou-se em 1979 pela Universidade de Tóquio, onde é professor. Seu escritório foi constituído em 1990. Formados pela FAU/USP, Fernando Forte, Lourenço Gimenes e Rodrigo Marcondes Ferraz constituíram o escritório FGMF Arquitetos em 1999. Forte foi professor da disciplina Projeto Arquitetônico, na Universidade Paulista (Unip); Gimenes, que também lecionou na Unip, é atualmente professor na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP); Ferraz, como seus sócios, também foi professor na Unip



Ficha Técnica

Casa Brasil Japão
Local São Paulo, SP
Data do início do projeto 2015
Data da conclusão da obra 2017 
Área construída 9.900m²

Arquitetura Kengo Kuma & Associates + FGMF Arquitetos - Kengo Kuma, Fernando Forte, Lourenço Gimenes, Rodrigo Marcondes Ferraz (autores); Gabriel Mota, Sonia Gouveia (coordenadores); Alessandra Musto, Desyree Niedo, Fernanda Veríssimo, Joel Bages, Mariana Leme, Talita Broering, Tatiane Garcia, Wanessa Simoe (colaboradores); Isabel Ventre, Pedro Ocanhas, Rafael Colombo (estagiários)
Interiores Kengo Kuma & Associates
Paisagismo Alex Hanazaki
Automação Studiolo
Elétrica, hidráulica, ar condicionado Mina Montagens Eletromecânicas
Estruturas SLV Engenharia de Projetos (metálica), Benedicts (concreto)
Construção Toda do Brasil
Fotos Flagrante/Romullo Fontenelle

 

Fornecedores

Construtora Nakashima (fachada de madeira)
Sancometal (estruturas metálicas)
Aristeu Pires (mobiliário do restaurante e café)
Decormade (sofá)
Imagem (vidros)
Dimoplac (divisórias)
Stone (cobogós)
Portobello (pisos)
Hunter Douglas (divisórias dos banheiros)
Neo‑Rex (elementos vazados)
Rigofer (estruturas metálicas do portão)
Kanela Bambu (bambu)
Toto (peças sanitárias)
Mitsubishi Eletric (elevadores)
Isar (forro acústico)
Master Plate (pisos)
Hilda (cortinas)

 

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 438
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