Entrevista

Elizabeth de Portzamparc e Sou Fujimoto (17º FIAC)

Elizabeth de Portzamparc e Sou Fujimoto foram os convidados do último dia da 17ª edição do Fórum Internacional de Arquitetura, Design e Construção (FIAC), realizada durante a Expo Revestir, em março, na capital paulista. Após apresentar projetos para uma plateia com cerca de 1.200 pessoas, os arquitetos participaram de um debate mediado por Fernando Mungioli e Evelise Grunow, da revista PROJETO.


(Foto: FPepe Guimarães)


O Dia do Arquiteto encerra a programação do Fórum Internacional de Arquitetura, Design e Construção, realizado anualmente dentro da Expo Revestir, que este ano aconteceu de 12 a 15 de março, no Transamerica Expo Center, em São Paulo.

Pela terceira vez consecutiva com curadoria da PROJETO, o evento contou este ano com a participação da arquiteta brasileira Elizabeth de Portzamparc, radicada na França desde o final dos anos 1960, e do arquiteto japonês Sou Fujimoto.

Iniciando o diálogo com o público, Elizabeth de Portzamparc falou, entre outros assuntos, sobre as responsabilidades do arquiteto e a promoção de ações de cunho político para fazer da arquitetura agente de transformação. Discorreu ainda sobre algumas de suas obras na França, onde mantém escritório próprio, como o Museu da Romanidade de Nîmes, a Grande Biblioteca do campus Condorcet, em Aubervilliers, e a estação de Le Bourget. As duas últimas estão em construção.

Em seguida, Fujimoto compartilhou com a plateia detalhes de seus irreverentes projetos, como o Pavilhão Serpentine Gallery 2013, em Londres, um banheiro público transparente, no Japão, espécie de manifesto, e o icônico edifício residencial White Tree, em construção em Montpellier, na França. A cidade é vizinha a Nîmes, onde Elizabeth de Portzamparc inaugurou em 2018 o Museu da Romanidade.

Um dos mais respeitados arquitetos japoneses da atualidade, Fujimoto fez parte da equipe premiada com o Leão de Ouro na Bienal de Arquitetura de Veneza (2012), recebeu a medalha de ouro da Associação de Arquitetos e Engenheiros de Tóquio (2006) e o Grand Prix do Instituto de Arquitetura Japonês (2008), entre outros reconhecimentos.

Encerrando as palestras, os arquitetos compartilharam – na conversa apresentada a seguir - seus pontos de vista sobre a arquitetura e o urbanismo, suas formas de trabalho e estímulos, mas, sobretudo, inspiraram a plateia formada em sua maioria por estudantes e jovens arquitetos.

Fernando Mungioli - Temos aqui uma plateia de 1.200 pessoas e acredito que muitas delas têm vocês como inspiração. Que arquitetos, por sua vez, inspiram os seus trabalhos?

Elizabeth de Portzamparc Citei Lina Bo Bardi, [Affonso Eduardo] Reidy e Sergio Bernardes na minha palestra. Mas vocês viram o terraço do Museu da Romanidade, que não estava previsto no programa. Aquela curva tem muito de gesto do Niemeyer, então, como boa brasileira, não posso negar a sua influência. Poderia citar também aspectos como a porosidade do barroco brasileiro, que é uma inspiração para mim. 

Sou Fujimoto Tenho muitos nomes, é claro. Fui um grande fã de Le Corbusier, de Mies van der Rohe na época da faculdade; tive todos os grandes arquitetos como influência. Mas, ao mesmo tempo, sou muito interessado pela cidade feita por ela mesma, no sentido do anonimato da experiência acumulada. Está além da intenção do indivíduo, é como uma imprevisibilidade, uma certa desordem. Essa complexidade é sempre muito inspiradora.

FM - E quanto à arquitetura brasileira?

SF Sou um grande fã da arquitetura brasileira, especialmente depois da primeira vez em que estive aqui. Rodrigo Ohtake, meu amigo, levou-me para conhecer todos os edifícios importantes do Rio de Janeiro, de São Paulo e Brasília. A arquitetura de Niemeyer é realmente bela; é incrível a proporção, o fluxo dos espaços, as sensações de dentro e fora. Lina, Artigas e Paulo Mendes da Rocha, igualmente. Da nova geração sou fã, por exemplo, do Angelo Bucci. É incrível ver como cada um deles é único, mas, ao mesmo tempo, tem um tipo de fluxo contínuo do espírito que permanece lá.

Evelise Grunow - Vocês apresentaram projetos no âmbito da metrópole da Grande Paris. O que vocês veem de avanços, no que está sendo idealizado naquela cidade, em termos de melhoria de qualidade urbana?

EP Houve uma série de concursos para ligar a periferia com Paris. Para ela se tornar uma cidade de verdade é importante densificar e sobretudo evitar a imensa concentração de equipamentos no coração de Paris. Eles estão sendo previstos ao redor das futuras estações do metrô parisiense, para formar uma série de núcleos urbanos que acabem com o monopólio de Paris. Por exemplo, as universidades estão sendo deslocadas, como esta em que estou construindo a biblioteca [Campus Condorcet], que estará muito bem ligada a Paris através do metrô. Estamos construindo uma cidade de verdade, nenhum parisiense da Grande Paris vai morar a mais de 2 quilômetros de distância de uma estação. Estamos criando também eixos urbanos para pedestres, zonas verdes.

SF Para mim, tem sido uma grande oportunidade pensar os arredores dos edifícios e sobre os valores que traremos para eles. No Japão, era muito difícil termos trabalhos assim. No meu projeto em Montpellier [edifício White Tree, em construção], há um rooftop público que a vizinhança pode usufruir. É um pensamento simples de programa, um tipo de infraestrutura para que a vizinhança veja a cidade. Também se pode pensar, nos projetos, em como representar as características da condição local, da sua cultura, o que é algo igualmente importante. Não é só desenhar um edifício como objeto, como arquitetura, mas compreender a redondeza. É desenhar toda Paris, sua história, clima, as condições físicas, tudo junto.

EP No ano passado terminamos um bairro novo [Massy], junto com o escritório do Christian de Portzamparc e outros três escritórios de arquitetura, onde tive a oportunidade de tratar uma ideia que para mim é muito importante, a da hierarquia de intimidade. Tem praças públicas que são de interesse regional, com comércios etc., praças secundárias bem intimistas e pequenos lugares de encontro também. Não se trata de abrir tudo, mas de criar escalas de intimidade. Também minha biblioteca do campus de Condorcet tem essa variedade de tipologias de espaços. Cada pessoa, em função do humor, pode buscar um local mais luminoso ou mais escuro, um lugar onde pode se sentar à vontade para fazer pesquisa ou mais ereto, para estudar em uma mesa. É importante que a arquitetura não seja rígida. O espaço tem que acompanhar o homem e o nosso modo de vida.

FM - Aproveitando esse seu comentário, como refletem sobre os trabalhos de domínio público e privado nas suas criações?

EP Todos nós, homens e mulheres, precisamos de privacidade. No Le Monde [reformulação da sede do jornal francês, entre 2003 e 2004], eu fiz um espaço com salas de encontro largas, salas médias e salas minúsculas nos ambientes coletivos dos interiores. Os jornalistas acharam que era completamente adaptado, porque em função do humor, da hora, do estresse, eles poderiam se isolar para pensar, refletir, ou estar em contato com outros para trocar ideias, fazer circular as informações. A ideia da hierarquia de intimidade é primordial para uma vida coletiva.

SF Mostrei o banheiro [Banheiro Público em Jardim Isolado, em Chiba, Japão, 2003], falando da relação entre público e privado. Mas, por exemplo, se dissermos que a arquitetura serve para promover algum tipo de relacionamento entre as pessoas, até mesmo a privacidade se torna mais ou menos relativa nesse sentido. É por isso que eu sempre gosto de fazer transições, não apenas estabelecer as diferenças entre privado e público. Penso em qualidades de “mais privado”, “bastante privado”, “mais e mais público” e outras entre essas. Nós, então, podemos escolher aonde estar. Se você gosta de estar protegido, pode escolher situações ainda mais privadas. Ou o contrário. Abrem-se muito mais opções, o que é mais interessante na minha opinião.

EG - O que você teria a dizer à plateia, Sou Fujimoto, a respeito da pausa que você se concedeu assim que se formou arquiteto?

SF Isso aconteceu em meados dos anos 1990, uma época completamente diferente da de hoje. Quando me formei, não tinha certeza de como poderia desenvolver a minha carreira e então eu recuei. Passei meu tempo sem trabalhar com ninguém e isso durou uns oito anos. Foi um tempo precioso porque criei meu próprio pensamento arquitetônico quase do zero. Quando digo que temos que ser honestos com a nossa arquitetura é disso também que estou falando.

EG - Elizabeth de Portzamparc, como você se sente perante a tarefa de integrar o comitê científico do Congresso Mundial de Arquitetos que ocorrerá no Rio de Janeiro no próximo ano?

EP Esse próximo congresso do UIA [União Internacional dos Arquitetos] não vai ser só no Brasil. Vai ser no Rio de Janeiro, a minha cidade natal. O que é ainda mais importante para mim, simbolicamente. Fiquei muito honrada e emocionada com o convite. Já trabalhei com Jaime Lerner, nós fomos convidados a refletir sobre a reurbanização de Florianópolis após as grandes inundações que ocorreram alguns anos atrás. É um visionário da cidade sustentável e um homem de ação. Trabalhar agora com Paulo Mendes da Rocha, que tem uma visão muito humanística da arquitetura, será fantástico, assim como com o Álvaro Siza [integram ainda o comitê Gilberto Gil, André Corrêa do Lago e Marisa Moreira Salles]. Ele representa no comitê o elo entre as arquiteturas de Brasil e Portugal. É uma honra, mas também um desafio, refletir sobre os temas que serão realmente úteis para orientar os debates nesse evento gigante, os temas mais pertinentes, mais férteis. Fui convidada pelo fato de trabalhar com temas que procuram soluções para atender essas crises imensas que estamos vivendo. Todo o colóquio será baseado nessa arquitetura do futuro, sobre construir a cidade, no diálogo norte-sul também, porque a problemática de países desenvolvidos europeus não é a mesma que a da América Latina, não é a mesma da África, não é a mesma da Ásia. Comparar essas diferentes problemáticas e achar os eixos justos, os assuntos que permitam esclarecer, achar pistas. E será que são pistas internacionais válidas para todos os países? Será que são pistas locais direcionadas a cada continente? O Brasil é superdesenvolvido em alguns campos e em outros estamos na Idade Média. Então acho que vai ser apaixonante e difícil a tarefa, mas estamos todos muito entusiasmados.

FM - embora já tenham proferido preciosas dicas ao longo das palestras, gostaria que deixassem um recado final para esses jovens da plateia.

SF Espero que vocês desfrutem, reflitam, envolvam‑se com a arquitetura, porque é muito surpreendente criar. Seu trabalho deve ser parte da sociedade, parte da história, parte do futuro. Eu espero que vocês desfrutem e se apaixonem por isso.

EP Acho que o futuro, atualmente, pertence aos jovens. Vocês é que terão o tempo de mudar algo. Nossa geração está colocando a base de reflexão, mas quem vai praticá‑la e pensar novas direções serão vocês e seus filhos também. O papel de vocês é ainda mais importante do que o nosso, que está sendo começar a definir bases, questionar, lançar pensamentos, regras. O papel de vocês vai ser fundamental para inventar ferramentas ainda mais adequadas, e eu acho que vocês devem se sentir realmente investidos dessa responsabilidade de construir, de participar com a construção do futuro do mundo e da nossa civilização. E impedir, sobretudo, que ela continue sendo destruída.

Texto de Camila Gonzalez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 448
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