Edição 439: Conviver na arquitetura

Há 16 anos, Diébédo Francis Kéré cumpria um rito de passagem. Ainda estudante de arquitetura na Alemanha, viu concluída a obra de uma escola primária concebida por ele para a sua cidade natal, Gando, na África. Era o modo de retribuir a sua vila de nascimento pela oportunidade de ter-se alfabetizado e, com isso, iniciado uma carreira. Mas o que poderia ter sido uma ação pontual foi, na verdade, o começo de uma trajetória de sucesso, não só em termos de retorno financeiro ou de projeção profissional, mas principalmente de um modo de fazer arquitetura. O que, para ele, é tarefa de cunho social, coletiva. Nos seus projetos, muitos deles concebidos para instituições do terceiro setor, tem como hábito investigar a cultura local de construção e de envolver o usuário na obra. Nesse caminho, lidando sempre com a morosidade na arrecadação de recursos, considera que a demora é parte favorável do processo porque ela dá sentido de pertencimento aos que irão usufruir da arquitetura. Esse é o tema que perpassa a entrevista que publicamos com Francis Kéré nesta edição.

Nela, de fato, coincidem obras em que os espaços de convívio cumprem papel importante. Como a sede administrativa da Natura, em São Paulo, de autoria do Dal Pian Arquitetos, quanto os dois residenciais - um para idosos (Hoeazevedo Arquitetura) e o outro, um prédio de apartamentos concebido pelo espanhol Fermin Vázquez - apresentados a seguir. O edifício corporativo faz parte da seção Perfil (em que falamos da trajetória do casal de arquitetos Renato e Lilian Dal Pian) e, localizado junto a um dos centros de distribuição da indústria de cosméticos, em São Paulo, tira o máximo de proveito da proximidade da farta vegetação remanescente no terreno. É portanto uma área aberta, que os arquitetos denominam de vazio integrador, a essência do projeto - belo testemunho da conciliação da técnica com a estética que marca a sua produção. Também os dois residenciais, exemplos extremos no que diz respeito ao público alvo, oferecem numerosas áreas para convívio social. A moradia para idosos, assim, tem implantação gravitando em torno de jardins, enquanto que o prédio de apartamentos, implantado em bairro já densamente ocupado em São Paulo, faz do seu embasamento uma espécie de clube. E, fato relevante, tem recuo frontal que privilegia o espaço público.

Nesta edição publicamos também o projeto de uma capela de uso familiar, projetada por Miguel Pinto Guimarães para uma casa localizada em Itaipava, no Rio de Janeiro. Sucinta nos materiais e no detalhamento arquitetônico, é um espaço para meditação e qualificado pela relação com a bela natureza circundante. Ela é implantada junto à água, situação que ocorre igualmente no centro de pesquisa e desenvolvimento que os profissionais do Dávila Arquitetura projetaram para a Saint Gobain, que, ao lado do Museu da Fotografia (Marcus Novais Arquitetura), no Ceará, e da Casa Güths (Arqbr), em Brasília - somadas às obras com detalhamento de fachadas vistas na seção FINESTRA -, totalizam os projetos que selecionamos para os nossos leitores.

E, por fim, destacamos o artigo escrito pelo historiador italiano, Daniele Pisani, sobre o projeto do Masp, de Lina Bo Bardi, em São Paulo. Denominado "A breve história de um mito", o texto, inédito, contesta o argumento da arquiteta de que o partido arquitetônico do museu tenha derivado de uma restrição legal, ou seja, da exigência do doador do terreno à prefeitura paulistana para que se deixasse livre a vista para o centro da cidade. Boa leitura!

Texto de | Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 439
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