Décio Tozzi e Karla Albuquerque: Fórum Trabalhista Ruy Barbosa

Funcional e espartano

O Fórum Trabalhista Ruy Barbosa, em São Paulo, foi desenhado pelos arquitetos Décio Tozzi e Karla Albuquerque. A intenção dos autores era desenvolver um projeto que, com sua forma espartana, contribuísse para dissociar da Justiça a imagem de servir apenas à elite.

Ambiciosa proposta, à qual se contrapôs o histórico da construção, que em sua primeira fase esteve envolvida em escândalo de desvio de dinheiro público.

No final de março, 12 anos após o início de suas obras, o edifício foi finalmente inaugurado, na capital paulista. A nova denominação dada ao complexo talvez seja uma tentativa de desvincular o edifício do nome de seu idealizador - e durante algum tempo principal beneficiário -, o juiz Nicolau dos Santos Neto.

Em 1998, as obras do complexo jurídico foram interrompidas porque se descobriu que o magistrado, ex-presidente do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, liderava um esquema que desviou mais de 196 milhões de reais dos recursos que deveriam ter sido empregados na construção.

O espartano projeto poderá ajudar a redimir essa sinistra trajetória? É provável que sim, embora essa não seja função da arquitetura. No atual momento, porém, com o escândalo ainda presente na memória das pessoas, a construção não está sendo discutida apenas por suas qualidades funcionais e arquitetônicas.

A revista IstoÉ Dinheiro, por exemplo, deu à reportagem sobre a inauguração do complexo o título “Delírio de portas abertas”. Mas, por sua dimensão, pela transformação que poderá levar à região e pela proposta, que é mais de natureza urbana, o conjunto tem importante significado na arquitetura brasileira atual.

Situado na avenida Marquês de São Vicente, na Barra Funda, o fórum trabalhista é uma composição que, por certos questionamentos formais e sociais, filia-se ao pensamento arquitetônico da escola paulista, da qual Tozzi é um dos expoentes.

O complexo institucional mescla o concreto aparente das empenas frontal e de fundo com grandes panos de vidro nas laterais e é composto por duas torres de 19 pavimentos interligados por rampas metálicas.

Cada torre se divide ao meio, dando origem a quatro blocos superpostos dois a dois. Circulações horizontais funcionam como ruas que se integram ao grande vazio central de 70 metros de altura.

À frente e ao fundo, as empenas se juntam por uma superfície envidraçada - uma espécie de rendilhado -, montada sobre estrutura metálica espacial, a mesma solução técnica empregada na cobertura. Configura-se assim a praça coberta, a grande aposta dos autores no sentido de criar um local onde as pessoas não se sintam intimidadas.

O fechamento de espaços de natureza pública com uso de estrutura espacial é tema ao qual Tozzi vem se dedicando com constância. A construção feita em Maceió quando da segunda visita do papa João Paulo 2º ao Brasil, em 1991, e a cobertura de uma rua comercial no centro de Santo André, SP, são exemplos dessa solução.

Tozzi conta que, depois de convidado para desenvolver o projeto pela construtora que acabaria vencendo a concorrência, pesquisou o programa e observou que as construções dessa tipologia ostentavam grande suntuosidade, especialmente nas áreas de acesso.

O desafio de projetar o fórum de uma grande cidade teve como dificuldade complementar desenhar o hall solene em uma metrópole democrática. “Propusemos então, em vez da sala dos passos perdidos, como são denominados esses locais, a praça da Justiça, um acesso central que é local de encontro, concórdia e diálogo”, ele explica.

A partir dela se distribui a circulação dos servidores e do público, com 16 elevadores - outros quatro, reservados, servem aos magistrados.

Num dos lados da praça - que é o pavimento térreo das torres - está a área de alimentação; no outro ficam agências bancárias. No primeiro pavimento inferior à praça localiza-se o auditório de 500 lugares, que tem no foyer painel do artista plástico Cláudio Tozzi. O prédio possui ainda quatro subsolos de estacionamento.

A maior parte dos 19 andares é ocupada pelas varas trabalhistas. Nos espaços que separam os blocos sobrepostos, com pé-direito duplo, estão a área de convivência de juízes e funcionários, de um lado, e, no outro, a sala dos advogados e a Escola da Magistratura, um grande volume cilíndrico vermelho.

O segundo piso é ocupado por serviços de apoio ao funcionamento do fórum, além de salas de controle predial. De todos os pavimentos, das salas e das rampas descortinam-se vistas da cidade.

Estima-se que, quando o complexo estiver completamente ocupado, por lá circularão diariamente entre 15 mil e 20 mil pessoas.

Funcional e espartano, como imaginado pelos autores, o complexo tem o acesso principal assinalado por um pórtico em aço envelhecido. A iluminação natural que entra através do teto envidraçado da praça da Justiça propicia diferentes percepções do ambiente.

No térreo, uma curva que se antecipa às rampas arremata o desenho. Na parte interna da empena de concreto, o desenho que resultou da inserção de uma chapa de alumínio na fôrma do concreto atua como atenuador da reverberação acústica.

Nos peitoris da circulação horizontal, ao longo dos andares, desenhos de composição geométrica de autoria do próprio arquiteto complementam a franca e atraente plástica do espaço.

Ficha Técnica

Fórum Trabalhista Ruy Barbosa
Local São Paulo, SP
Projeto 1992
Conclusão da obra 2004
Área do terreno 12 228,91 m2
Área construída 87 000 m2

Arquitetura Décio Tozzi Arquitetura e Urbanismo - Décio Tozzi e Karla Albuquerque (autores)
Paisagismo Mareliza Hashijumie
Luminotécnica Mingrone
Acústica José O. Homem de Mello e Domingos Fretin
Estrutura SVS (concreto), Jorge Zaven Kurkdjian e Jorge Kurken Kurkdjian (metálica)
Fundações Consultrix
Hidráulica e elétrica MHA
Comunicação visual Aluparts
Gerenciamento Engenharia Banco do Brasil
Construção Incal e OAS
Fotos Carlos Gueller

Fornecedores

Aluparts (esquadrias de alumínio); Glassec (vidros); Embu (concreto); Compacta (tratamento de concreto, pintura e impermeabilização); Concremat (controle tecnológico); Heating & Cooling (ar-condicionado); Elco (instalações elétricas e hidráulicas); Staefa (supervisão predial e controle de acesso); Grani-Torre, Mundial Poli Service (piso de alta resistência); Tyco (detecção de incêndio e CFTV); Furukawa (sistema de voz e dados); Di-Som (sonorização); Heat Up (isolamento termoacústico); Brasfor, Sulmetais, Artesana, Knauf, Planam (forros); Eucatex (portas de madeira); Papaiz (ferragens); Carpet Center (carpetes); Floraliz (paisagismo); Sistema 2/90 (programação visual); Gerdau (aço); Incepa (louças); Docol, Deca (metais); Aluparts, CMA, Luxalum (esquadrias de alumínio); Glassec (vidros); Itaim, Philips, Osram (iluminação)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 291
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