Brasil Arquitetura e Marcos Cartum: Praça das Artes, SP

Uma praça abrigada no coração paulistano

Inaugurada oficialmente no início de dezembro, a Praça das Artes está no coração da capital paulista. Seus autores são dois mineiros (Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, do escritório Brasil Arquitetura) e um paulistano (Marcos Cartum, da Secretaria Municipal da Cultura). Concreto e vidro - sobretudo o concreto - dão forma à arquitetura do complexo, numa composição onde espaços não edificados têm significados tão intensos quanto os construídos.

Na última quarta-feira de novembro passado, os arquitetos Francisco Fannucci e Marcelo Ferraz, do escritório Brasil Arquitetura, junto com Marcos Cartum, da Secretaria Municipal da Cultura, passaram uma manhã atípica.

Responsável pelo projeto arquitetônico da Praça das Artes, complexo educacional/cultural recém-inaugurado na região central de São Paulo, o trio foi protagonista da pré-estreia daquele conjunto, no qual se realizava, naquela manhã, a sexta edição (a segunda no Brasil) do fórum Colored Concrete Works, promovido por uma empresa de pigmentos inorgânicos.

É pouco provável que eventos de semelhante caráter técnico sejam incorporados ao cotidiano da mais recente praça paulistana, que, como o nome revela, será das artes e dos artistas, uma vez que ali estão agrupados edifícios destinados aos corpos artísticos do Teatro Municipal (orquestras, quarteto de cordas e corais), a uma escola de música e uma de dança e ao centro de documentação, além de um estacionamento.

Naquele momento, porém, o fórum se justificava porque o projeto é um exemplar caso da especificação, em larga escala, de concreto colorido pigmentado.

A gestação da praça - desde já candidata a encorpar a lista dos ícones da arquitetura paulistana - teve início em 2005, quando a Secretaria Municipal da Cultura procurava atender à ancestral demanda dos corpos estáveis do Municipal por espaços de ensaio adequados e mais próximos do palco do centenário teatro.

Não é, portanto, incorreto considerar a praça um anexo do prédio projetado por Ramos de Azevedo, embora não possuam conexão física. Antes de se consolidar a escolha do lote na rua Conselheiro Crispiniano, que já era propriedade do município, outras hipóteses foram consideradas.

Próximo do teatro, o terreno, que vinha sendo usado como área de transbordo de lixo, conforme lembra Cartum, tivera como ocupante, até o início da década de 1970, o Exército brasileiro, em um prédio posto abaixo anteriormente à aquisição do local pelo município - segundo o secretário municipal da Cultura na gestão 2009/2012, Carlos Augusto Calil, o Exército se recusou a transferir para a prefeitura o terreno com a construção, preferindo derrubá-la.

A demolição deixou na frente da quadra uma espécie de dente. A falha na testada da quadra 27 perdurou, portanto, por mais de 30 anos, até que a Praça das Artes fosse encaixada nas frestas do lote, esquivando-se de algumas construções lindeiras, configurando uma solução arquitetônica atraente e, mais que isso, uma engenhosa intervenção urbana.

Mesmo sendo um anexo do Municipal, a Praça das Artes possui caráter autônomo, que deriva de seu partido, de sua arquitetura e, sobretudo, do tratamento que os autores lhe deram ao tratá-la como espaço público qualificador e, espera-se, irradiador. Conforme explica Cartum, o complexo se expressa não apenas por volumes, mas, igualmente por vazios e passagens. Assim, o atendimento a programas e funções serviu para uma intervenção mais ambiciosa, que pode significar o reencontro do paulistano com o núcleo original de sua cidade.

Na parte construída, o conjunto é constituído por três módulos principais: o edifício destinado aos corpos artísticos; o estacionamento/praça (e sobre ele uma galeria); e o prédio das escolas de dança e de música e centro de documentação. Os dois últimos funcionam desde dezembro e o primeiro deve ser entregue até o final de 2013.

O módulo escolar (música, bailado, restaurante e área de convivência), caracterizado externamente pela fachada em concreto de tom ocre, está agregado ao edifício restaurado do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (fundado na primeira década do século passado), que passou por ajustes para abrigar exposições e eventos.

Em uma das laterais do edifício restaurado (cuja face principal se volta para a avenida São João) está o bloco do centro de pesquisa e documentação, de conformação retangular e fachada igualmente de concreto, porém no tom cinza.

Do outro lado fica um volume mais baixo, cuja área de acesso, vazada, lembra uma imensa boca ou caverna e conduz à praça/galeria que une a rua Conselheiro Crispiniano à Formosa/Anhangabaú - essa ligação não está completa, pois a praça prevista para a cota mais baixa (Anhangabaú) ainda será implantada.

No acesso da avenida, os prédios de desenho contemporâneo formam uma moldura ao eclético conservatório.

Flanqueando o acesso da Conselheiro Crispiniano pela lateral esquerda, um bloco retangular alongado reúne, nos andares superiores, as salas de ensaio da escola de música.

Sua parte inferior forma uma marquise voltada para a laje/praça que cobre o estacionamento. No acesso oposto (Formosa/Anhangabaú), colado ao edifício CBI Esplanada (projeto de Lucjan Korngold), ergue-se a construção que será ocupada pelos corpos artísticos, em volumetria formada por dois retângulos superpostos de dimensões diferentes com aberturas quase aleatórias, que Marcelo Ferraz, em tom bem-humorado, diz terem sido inspiradas em partituras do compositor norte-americano John Cage.

Nesse edifício estão reunidas as salas para ensaio, que buscam reproduzir, em escala um pouco menor, todas as condições técnicas e de ambientação existentes no Teatro Municipal.

A maior parte delas apresenta condições acústicas excepcionais: na sua execução foram utilizados até mesmo amortecedores para absorver ruídos e vibrações que pudessem ter repercussões nos ensaios.

Numa parte da face voltada para a rua Formosa, os autores optaram por preservar a fachada do antigo Cine Cairo, embora ela não seja tombada.

No memorial do trabalho, o escritório Brasil Arquitetura explica que o conjunto se desenvolve em três direções (Anhangabaú, avenida São João e rua Conselheiro Crispiniano) e o compara a um polvo pronto a estender seus tentáculos e ocupar espaços.

Se é assim, trata-se de um animal em formação, pois embora um de seus membros não esteja consolidado (o prédio dos corpos artísticos), um novo braço já está em formação: o projeto leva em conta a ampliação, na testada voltada para a avenida. O bloco, além de aumentar a área de escola, contará com um auditório e discoteca.

  
Brasil Arquitetura e Marcos Cartum

Marcelo Ferraz (FAU/USP, 1978) e Francisco Fanucci (FAU/USP, 1977) são sócios no escritório Brasil Arquitetura, fundado em 1979. Ambos foram colaboradores de Lina Bo Bardi, com quem trabalharam, entre outros, no projeto do Sesc Pompeia. Marcos Cartum (FAU/USP, 1985) é também designer gráfico. Além de atuar na prefeitura de São Paulo, onde desenvolveu projetos como o da praça Memorial 17 de Julho, possui escritório próprio desde 1989.



Ficha Técnica

Praça das Artes
Local São Paulo, SP
Início do projeto 2006
Conclusão das obras 2012 (primeira etapa)
Área do terreno 7.210 m2
Área construída 28.500 m2 (primeira etapa, incluindo edifício dos corpos artísticos)
Arquitetura Marcos Cartum (autor) ; Brasil Arquitetura - Francisco Fanucci, Marcelo Ferraz e Luciana Dornellas (autores); Cícero Ferraz Cruz, Fabiana Fernandes Paiva, Anselmo Turazzi e Carol Silva Moreira (colaboradores); Anne Dieterich, Beatriz Marques de Oliveira, Felipe Zene, Fred Meyer, Gabriel Grinspum, Gabriel Mendonça, Victor Gurgel, Pedro del Guerra,Thomas Kelley e Vinícius Spira (equipe); André Carvalho, Júlio Tarragó e Laura Ferraz (estagiários)
Projeto executivo Apiacás Arquitetos - Yuri Faustinoni, Élcio Yokoyama e Ingrid Taets
Estrutura Ftoyamada
Fundações Infraestrutura
Instalações elétricas e hidráulicas PHE
Acústica e cenotecnia Acústica & Sônica
Luminotécnica Ricardo Heder
Ar condicionado e exaustão TR Thérmica
Paisagismo Raul Pereira Paisagismo
Consultoria de impermeabilização Proassp
Consultoria de caixilhos Aluparts
Consultoria de cozinha Gisela Porto
Tapeçaria Edmar de Almeida (forro do restaurante)
Luminária Urucum Rodrigo Moreira e Madeeeeira Marcenaria (sala de concertos)
Restauro Kruchin Arquitetura
Construção Consórcio Construcap/Triunfo
Fotos Daniel Ducci

Fornecedores

Lanxess (concreto pigmentado)
InterCement (concreteira)
ThyssenKrupp (elevadores)
Agtel (portões metálicos)
Pisossul (piso de madeira)
Tecvision (caixilharia)
Permetal (telas metálicas)
Forbo (pisos)
Reka, Lustres Projeto (luminárias)
Isar (instalações acústicas)
Deca, Docol (louças e metais sanitários)
Air Conditioning (arcondicionado)
Doka (fôrmas para concretagem)
Neo Rex (elemento vazado)
Vibtech (amortecedores acústicos)
Knauf (drywall)
Isover (isolamento acústico)
Tecelagem Lady (tecidos de painéis absorventes)
Owa (painéis Ideacustic)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 395
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