Brasil Arquitetura: Complexo cultural, São Miguel das Missões, RS

Museu para revelar a memória das Missões

O complexo cultural previsto para ser construído junto às ruínas de São Miguel Arcanjo, redução jesuítica que fica em São Miguel das Missões, RS, tem projeto do escritório Brasil Arquitetura. O tom terra avermelhado que caracterizará as vedações do conjunto é um tributo às cores dos materiais empregados nas edificações originais. Protagonista da intervenção, o museu tem programa e projeto expográfico de Isa Grinspum Ferraz.

Quando Lucio Costa visitou a missão jesuítica de São Miguel Arcanjo, no interior do Rio Grande do Sul, no final da década de 1930, deparou-se com o pouco que restava de uma das cidadelas edificadas pelos padres jesuítas europeus e os nativos índios guaranis em áreas que se estendem por terras brasileiras, argentinas e paraguaias. Mais de 80 anos depois, o impacto sentido por ele ecoou na equipe do escritório Brasil Arquitetura, à qual se juntou o arquiteto Carlos Eduardo Dias Comas, quando tomou contato com a exuberante paisagem natural e construída do pampa gaúcho, onde viria projetar o complexo cultural idealizado para aquele sítio histórico. A visita de Costa, então diretor da Divisão de Estudos de Tombamentos do órgão nacional de preservação, foi o ponto de partida para o desenho do pavilhão que leva o nome do arquiteto e abriga o museu da memória cultural e histórica do antigo povoado.

Tornar essa história mais conhecida é um dos objetivos do Complexo Cultural do Sítio de São Miguel Arcanjo, conjunto de edifícios de cujo projeto o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) incumbiu o escritório paulistano, com reconhecida experiência em obras semelhantes.

Junto com Comas, os profissionais do Brasil Arquitetura - liderado por Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz - mantiveram-se fiéis às diretrizes adotadas por Costa no século passado. Elas revelam “respeito e conformidade com os bens que se quer preservar, seja do ponto de vista físico - ruínas, muros, pedras e o próprio museu -, seja do ponto de vista do que se imagina ter sido a epopeia das missões guaranis do século 18, justamente a partir desses elementos remanescentes na paisagem”, escrevem os autores. Além dos prédios dedicados às exposições e ambientes de apoio ao museu, a equipe incorporou à intervenção construções que serão ocupadas pela Secretaria Municipal de Turismo, pelo Centro de Tradições Nativistas e por um restaurante.

Os novos prédios serão implantados no flanco noroeste do terreno, praticamente junto do limite do lote que compreende o sítio histórico. A posição segue a recomendação do Iphan de deixar desimpedida a vista a partir da igreja (ruínas) em direção aos campos pampeiros, ao norte.

Esse visual, pondera a equipe, proporciona ao visitante a experiência da transposição para o tempo passado, sendo uma das maiores riquezas da paisagem do parque: é “uma experiência de contemplação que merece ser preservada, reforçando a sabedoria dos jesuítas ao escolher a coxilha da região, dominante, para ali fundar a redução de São Miguel”. A partir do programa formulado pelo Iphan e pela prefeitura de São Miguel das Missões, o desenho norteou-se, sobretudo, por conceitos de acolhimento e estímulo à convivência. Numa descrição simplificada, o complexo cultural é constituído por duas áreas de construções que se distribuem por duas quadras (separadas por uma rua), sendo articuladas por uma larga e extensa praça.

Esta, envolta pelos edifícios de tons avermelhados em concreto e pedra, é uma sutil referência aos claustros e pátios dos colégios jesuítas, segundo os autores. Uma dessas quadras foi reservada para as edificações que receberão as atividades de convivência do Centro de Tradições Nativistas, preservando ali o rancho crioulo original, e a futura sede da Secretaria Municipal de Turismo.

A outra destinou-se ao novo museu, que contará com um auditório, e abrigará ainda as sedes locais do Iphan e do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

A configuração arquitetônica e o projeto expográfico desse espaço irão tornar mais rica a visita ao sítio histórico. Isa Grinspum Ferraz é a responsável pela curadoria e direção de criação da instituição. “São muitas as perspectivas envolvidas na história das missões e inúmeros seus desdobramentos. O projeto pretende apresentar o rico acervo criado nas missões jesuíticas dos guaranis de maneira compatível com as mais modernas exigências museológicas”, ela escreve.

A curadora acrescenta que, desde o início, o museu nasceu de um projeto que articula, organicamente, arquitetura, conteúdo e museografia. “Ele pretende trazer à tona, de maneira interessante e instigante, não acadêmica, não exaustiva nem enciclopédica, e acessível a todos, um vasto leque de questões com suas contradições e paradoxos.” Para tornar mais atraente a exposição permanente, informa Isa, serão empregados recursos tecnológicos e de comunicação. Os objetos originais se combinarão com filmes especialmente criados para o museu, experiências sonoras, jogos eletrônicos interativos, painéis e obras de arte contemporânea. “Pretendemos criar um espaço para o diálogo permanente e surpreendente entre conteúdos e abordagens variados, propiciando momentos de vivências individuais e coletivas. Serão muitos os estímulos e os caminhos a percorrer para o aprofundamento das experiências”, ela antecipa.

  
Brasil Arquitetura



Ficha Técnica

Complexo cultural/Museu das Missões
Local São Miguel das Missões, RS
Data do início do projeto 2014
Área do terreno 19.500 m²
Área construída 8.571 m²
Arquitetura Brasil Arquitetura - Marcelo Ferraz, Francisco Fanucci e Carlos Eduardo Comas (autores); Luciana Dornellas e Victor Gurgel (coautores); André Villas Boas, Anne Dieterich, Anselmo Turazzi, Cícero Ferraz Cruz, Cláudio Correa, Cristiana Vieira, Felipe Zene, Gabriel Mendonça, Gustavo Otsuka, Laura Ferraz, Harold Ramirez, Hayako Oba, Pedro Freire, Rafael Saldanha Duarte, Vinícius Spira e William Campos (colaboradores); Carlos Eduardo Castro, Guilherme Tanaka, Juliana Ricci, Julio Tarragó, Laura Peters, Marina Sousa, Pedro Renault, Roberto Brotero e Vinícius Rigonato (estagiários)
Maquete eletrônica André Sauaia e Fred Meyer
Conteúdo Texto e Imagem - Isa Grinspum Ferraz (curadoria e direção de criação); Marcelo Macca (curador assistente); Cecília de Lourdes Fernandes Machado (museologia); Bartolomeu Meliá (antropologia e linguística); Daniel Perri (antropologia); Arno Kern (arqueologia); Jean Baptista (etno-história); Aldyr Garcia Schlee (literatura); Leonardo Waissman (música); Flávio Gil (arte barroca); Marcos Grinspum Ferraz (pesquisa); Ricardo Mendes (consultoria para maquetes); Ariel Ortega, Cao Guimarães, Leandro Lima, Marcelo Gomes, Tatiana Toffoli e Vincent Carelli (consultoria para criação audiovisual); Manuela Carneiro da Cunha e Georg Grünberg (consultoria em antropologia); 32 Bits (consultoria em interfaces digitais e aplicativos)
Comunicação visual Homem de Melo & Troia Design
Luminotécnica Ricardo Heder
Iluminação cênica Guilherme Bonfanti
Tecnologia expositiva KJPL - Peter Lindquist e Nicola Bernardo
Engenharia e instalações prediais Oliveira Araújo Engenharia - Paulo Henrique Lemes Araújo (estrutura e fundações); Gabriel Pereira dos Santos (hidráulica, drenagem e GLP); Dulcirene Maria Aires de Oliveira e Eduardo Cavalcante Lemos Filho (elétrica e cabeamento); Paulo Gomes (sonorização e acústica); Luiz Henrique Otto de Santana (climatização)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 429
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