Architectus: Terminal marítimo de passageiros, Fortaleza

Estética marcante e forma dinâmica

O desenho arquitetônico do terminal marítimo de passageiros implantado na enseada de Mucuripe, na capital cearense, é de autoria do escritório Architectus, sediado na mesma cidade. A solicitação de uma estética marcante teve como resposta um desenho dinâmico - sem formalismo ou simbolismo, destaca um dos sócios do Architectus -, considerando, porém, que a construção deveria estar concluída a tempo para os jogos da Copa do Mundo de 2014, da qual Fortaleza foi uma das sedes.

Nem todos os investimentos previstos para dotar de infraestrutura as cidades brasileiras que receberam os jogos da Copa do Mundo de 2014 se transformaram em realidade. Vários equipamentos nem sequer saíram do papel e outros estão semiabandonados. O terminal marítimo de passageiros de Fortaleza, projetado pelo escritório Architectus e construído pelo consórcio formado pelas empresas Constremac e Serveng Civilsan, é uma exceção, embora sua atividade-fim esteja prejudicada: o calado (distância vertical da quilha do navio à linha de flutuação) do novo cais não permite o atracamento de embarcações de grande porte. Para isso é necessária a realização de uma dragagem corretiva. No entanto, como já se sabia que o movimento de passageiros é variável ao longo do ano (de setembro a abril é o período mais intenso), o projeto foi concebido para ocupação mista, contemplando também a organização de eventos, exposições, mostras e festas, usos predominantes nos dias atuais. Como o espaço deveria oferecer flexibilidade e permitir rearranjos de layouts, o escritório criou uma modulação estrutural e construtiva de 1,20 metro, com vãos de 8,40 ou 16,80 metros.

O pavimento térreo do terminal, onde se situa a parte de operação marítima, é formado por um saguão principal que pode ser dividido em três setores por meio de divisórias articuladas. “Dependendo do tipo de cruzeiro, do horário e da quantidade de passageiros, pode-se usar todo o saguão, um terço ou dois terços dele”, detalha Ricardo Saboia, arquiteto do escritório responsável pelo projeto. Também nesse piso se encontram o controle alfandegário, órgãos públicos, vestiários de funcionários, depósitos do terminal e a gerência de operações junto ao apoio logístico.

Já no primeiro andar, para a principal demanda atual, estão as áreas multiúso, com salas diversas, espaço cultural, três bares voltados para a varanda oeste, dois restaurantes (um a oeste e outro a leste) e um terraço coberto ao norte. No mesmo piso se localizam o escritório da Polícia Federal, administração, Juizado de Menores, Delegacia do Turista, ambulatório, Anvisa e Vigiagro. Caso haja a expansão do terminal, esse pavimento também poderá servir como área de embarque por meio de pontes, ficando o térreo exclusivo para desembarque.

A Companhia Docas do Ceará, contratante da licitação e responsável pela administração do porto, solicitou que o projeto tivesse uma estrutura esteticamente marcante. “Tivemos que pensar em algo formalmente dinâmico, sem formalismo ou simbolismo - por mais que alguns vejam uma jangada em planta ou até uma onda -, mas com conceito construtivo que tornasse possível a execução dentro do prazo”, lembra o arquiteto. Ele inclui ainda entre os desafios apresentados a dimensão dos vãos, a necessidade de fiscalização de soldas e pinturas para as áreas de agressividade marítima e a montagem no local. “Precisamos driblar algumas restrições, como a estrutura metálica de geometria simples e modular, que inicialmente possuía uma dupla curvatura da coberta - longitudinal e transversal -, mas foi alterada para que se evitasse calandrar os perfis, o que foi feito apenas na parte sul dos brises”, esclarece Saboia.

Outra demanda enfrentada pelo projeto foi a drenagem da água da chuva da cobertura. O arquiteto conta que foram posicionadas calhas transversais em pontos onde as descidas pudessem acontecer sem que ficassem visíveis e no balanço, pois não poderia haver dutos. “Projetamos uma calha final que possui um sistema de concentração da água e posterior descida com uso de uma chapa perfurada de alumínio composto em determinados pontos. Esse filtro diminui a energia potencial e cai em uma laje‑jardim na ponta do balanço que cobre a porção norte do térreo”, ele detalha. Atualmente, de acordo com Saboia, o terminal recebe cerca de 15 cruzeiros por ano. A expectativa é que até 2018 este número passe para 60.

 
 
Architectus
O escritório Architectus, constituído pelos sócios Alexandre Landim, Ricardo Saboia, Elton Timbó e Mariana Furlani (graduados pela Universidade Federal do Ceará), tem foco na elaboração de projetos públicos, institucionais, culturais, hospitalares, de mobilidade urbana e infraestrutura de transportes



Ficha Técnica

Terminal marítimo de passageiros do Mucuripe
Local Fortaleza, CE
Data do início do projeto 2013
Data da conclusão da obra 2015
Área do terreno 34.200 m² (implantação do terminal)
Área construída 9.620,20 m²
Arquitetura, interiores, paisagismo, conforto ambiental, sustentabilidade e acessibilidade Architectus - Ricardo Saboia (gerente); Taís Costa (coordenadora); Amélia Aragão, Carolina Fonteles, Fabiano Silveira, Felipe Lopes, Gerson Amaral, Káthia Roman, Lara Lima, Macart’son Cartaxo e Pedro Câmara (colaboradores)
Luminotécnica, acústica, elétrica e hidráulica Transitar Engenharia
Estrutura de concreto e fundações Wetter
Estrutura metálica RCM
Ar condicionado A+I
Construção Consórcio Constremac e Serveng Civilsan
Topografia GTA
Estudos de solo Sonda
Terraplanagem, drenagem, pavimentação e sistema viário Francisco José Moura Cavalcante
Orçamento, caderno de encargos e especificações Ingryd Capistrano Pinto
Fotos Joana França

Fornecedores

Consórcio Constremac e Serveng Civilsan (concreto e fundações)
Hispano (estrutura metálica)
Normatel (instalações)
Artec (ar-condicionado)
Arqvetro (esquadrias)
Impacto (protensão e lajes)
Consórcio Constremac e Serveng Civilsan, Normatel (revestimentos)
Rian Fontenele, Cerbrás (mural cerâmico)
Hunter Douglas (brises)
Maxply (sistema de manta termoplástica)
Knauf, Interflex, Artpiso (divisórias)
Alcoa, Arqvetro (guarda-corpos)
Knauf, Hunter Douglas, Artpiso (forros)
Cecrisa, Portinari (revestimentos cerâmicos)
Atlas (pastilhas)
Belmetal, Arqvetro (revestimentos ACM)
Suvinil (tintas)
Cebrace, Arqvetro (vidros)

Texto de Gabriela Nunes| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 430
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