Aflalo & Gasperini Arquitetos: Parque da Juventude

Prédios institucionais marcam fase final do Parque da Juventude

Localizado na zona norte da capital paulista, o conjunto - criado pelo escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos - é um dos raros vencedores de concursos públicos de arquitetura que foram levados a cabo

Futebol, vôlei, basquete e tênis. Na ensolarada manhã de uma quarta-feira de fim de inverno, as quadras esportivas estavam todas ocupadas. Além disso, crianças andavam de bicicleta com os pais, pessoas liam jornais no bar, mais de uma dezena de jovens usava a arena de skate e havia ainda aqueles que se exercitavam andando ou correndo.

Esse movimento todo acontecia na área esportiva do parque da Juventude, que foi a primeira fase implantada do projeto, inaugurada no final de 2003. Como a obra se realizou em três etapas, a última delas concluída há poucos meses, parei (com facilidade) no pequeno bolsão de estacionamento junto à avenida Zaki Narchi, portão de entrada da área mais antiga, a fim de fazer o percurso pela ordem de inauguração.

Localizado na zona norte da capital paulista, o conjunto - criado pelo escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos, com paisagismo de Rosa Kliass - é um dos raros vencedores de concursos públicos de arquitetura que foram levados a cabo. Na última estatística que fiz sobre as competições dos anos 1990, constatei que somente 12% dos vencedores foram construídos. Como a pesquisa foi logo após o término da década, algumas realizações posteriores vão aumentar um pouco esse número - caso concreto do próprio parque da Juventude, cujo processo de escolha ocorreu em 1999.

Aflalo & Gasperini não costuma participar de certames. “Estávamos fazendo o master plan de uma universidade na zona norte, em local próximo, quando ficamos sabendo do concurso e resolvemos entrar”, relembra Roberto Aflalo Filho. A proposta foi encarada pelo escritório com seriedade. “Grande parte da equipe foi mobilizada. Para o programa, contamos até com a assessoria de integrantes do grupo dos S - Sesc e Senai -, pois eles entendem de gestão de espaços culturais e de educação”, conta o arquiteto.

Ultrapassando um portão, chega-se ao parque Central, a segunda fase do projeto (leia PROJETO DESIGN 299, janeiro de 2005). Nesse local destinado ao lazer passivo, de contemplação da natureza, chama a atenção a vegetação abundante, em grande parte preexistente. Quando avistei as estruturas de aço corten das novas escadas, que dão acesso ao alto das antigas muralhas prisionais, saí do eixo principal em direção ao passado. 

Andando por ali, em um estreito e curioso percurso, em vez de me imaginar um carcereiro ou coisa que o valha, senti-me um bisbilhoteiro: do lado esquerdo, observei entre os usuários do parque, entremeados pelas copas das árvores, um grupo de estudantes uniformizados (provavelmente cabulando aulas) que ouviam música; do outro lado, em áreas ainda reservadas à administração carcerária, dois funcionários apanhavam amoras e as comiam.

O parque foi implantado onde antes ficava parte do maior presídio do Brasil, o temido Carandiru. O edital já previa a manutenção parcial de construções, como uma forma de preservar a memória do lugar, de certa forma resguardada no filme de Hector Babenco. Contudo, no longo e desgastante processo que vai do concurso à contratação - durante o qual houve dezenas de encontros entre autoridades e os arquitetos (alguns deles com a inusitada presença do segundo e do terceiro colocados na disputa) -, decidiu-se que grande parte da área prisional não seria desativada. Ainda funciona, por exemplo, a penitenciária feminina, imensa edificação na extremidade norte do parque.

“Tínhamos previsto ali um pavilhão de exposições que aproveitava a construção. Esse desenho da cobertura dos pátios da penitenciária feminina é do Marcelo Aflalo”, revela Roberto. Descendo pela escada do meio da muralha, avisto as ruínas de um pavilhão não construído, sobre as quais se pode andar, em passarelas de madeira.

O silêncio reflexivo daquele trecho só é quebrado pelo som das pequenas aeronaves que decolam do Campo de Marte - outra área da região que deveria ser transformada em espaço público e ampliação do Anhembi. Andando na direção da última gleba, passo por uma abertura na muralha e atravesso a ponte secundária sobre o malcheiroso córrego que corta o parque. Terceiro e último estágio, o parque Institucional foi o conjunto mais modificado desde o concurso - excluindo a área da penitenciária feminina.

Inicialmente, a proposta da equipe previa manter quatro pavilhões da Casa de Detenção e construir um volume para o teatro. Como o projeto foi contratado pelo governo em duas fases - primeiro os parques Esportivo e Central, depois o Institucional -, quando se chegou ao contrato da última etapa a idéia já era manter quatro blocos, mais o teatro. Feito o levantamento dos custos após o projeto executivo, o então governador Geraldo Alckmin (PSDB) fez novo corte: no orçamento estadual só cabia implantar dois pavilhões.

Outros estudos foram feitos para decidir quais prédios permaneceriam. “Poderiam ser os dois da frente, ou os dois do fundo. No final, achamos mais interessante conservar os dois da lateral, mantendo a idéia da praça de acesso e reforçando a divisa natural da área”, lembra Aflalo. “Mas alguma coisa ainda me incomodava. Uma praça não é um piso, mas um espaço. Dessa forma, apresentamos ao governador - e ele aprovou - a proposta de um novo pavilhão, pequeno, com 4 mil metros quadrados, que, junto com o teatro e os antigos volumes, conforma a praça.”

Se os elementos construtivos que marcam as duas primeiras fases do parque são o aço corten e o concreto, na etapa final se destacam os fechamentos pré-moldados. “Na parte antiga não foi fácil utilizar as placas, pois a modulação não era regular”, diz Aflalo. A lógica aqui é a mesma da adaptação de galpões fabris para abrigar a escola do Senac, realizada pelo escritório (leia PROJETO DESIGN 292, junho de 2004): envelopa-se o prédio existente com um fechamento novo; assim, todas as instalações caminham nos shafts criados entre as duas fachadas, facilitando a construção. Isso só é possível pois, nos dois casos, as construções não possuíam valor arquitetônico. “Mas houve uma evolução da idéia, pois neste caso, são vários pavimentos”, diz Eduardo Ferreira Martins, da equipe de arquitetos.

Internamente, os vazios dos pavilhões existentes foram ocupados por escolas profissionalizantes. Uma cobertura de vidro (já presente no projeto inicial) transforma o pátio em átrio, tal como na Pinacoteca do Estado (de Paulo Mendes da Rocha) ou na sede dos Correios (Una Arquitetos), ambas em São Paulo. “No primeiro desenho, a cobertura era inclinada e havia sido criada pelo Gasperini”, recorda Aflalo, numa menção à participação coletiva no certame.

No térreo ficam salas de reuniões e de convenção e um espaço que preserva a memória do Carandiru; no primeiro andar estão a área de acesso público à internet e a administração; os três pisos acima receberam as salas de aulas - por enquanto, somente um deles está em funcionamento. Internamente, as escadas diferenciam os dois volumes.

O pavilhão novo, com dois pisos, foi criado para ser uma área de exposições. Contudo, como tem estrutura flexível, antes da inauguração aventou-se instalar ali uma unidade do Poupatempo (centro que reúne uma série de serviços prestados pelo poder público). Ele permanece sem uso definido, mas o mais provável é que abrigue uma biblioteca. Nesse caso, seria necessária a construção de outro volume.

E o teatro? “O projeto executivo está pronto, esperando uma parceria com a iniciativa privada”, diz Aflalo (leia o quadro). Voltando para o carro, percorro o eixo principal e percebo as duas vias paralelas. “Foi uma idéia interessante da Rosa, pois há uma bifurcação: um braço leva ao setor esportivo e o outro termina no nada, mas aponta o caminho para a área do presídio feminino”, afirma Aflalo, já pensando na hipótese de um dia ver o conjunto completo.


À ESPERA DE UMA PPP
Entre os elementos detalhados pelos arquitetos e não executados, dois se destacam. Um deles é um grande estacionamento no subsolo da praça, que em estudos teve até quatro pisos, quando ainda se previa manter esse mesmo número de pavilhões. Ele atenderia o conjunto, o parque e também os usuários do metrô (a estação Carandiru situa-se diante da praça). A proposta, que seria viabilizada pela iniciativa privada, não foi levada a cabo, embora a equipe tenha chegado a fazer o projeto executivo com um único pavimento. O segundo elemento aguarda uma parceria público-privada (PPP): é o teatro. Presente desde o início do projeto, ele é peça-chave para fechar o programa do conjunto e a composição volumétrica da praça. Sua planta se assemelha ao encaixe de dois cubos, um alinhado à praça e o outro inclinado em relação ao primeiro, voltado para o parque. A proposta, que contou com a consultoria de J. C. Serroni, era de um pequeno teatro, com 500 lugares (300 na platéia e 200 no balcão), que pudesse abrigar montagens de óperas mais econômicas do que as encenadas no Teatro Municipal. Igualmente interessante no projeto - detalhado com o mesmo sistema construtivo do pavilhão de exposições - é a criação de dois palcos: um, convencional, voltado para o interior; o outro, para fora, com a platéia acomodada em um gramado-arquibancada.


Aflalo & Gasperini Arquitetos
Gian Carlo Gasperini diplomou-se em 1949 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil (atual UFRJ) e obteve título de doutor pela FAU/USP em 1973. Roberto Aflalo Filho graduou-se pela FAU/USP em 1976 e é mestre pela Universidade Harvard, em Cambridge, EUA (1980). Luiz Felipe Aflalo Herman formou-se em 1978 pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Brás Cubas. Os três são titulares do escritório Aflalo & Gasperini Arquitetos



Ficha Técnica

Parque da Juventude
Local São Paulo, SP
Início do projeto 1999
Conclusão da obra 2007
Área do terreno 232.933 m2 (parque Institucional, 95.636 m2)
Área construída 34.360 m2 (parque Institucional, 32.243 m2)
Arquitetura Aflalo & Gasperini Arquitetos - Gian Carlo Gasperini, Roberto Aflalo Filho e Luiz Felipe Aflalo Herman (autores); Eduardo Martins Ferreira e Takuji Nakashima (coordenadores gerais); Fátima Moreira (coordenadora do teatro e exposições); Aquiles Accocella, André Becker, André Bezerra de Mello, Ana Raquel Pionti, Aleksander Marcello Braz, Bruno Luchese, Fabiano Sinibaldi, Flávio Garcia, Juliana Garcias, Maria Paula Seixas, Meire Negami, Mirela Rezze, Paulo Katz, Raquel Valdivia, Rebeca Perrella, Reginaldo Okusako, Robison Keith Yonegura, Rodrigo Sobreiro, José Messias e Karen de Abreu(arquitetos); Jonatas Olim, Pamela Sarabia e Cíntia Tengan (estagiários)
Paisagismo Rosa Grena Kliass Arquitetura Paisagismo - Rosa Grena Kliass (autora); José Luiz Brenna (co-autor); Alessandra Gisella da Silva, Gláucia Dias Pinheiro, Mauren Lopes de Oliveira e Fabiana Fraccetto
Estrutura Escritório Técnico César Pereira Lopes (áreas externas e pavilhão de exposições); CPOS (pavilhões, núcleo sul e teatro)
Instalações CPOS (parque Institucional); MHA (engenharia de projetos, parques Esportivo e Central)
Ar condicionado CPOS (pavilhões e teatro); Teknika (pavilhão de exposições)
Comunicação visual Univers Arquitetura e Design Caixilharia AEC
Acústica Acústica Engenharia
Luminotécnica Senzi Lighting Design
Elevadores Empro
Impermeabilização Proassp
Cenotécnica Espaço Cenográfico
Layout dos pavilhões Sá Marques Construções e Programação Visual
Conforto ambiental Daltrini Granado
Cozinha Placontec
Terraplenagem e drenagem Rubens Misorelli (parques Central e Esportivo)
Levantamento topográfico Kanji
Fundações Damasco Penna
Construção Engeform (parque Institucional); Épura (parque Central); Kallas (Parque Esportivo)
Fotos Nelson Kon

Fornecedores

Hunter Douglas (brises)
Recoma (assoalho de madeira)
Concremix, Engemix, Holcim Concretex (concreto)
ThyssenKrupp (elevadores)
Bass (plataforma para elevadores)
Algrad (esquadrias)
Forte Metal (estrutura metálica)
Stamp (fachadas)
Placo (forros, gesso e divisórias)
Tecper, Tecnogel (fundações)
Falcão Bauer (recuperação e reforço estrutural)
Sanhidrel (hidráulica)
Denver (impermeabilização)
Philips, Osram (lâmpadas)
Lumini, Alloy, Faeber Lighting System, Schréder Group (luminárias)
AUG (mármores)
Cecrisa (pisos cerâmicos)
JLK (portas)
Grani (revestimento da torre)
Tuper (telhas)
Suvinil, Coral (tintas)
Glassec (vidros)

Texto de Fernando Serapião| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 344
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