Dietmar Starke e Alexandre Pessoa: Praça do Conhecimento, RJ

Tecnologia nascida de escombros

Cultura, capacitação digital e noções de cidadania são itens do programa das unidades da Nave e da Praça do Conhecimento. Até meados de outubro, haviam sido implantadas cinco naves e duas praças. O “cientista” por trás do projeto das naves é Dietmar Starke, que também assina a proposta urbanístico‑arquitetônica da Praça do Conhecimento Padre Miguel, junto com Alexandre Pessoa.

Desde meados do ano passado, para os moradores de Padre Miguel, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, o ato de passear na praça ganhou nova conotação. Implantada na esquina das ruas Bom Sossego e Açafrão, a praça permite caminhadas, corridas e o lazer tradicional, mas ultrapassa as funções de um espaço tradicional desse tipo. Implantada no terreno onde, por quase três décadas, esteve abandonada a estrutura de um hospital público, a Praça do Conhecimento Padre Miguel recebe também os moradores para mostrar-lhes o universo da cultura digital nas suas variadas configurações.

A implosão do natimorto hospital liberou o terreno para a construção, mas os escombros (cerca de 10 mil metros cúbicos de entulho) da estrutura foram reaproveitados para configurar uma topografia (outrora essencialmente plana) que se transformou no “indutor do conceito urbano, arquitetônico e paisagístico da praça, melhorando a eficiência energética da edificação e contribuindo para um novo modelo de políticas públicas e de conscientização e combate ao aquecimento global”, conforme assinala o arquiteto Dietmar Starke, autor do projeto em parceria com Alexandre Pessoa.

O equipamento distingue-se das praças convencionais especialmente pela presença de uma construção que abriga um programa em que a tecnologia presta-se à educação, ao entretenimento e à formação profissional. Para acomodar essas funções, Starke e Pessoa desenharam um prédio no qual prepondera o concreto armado. “A ideia era criar um cenário de renascimento, indicando que a antiga edificação reapareceu em configuração contemporânea”, conta Starke. “O entulho é a memória da transformação da história do local.”

O prédio é estruturalmente definido pela cobertura em laje nervurada apoiada em paredes de concreto e pilares cilíndricos. “A laje foi dimensionada para suportar o peso de meio metro de entulho, da terra e do acesso dos visitantes”, detalha o arquiteto, observando que a construção e os taludes trouxeram nova dinâmica ao relevo, propiciando microclima agradável com áreas sombreadas e permitindo a redução térmica e o redirecionamento dos ventos. “Os taludes misturam-se com o prédio, servem às brincadeiras das crianças e permitem contemplar o maciço da Pedra Branca e arredores”, ele informa.

A edificação é composta por quatro volumes: o espaço central, o auditório, a sala de workshops e os taludes. “Da rua, são visíveis apenas o auditório, o talude, o cone de luz e a entrada principal do prédio, que é praticamente um furo de concreto na elevação do terreno, como se fosse uma passagem subterrânea. O espaço central e a sala de workshops ficam escondidos por baixo e por trás”, descreve o autor. A amplitude do espaço principal, semicircular, revela‑se na entrada. O bloco possui uma extensa fachada de vidro inclinada apoiada num banco de concreto, que acompanha o espaço em boa parte de seu interior.


OBJETO POÉTICO E TECNOLÓGICO
O sucesso da Praça do Conhecimento Padre Miguel motivou a prefeitura carioca a replicar o programa abrigado na edificação em outras regiões da capital, porém em terrenos de menor dimensão. As Naves do Conhecimento (até meados de outubro eram cinco, mas a prefeitura pretende chegar a mais de 40 até 2016) são, de certa maneira, células que se desprenderam da praça. Responsável pelo arquitetura das naves, o arquiteto Dietmar Starke diz que o conceito arquitetônico delas revela na estética e na tecnologia o conteúdo de seu programa e seu objetivo político-educacional.

Starke conta que sua intenção foi desenhar um edifício com linguagem contemporânea, empregando uma solução plástica que ele define como essencialmente tecnológica “e, ao mesmo tempo, poética”. Dessa forma, imagina que a nave tem o poder de atrair e transformar o ambiente e a sociedade do seu entorno. “Queria criar um ícone para expressar as políticas públicas de um novo modelo de inclusão social, através da inclusão digital”, argumenta o “cientista”/projetista.

A inspiração, ele recorda, veio da imagem de um objeto que flutua no espaço em forma de elipse prismática. Para o arquiteto, o objeto reproduz a forma do universo, estando fixado no teto por tirantes. No outro sentido, ele transpõe o plano de vidro que limita a área externa e interna da edificação. Para Starke, esse momento representa o instante da passagem de um corpo físico (a nave do conhecimento), rompendo a dimensão entre tempo e espaço. A nave simboliza, assim, a possibilidade de passagem da exclusão para inclusão, do presente e do futuro da sociedade.

A nave está contida entre duas paredes de desenho irregular na forma de flechas que, segundo Starke, apontam para o infinito. A fachada principal é constituída por superfícies ora transparentes, ora translúcidas, que se cruzam e distorcem, intencionalmente, a realidade. “A nave em forma de elipse desafia a gravidade e sobressai do plano das paredes, estimulando a imaginação e a curiosidade do espectador”, avalia o autor. “Ela está posicionada de forma que parece pronta para ser lançada para fora da fachada.”


Dietmar Starke e Alexandre Pessoa
Dietmar Starke (Unisinos, 1985) realizou mestrado na Universidade de Artes de Berlim, e tem projetos de arquitetura e de arte executados na Alemanha, no Egito e no Brasil. Desenvolveu, no Rio de Janeiro, em parceria com a Fundação Bauhaus e a prefeitura, o projeto Célula Urbana, no Jacarezinho. Atualmente é arquiteto da Empresa Municipal de Urbanização (Riourbe) e atua como consultor e professor da Universidade Santa Úrsula. Alexandre Pessoa (FAU/UFRJ, 1997) é associado do escritório JC&S Arquitetos Associados e leciona na FAU/UFRJ. Atuou entre 2009 e 2010 como coordenador de projetos da Riourbe



Ficha Técnica

Praça do Conhecimento Padre Miguel
Local Rio de Janeiro, RJ
Data do início do projeto 2009
Data da conclusão da obra 2012
Área do terreno 13.702 m²
Área construída 1.396 m²
Arquitetura, interiores e paisagismo Dietmar Starke e Alexandre Pessoa (autores); Ana Carla Prado, Ângela Meurer, Kelly Pereira e Liana Dias Iannibelli (equipe); Fabiana Pion (estagiária)
Mobiliário Dietmar Starke, Alexandre Pessoa e Ydreams - Ana Paula Monte
Fiscalização Isaías Figueiredo de Souza e León Toledo
Estrutura e fundações Leonardo Perazzo
Elétrica Joaquim Guimarães
Ar condicionado CJA
Projeto e execução Secretaria Municipal de Obras/Empresa Municipal de Urbanização (Riourbe)
Cliente Secretaria Especial de Ciência e Tecnologia (conceito e implementação)
Construção York
Fotos Joana França

Nave do Conhecimento Parque de Madureira
Local Rio de Janeiro, RJ
Data do início do projeto 2010
Data da conclusão da obra 2012
Área do terreno 600 m²
Área construída 504 m²
Arquitetura Dietmar Starke (autor); Ana Gonçalves, Ângela Meurer, Fernanda Cebrian, Kelly Pereira e Liana Dias Iannibelli (equipe)
Interiores Dietmar Starke
Mobiliário Dietmar Starke e Ydreams - Ana Paula Monte
Luminotécnica Sylvania e Schréder (projeto e fornecimento de equipamentos)
Elétrica ACB e Overload
Hidráulica ACB
Ar condicionado Ambientair (projeto, fornecimento e execução)
Projeto executivo JC&S Arquitetos Associados - Jozé Candido, Dietmar Starke e Daniel Kamitami
Estrutura Leonardo Perazzo; Grupo Projetec Guerra (metálica)
Fiscalização Riourbe e Secretaria Municipal de Obras - Eduardo Crispino (Nave de Irajá, Nave da Vila Aliança e Nave da Penha); Christoph Walter Mueller e Eliette Pedro (Nave de Madureira); Mauro Bonelli e Mônica Vieira (Nave de Santa Cruz)
Execução Secretaria Municipal de Obras/Riourbe
Cliente Secretaria Especial de Ciências e Tecnologia (conceito e implementação)
Construção Delta
Fotos Joana França

Fornecedores

Praça do Conhecimento Padre Miguel
Concrelagos (concreto)
SHR Medeiros (esquadrias e vidros)
Gerdau (aço)
Amanco (hidráulica)
Fabrimar (metais)
Luzes Center, Foxcel (iluminação)
Itograss Agrícola (grama)
Chatuba (impermeabilização)
Madeireira Flaviense, Guatemala Madeiras, Senado Madeiras (portas)
Portobello (pastilhas)
Cecrisa (revestimentos cerâmicos)

Nave do Conhecimento Parque de Madureira
Vimolbarra (vidros)
MBP (cobertura em telha metálica)
Brasilit, W. Parial (fechamento externo e interno em placa cimentícia e drywall)
Sarty Metal (esquadrias e brises)

Texto de Adilson Melendez| Publicada originalmente em Projeto Design na Edição 405
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