Índio da Costa se preocupa com educação e futuro incerto

Temas permearam palestra do arquiteto e urbanista carioca, que questiona o Regime Diferenciado de Contratação, legislação e falta de diálogo entre colegas

Índio da Costa em palestra magna na II Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo 

Luiz Eduardo Índio da Costa pode ser considerado um empresário da arquitetura. Apesar de toda experiência junto ao poder público, com histórico de atuações na prefeitura do Rio e Janeiro, no Departamento de Parques e Jardins da cidade e na Secretaria Municipal de Urbanismo, o premiado arquiteto - recebeu a Comenda Oscar Niemeyer pelo Conselho Superior do IAB, o Prêmio Roberto Cláudio dos Santos Aflalo, da AsBEA, pelo conjunto da obra, entre outros - atua em diversos segmentos da arquitetura, urbanismo e design - este último, principalmente, com seu filho e sócio, Guto Índio da Costa. Não toma preferência por contratante, seja público ou privado, com grande atuação no mercado imobiliário. O que não exclui seu pensar a arquitetura, e a preocupação com os rumos de sua profissão.

Índio da Costa abriu a terceira e última palestra magna da II Conferência Nacional de Arquitetura e Urbanismo do CAU/BR, demonstrando total preocupação com o futuro. “Saímos da régua compasso para as tecnologias mais avançadas de computação e isso mudou nosso trabalho. Hoje o trabalho de arquitetura é muito mais rico, forte e abrangente. Do mundo sólido passamos ao mundo líquido do Zygmunt Bauman”, disse, em referência ao filósofo e sociólogo polonês falecido este ano.

Desse modo, surge uma “total incerteza sobre o que vai acontecer amanhã”, o que modifica o nosso comportamento, a maneira de sentir, e isso inclui a arquitetura, que sempre transitou em um mundo sólido, fisicamente palpável. “Se não sabemos exatamente para onde estamos indo, a gente não sabe como se comportar. Existem muitos caminhos”, acrescentou.

O arquiteto e urbanista demonstrou certa insegurança com o futuro que se desenha: “Me pergunto como planejar o futuro e seguir em frente. Hoje temos a responsabilidade de lidar e contribuir com o futuro, só depende de nós. Depende das nossas perguntas e nossas respostas”, concluiu.

O principal instrumento, segundo ele, é a educação, no seu sentido mais amplo e completo. Professores mal remunerados, proliferação de cursos de arquitetura sem controle técnico, são alguns dos pontos que devem receber atenção na visão de Índio para construir esse futuro de forma mais palpável.

“Saindo do abstrato para o concreto”, e partindo ao pragmatismo, Índio da Costa cita o Congresso Mundial da UIA em 2020 como possibilidade de transformação da profissão em diversas frentes. Com data e cronograma estipulados, é viável se organizar para resolver uma série de mazelas e dificuldades atuais.


Índio da Costa em conversa com o jornalista Raul Juste Lores

“Aborto”

Um dos principais problemas atuais elencados por ele, para a classe arquitetônica, é o Regime Diferenciado de Contratação. “Nas obras públicas, o grande problema é o RDC. Esse aborto, essa coisa estranha que faz com que o projeto entre em obra ainda no projeto básico, é como se fosse a interrupção de uma gestação. Não se consegue antecipar coisas em um projeto de arquitetura, há um tempo natural de maturação”, declarou.

O que geralmente é considerado um estorvo para o contratante, é parte essencial da atuação do arquiteto. “Só pode nascer quando está pronto, no projeto executivo. Para que se tenha cronograma adequado, orçamentos, e tudo isso fica prejudicado pelo RDC”, completou.

A segunda vilã a ser combatida, na opinião de Índio, é a “legislação complexa e ultrapassada, que não representa a atualidade, está obsoleta. Temos que ser capazes de mudar as regras quando necessário”, disse, pregando dinamismo e quebra das burocracias que atualmente impedem o bom exercício da profissão.

Costa citou alguns ícones da paisagem carioca, entre eles o aterro do Flamengo e o Cristo Redentor, como exemplos. Ao apresentar a maquete do Sesc de Madureira para a prefeitura, teve seu projeto elogiado, porém com ressalvas sobre itens fora da legislação vigente. Após explicações, o projeto foi aprovado daquela forma. “Isso não ocorre hoje, tem tanta vigilância em torno disso tudo, até pelos processos de corrupção que estamos vivendo. Precisamos de um Conselho Superior, acima da legislação, composto por notáveis, para analisar e aprovar projetos atípicos. A legislação é mediocrizante.”

Mais grave, é a legislação para o centro do Rio: “Não conheço nenhum lugar do mundo que não se permita moradia no centro da cidade, a não ser no Rio de Janeiro. Toda região central mistura habitação, comércio e serviços. O mesmo no Porto Maravilha, onde precisamos unir habitação aos comércios e serviços. Aquilo só vai funcionar no momento em que as pessoas passarem a morar ali.”

Não menos importante, a polarização de ideias do mundo atual, as visões radicais sobre o bem e o mal, extremismos e falta de colaboração entre colegas também são um ponto grave na visão do arquiteto. “Quando precisamos nos unir, estamos em um ambiente de competição constante”. Diálogo é a chave para esse momento peculiar da humanidade, mas a dificuldade está muito próxima. “Amigos que você conhece há 50 anos te agridem por uma opinião divergente”, complementando que este é um mal alimentado pelas redes sociais e novas tecnologias de comunicação.

Ao final de sua fala, Índio da Costa conclamou os presentes e toda classe arquitetônica a se unir: “Vamos trabalhar em conjunto, cooperar, e certamente teremos um mundo mais justo, honesto e cidades mais humanas, agradáveis e mais justas”.

Olimpíadas

Ao responder perguntas do público e do jornalista Raul Juste Lores, da Folha de S. Paulo, Índio considerou que até mesmo as obras das Olimpíadas, recheadas de problemas e possíveis superfaturamentos, tiveram um resultado positivo. “Você pode dizer que não era o esperado, que poderia ter sido feito mais, ou que custou caro, mas o legado existe”. “A retirada da perimetral foi excelente, a cidade renasceu. O VLT também, apesar de não ser o que eu gostaria que ficasse”, complementou.

Publicada originalmente em ARCOweb em 10 de Outubro de 2017
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