Bloco Arquitetos: Casa MR53, Brasília, DF

Atributos recuperados em casa projetada por Milton Ramos

O Bloco Arquitetos reconfigurou internamente a residência, devolvendo as qualidades do projeto elaborado na primeira metade da década de 1970 pelo arquiteto carioca

“Esquece o terreno”, recomendou, de forma enfática, o arquiteto Daniel Mangabeira - sócio do Bloco Arquitetos - ao cliente que o levara para conhecer a casa construída no Lago Sul, em Brasília. O cliente recorrera ao escritório para que o ajudasse a decidir se deveria adquir o imóvel que foram visitar ou continuar em busca de um lote para construir uma nova residência. Diante do que lhe foi apresentado, Mangabeira não teve dúvida. Tratava-se, ele constatou depois, de uma casa projetada no início da década de 1970 pelo arquiteto Milton Ramos.

O projeto do Aeroporto Internacional de Belo Horizonte-Confins é, provavelmente, o trabalho de maior dimensão e um dos mais conhecidos do arquiteto. Nascido no Rio de Janeiro, Ramos desenvolveu boa parte da sua carreira em Brasília, tendo acompanhado, entre outras, as construções do Palácio Itamaraty e do Teatro Nacional - ambos projetados por Oscar Niemeyer. Embora menos conhecida, é também ampla e marcante a produção residencial desse profissional, como é o caso da MR 53, que foi objeto de uma intervenção do Bloco Arquitetos, talentoso e reconhecido escritório da capital federal.

A moradia foi concluída em 1974 e, durante mais de quatro décadas, permaneceu com a família para quem Ramos a projetara. Isso não evitou, no entanto, que os proprietários efetuassem algumas alterações que, embora funcionais, acabaram, de certa forma, distorcendo a intenção inicial do autor. “O espelho d’água frontal foi aterrado, um gradil de ferro foi colocado no vestíbulo externo, impedindo o morador ou visitante de ter acesso direto à porta frontal, e todo o interior – antes em concreto aparente – foi rebocado e pintado de branco”, informa o escritório em texto sobre o projeto.

Também ocorreram modificações – essas, porém, de pequena monta - nas janelas, aberturas de portas e algumas áreas em concreto aparente foram revestidas. Essas, no entanto, não repercutiram tanto no projeto original. Mangabeira conta que o antigo proprietário – um engenheiro civil – contratara Ramos para projetar a residência. A viúva, que recordava de detalhes da contratação, pretendia vender o imóvel, mas, na medida do possível, daria preferência a quem não pretendesse interferir demasiadamente na concepção da casa onde a família viveu por tanto tempo.

Contratados pelo novo proprietário para ajustar a moradia às suas necessidades, o Bloco Arquitetos adotou como um dos nortes da intervenção recuperar e reconstituir, até onde fosse possível, os atributos do projeto elaborado na década de 1970 – entre estes, a equipe do Bloco menciona: a livre circulação entre os espaços, aplicação extensiva do concreto aparente e o uso da água. “Essas características são comuns a outros projetos públicos do arquiteto Milton Ramos e foram muito bem-adaptadas à escala residencial nesse projeto em Brasília”, escrevem os arquitetos.

Externamente, a casa mantinha o acabamento em concreto aparente, mas, internamente, algumas áreas haviam sido revestidas e pintadas – a sala de estar, por exemplo, contava com paredes brancas, recurso que Mangabeira acredita que tenha sido empregado para deixar mais claro o ambiente. O arquiteto chegou a essa conclusão na etapa de obras, quando determinou remover parte do revestimento e se deparou com a parede em concreto aparente. Decidiu, então, retomar à concepção original dessas paredes e recorreu à iluminação artificial (com fontes de luz fixadas em trilhos) para equacionar o problema.

“Recuperamos o piso original de madeira em tábuas corridas de ipê de 25 centímetros, retiramos todo o reboco e a pintura para expor o concreto aparente nas áreas sociais e circulações internas, recuperamos o grande espelho d’água frontal que tinha sido aterrado em reformas anteriores e removemos o gradil da porta de entrada desobstruindo o acesso como previsto no projeto original”, relata a equipe do escritório brasiliense.

Na configuração interna, o grande banheiro social foi dividido em dois banheiros menores, transformando os dois quartos em duas suítes. A área do lavabo foi aumentada e a circulação rearranjada, de forma a torná-la direta entre a sala de jantar e a cozinha. “Todas essas intervenções adaptaram a casa às necessidades dos clientes e recuperaram as principais características originais do projeto”, avaliam os sócios do Bloco.

Um dos destaques da reforma ficou por conta da concepção do lavabo. O projeto oculta elementos que, tradicionalmente, caracterizam o espaço, como pia e toalheiros. O único objeto que indica a existência de uma pia é o registro na parede lateral. Seu acionamento faz surgir uma fonte de água, que funciona como torneira, entre as ripas. “Unificamos o revestimento das paredes e da bancada, que abriga a cuba escondida, com o uso do freijó laminado nas paredes e da mesma madeira maciça na bancada frisada”, comentam.

Os arquitetos do Bloco também se preocuparam em fazer uma pequena homenagem a Ramos: um dos quadros expostos exibe a planta original da residência, conforme ela foi projetada pelo arquiteto carioca.



Ficha Técnica

Casa MR 53
Local Brasília, DF
Início do projeto 2015
Conclusão da obra 2016
Área construída 350 m²

Arquitetura e iluminação Bloco Arquitetos - Daniel Mangabeira, Henrique Coutinho e Matheus Seco (autores); Tatiana Lopes e Guilherme Mahana, Vitor Machado e Marina Lira (equipe)
Paisagismo Mariana Siqueira e Jardins do Serrado
Construção Grid Engenharia
Fotos Joana França

Fornecedores

Atlas (pastilhas)
Portinari (revestimentos cerâmicas)
Leopard Esperante (azulejos)
Florence (marcenaria da cozinha e área de serviço)
Prime Armários (marcenaria da sala, quartos e banheiros)
Interpam, Lumini (iluminação)
Alkha (esquadrias)
Rhodopas (impermeabilização)

Publicada originalmente em ARCOweb em 29 de Maio de 2018
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