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Obra em tempo recorde renova arena em Paris

Modernizada, expandida, adaptada às normas e padrões do século XXI e, sobretudo, entregue ao público em tempo recorde, a nova AccorHotels Arena é exemplo de obra feita com economia de recursos e excelência técnica, destacando-se como um dos pontos fortes da candidatura de Paris para sediar os Jogos Olímpicos de Verão em 2024

O Palais Omnisports de Paris-Bercy foi inaugurado em fevereiro de 1984 nas proximidades da Gare de Lyon e se tornou, na época, o maior local de concertos, shows e eventos esportivos da França. Projetado pela equipe de arquitetura de Andrault, Parat, Prouvé e Guvan para substituir o estádio Vel d’Hiv, rapidamente se tornou um local chave na vida cultural de Paris. Sua estrutura metálica azul, seus gramados inclinados e seu design piramidal ousado causaram um forte impacto sobre o panorama da cidade. No entanto, após três décadas de uso intensivo, o local exigia renovação, para alcançar o mesmo nível das maiores arenas do mundo no século 21. Um programa ambicioso, em termos técnicos, funcionais e de aperfeiçoamento, foi formulado pela agência de arquitetura, design e engenharia DVVD, selecionada em 2011 por concurso organizado pela operadora POPB. A intervenção preparou a arena para os Jogos Olímpicos de Verão de 2024.

“O esquema de renovação tinha exigências técnicas, funcionais e relacionadas à segurança. Mas procuramos ir além, oferecendo uma arquitetura sensível e emblemática, para uma das maiores arenas do mundo, e até mesmo influenciando o desenvolvimento urbano, abrindo o prédio para a rua, proporcionando espaços e facilidades de caminhada para a população local”, observa o engenheiro e arquiteto Daniel Vaniche, presidente da DVVD.

O desafio colocado à DVVD envolveu principalmente a gestão hábil e sem sobrecarga de 17 meses de trabalhos, divididos em duas etapas. A primeira, de sete meses, para a renovação da pista de gelo e o início das obras no salão principal - com uma interrupção de dois meses para reabertura provisória visando acolher o torneio de tênis do BNP Paribas Masters e cerca de trinta concertos. Na segunda etapa, de 10 meses, deveria ser executada, em ritmo acelerado, a reconstrução da sala de concertos e a instalação de salas de recepção, vestiários, espaços públicos e desportivos, salas de imprensa e reestruturação de instalações técnicas, além de tratamento acústico e térmico da envoltória do edifício. Tudo isto devia ser feito sem o menor ajuste tanto de datas como de custos, não havendo qualquer possibilidade de extensão no orçamento de 110 milhões de euros para as obras.

Foi então concebido um planejamento just-in-time, com uma seqüência extremamente precisa de fases. Os supervisores de obras deveriam operar zona por zona; as análises de projeto foram concluídas com extremo grau de detalhamento, a fim de evitar qualquer mudança no curso das obras. No período de pico, cerca de 1.200 pessoas trabalharam no local, sob exigências extremas, a fim de garantir a entrega oficial do projeto no dia 18 de outubro de 2015.

“O projeto de modernização dessa arena teve em mente todos os usuários, desde os organizadores de eventos, até artistas, desportistas e vários tipos de público. Enquanto este é um espaço cultural à noite, durante o dia é também uma área de lazer e relaxamento, acessível a todos”, diz o engenheiro Vincent Dominguez, diretor do DVVD. Antes desconectada de seu entorno, com rotas de acesso confusas e pouco incentivo para a apropriação pública, a nova arena tem agora uma generosa abertura para a cidade. E também um novo nome - Accor Hotels Arena - resultado de um modelo econômico para o financiamentos de revitalização de complexos multiúso sem subsídio público.

O projeto mantém a forte identidade do edifício que, com a sua estrutura de teia metálica azul e seus gramados inclinados, confere uma característica marcante à paisagem parisiense. Entretanto, seu interior recebeu novas áreas de recepção, construídas com estrutura de madeira, aço e vidro, que definem o limite com a estrutura existente de gramados e concreto. Alguns desses espaços são acessíveis ao público durante o dia, servindo a nova intenção de transformar locais de espetáculos em espaços para atividades além do âmbito dos próprios eventos. Bares, restaurantes e espaços dedicados a parceiros comerciais são um incentivo e até mesmo um convite a esse convívio. Os novos espaços públicos da arena passaram a influenciar novos hábitos nos moradores da região. As áreas inclinadas e gramadas da cobertura, acessíveis a todos, se tornaram um local aprazível para relaxar, ler ao sol e conversar com amigos.

A AccorHotels Arena transformou-se, assim, em um verdadeiro intercâmbio urbano, onde o bem-estar, a facilidade de acesso e a sociabilidade ganham importância. No interior da arena, os contornos do telhado inclinado refletem-se no espaço de recepção, que recebeu como acabamento uma estrutura composta por vigas de madeira laminada. Sobre ela, a cobertura de vidro permite a entrada de luz solar. Um dos grandes desafios do projeto desenvolvido pelo DVVD reside no próprio coração da arena. Embora permaneça dentro da sua estrutura de concha existente, a sala de concertos teve sua capacidade aumentada de 17.000 para 20.300 lugares. Para a comodidade dos espectadores, a visibilidade foi melhorada através da geometria redesenhada da arena e de seus assentos, a iluminação e acústica foram analisados ​​em detalhe, com a seleção de materiais de alto desempenho, incluindo novos assentos compostos de uma capa absorvente que mantém uma qualidade de som consistente, mesmo quando desocupado.  

A modernização das instalações atendeu às exigências de criação de espaços multiúso. Os vestiários, salões e instalações técnicas foram ampliados, remodelados e redesenhados para novas finalidades. Estas operações foram empreendidas no interesse de melhorar as condições de trabalho do staff local, poupar energia e racionalizar os custos operacionais, de acordo com uma política coerente com o Plano Climático da Cidade de Paris. A remodelação completa dos camarins e instalações de produção é também fator importante na competição entre grandes cidades e grandes arenas em todo o mundo para sediar eventos prestigiados como campeonatos mundiais, grandes concertos e Jogos Olímpicos.  

Todas as modificações funcionais, o movimento dos espaços, a criação de áreas abertas, as grandes áreas envidraçadas e o túnel entre o estacionamento e a sala VIP, tiveram um impacto estrutural substancial. A absorção de novas cargas pelas instalações existentes, a criação de trinta balcões com vigas em balanço, o reforço de lajes, » vigas e colunas, entre outras operações, foram estudadas pela equipe de projeto de forma a garantir a perfeita integração entre arquitetura e engenharia, preservando a viabilidade financeira e o cronograma de obras. Inicialmente foram realizados trabalhos arqueológicos detalhados para a localização das fundações existentes e a análise dos solos circundantes, para recalcular as novas cargas a serem aplicadas nesses elementos, minimizá- las e, quando possível, melhorar a capacidade de carga por meio da injeção de concreto.

Dentro do contexto do Plano Climático da Cidade de Paris, o consumo de energia da arena foi reduzido em um quarto em relação ao antigo estádio. As áreas envidraçadas receberam reforço estrutural e foram remontadas com vidros duplos de alto desempenho. Os gramados externos inclinados foram mantidos, porém isolados termicamente, para a eliminar perdas de energia. Os aterros agora têm peças de concreto pré-fabricadas, em forma de L, dispostas como uma série de degraus e cobertas com um material geotêxtil. O isolamento interior ganhou painéis de lã mineral de 15 centímetros de espessura, fixados abaixo do caixilho de concreto da estrutura.  

Graças a essa renovação engenhosa e meticulosa, que deveria servir de modelo para a indústria da construção civil de outros países, como o Brasil, a AccorHotels Arena está agora entre as três principais arenas de desportos polivalentes do mundo, em termos de desempenho hospitalidade, capacidades funcionais ou instalações.

“Trabalhar em um edifício tão forte e emblemático foi intenso: o desafio era entregar algo novo sem alterar a natureza original do edifício, trazendo-o para o século 21, respeitando sua arquitetura icônica. Nós tentamos usar o mesmo espaço para conseguir muito mais, combinando conforto, inovação, funcionalidade e qualidade ambiental, diz Daniel Vaniche.



Texto de Cida Paiva| Publicada originalmente em Finestra na Edição 102
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