Fachada microclimática com desenho assimétrico

Construído às margens da rodovia dos Imigrantes, na zona sul de São Paulo, o Centro de Treinamento Paraolímpico Brasileiro tem sua fachada oeste protegida por membrana compósita, que caracteriza visualmente o conjunto arquitetônico, promove proteção termoacústica e mantém a visibilidade e luminosidade nos ambientes internos

Inaugurado em maio deste ano, em gleba de cerca de 180 mil metros quadrados no Parque Estadual das Fontes do Ipiranga, zona sul de São Paulo, o Centro de Treinamento Paraolímpico Brasileiro tem arquitetura assinada pelo escritório L+M Gets. Além de sua monumentalidade, em 95,5 mil metros quadrados de área construída, o conjunto edificado chama a atenção de quem passa pela movimentada rodovia dos Imigrantes por uma fachada assimétrica em tonalidade vermelha, projetada para filtrar a luz, promover sombreamento e controlar a temperatura dos ambientes internos.

O local abriga centros para treinamento e competição em 15 modalidades (quadras poliesportivas, arenas multiúso, pistas de atletismo, piscinas olímpica e semiolímpica etc.), áreas de pesquisa, apoio e suporte, espaços para eventos e estacionamentos. Há também um edifício residencial com 86 apartamentos equipados para receber 282 atletas, técnicos e treinadores. O lote em desnível fez com que a implantação das construções fosse em platôs, em diferentes níveis, conectadas por rampas e permeadas por áreas verdes. Construir os blocos usando estruturas metálicas e concreto moldado in loco foi opção de projeto, que permitiu mais agilidade e leveza à obra.

O volume linear voltado à rodovia dos Imigrantes recebeu o sistema de fachadas microclimáticas, que é formado por uma membrana perfurada compósita, instalada em estrutura metálica. Essa solução industrializada - que, de certa forma, caracteriza visualmente o conjunto arquitetônico - foi aplicada em área de 2.800 metros quadrados da face oeste do edifício, visando oferecer proteção solar e conforto térmico e acústico aos ambientes internos, sem prejudicar a visibilidade e luminosidade.

“A face voltada para o oeste é exposta ao sol desde o meio-dia até o anoitecer, principalmente no verão. Esse é o período mais quente do dia, exigindo um controle de temperatura mais rigoroso no local. Portanto, a fachada microclimática é essencial para o conforto térmico”, justifica o CEO do L+M Gets, Lauro Miquelin, acrescentando, ainda, que esse sistema permitiu uma fachada leve e de fácil instalação.

A membrana escolhida para o projeto é a Soltis FT 381, desenvolvida pela empresa francesa Serge Ferrari, em rolos de 2,67 x 50 m, pesando 550 g/m2 e com resistência de 330 DaN/5 cm. A transmissão de calor, com essa tela, que possui fator de abertura de 28%, varia entre 27% e 30%. Portanto, mais de 70% é bloqueado do lado de fora da construção. Em relação à luz, a transmissão visual varia entre 27% e 29%, o que limita o ofuscamento sem criar a necessidade de iluminação artificial.

Segundo Rodrigo Dezotti, coordenador comercial da Serge Ferrari, além desses benefícios, o produto composto de poliéster revestido por PVC favorece a cobertura de grandes áreas de fachadas, com formas diferenciadas, como requeria a proposta arquitetônica do Centro Paraolimpíco. O material é produzido com a tecnologia Précontraint, que consiste em pré-tensionar o suporte de poliéster nos dois sentidos, durante todo o ciclo de fabricação. Isso oferece à membrana características como durabilidade, alta resistência à deformação (estabilidade dimensional), proteção reforçada dos fios contra as agressões externas e facilidade de manutenção graças à superfície mais lisa. Além disso, tem tratamento contra raios UV, mofo e fogo, sendo autoextinguível em menos de cinco segundos, conforme exigências das normas internacionais.

A Soltis FT 381 recebeu uma cor especial, a Rouge Doreé, no intuito de seguir o padrão aplicado no complexo em referência às cores das medalhas paraolímpicas. Dezotti explica que a empresa, primeiramente, analisou em laboratório amostras de peças com a cor solicitada (um tom de vermelho dourado). Ao todo, foram aplicados 3.500 metros quadrados da membrana compósita, que resultaram em três painéis tridimensionais de cor vibrante - batizados de amebas por suas formas irregulares. A Serge Ferrari também aplicou a membrana Précontraint 502 S2 na área de 1.800 metros quadrados da platibanda do prédio, projetada pela empresa Fiedler Tensoestruturas.

Instalada simultaneamente à construção da edificação, a estrutura metálica que recebeu a Soltis FT 381 é composta por segmentos modulados de viga tipo caixa de aço com pintura branca, contendo abraçadeiras reguláveis em suas bordas. Também desenvolvido pela Fiedler Tensoestruturas, esse sistema de tensionamento foi fixado nos pilares do edifício, que estão aparentes. Foram usados guindastes e plataformas de elevação, devido à escala e complexidade do projeto.

De acordo com o diretor da empresa, o engenheiro Nelson Fiedler, devido à forma geométrica criada pelo L+M Gets para a fachada, caracterizada por ondulações, foi preciso criar ainda uma série de “costelas verticais” - tubos redondos de alumínio calandrado com espaçamento de cerca de 1 metro entre eles - na estrutura metálica para o apoio da membrana. O que, segundo ele, não teria sido necessário, caso ela tivesse apenas curvaturas duplas e opostas.

Em uma segunda etapa da produção da fachada microclimática, as membranas “amebas” foram projetadas em 3D e modeladas, para confecção por solda de alta frequência, na planta da empresa Pistelli Pelz, em Ibaté, interior de São Paulo. Somente uma delas foi confeccionada e instalada na primeira fase pela Fiedler, passando por ajustes de acabamento posteriormente. O desenho assimétrico exigiu que as faixas de tecido que compõem cada tela fossem detalhadas separadamente. “O conjunto foi revisado na fabricação e ajustado durante a montagem”, como explica Guilherme Martins, gerente de contratos da Pistelli Pelz.

No processo de instalação in loco os tecidos foram desdobrados superior e lateralmente, sendo fixados e pré-esticados simultaneamente. “As membranas foram esticadas por meio do sistema de barras roscáveis com abraçadeiras, espaçadas em intervalo de cerca de 30 centímetros, junto das vigas tipo caixa externas de borda no sulco dos perfis de alumínio”, comenta Martins.



Texto de Camila Gonzalez| Publicada originalmente em Finestra na Edição 101
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