Ecoeficiência

Casas construídas com contêineres

Fabricados para transporte marítimo, mas já fora de uso nessa função, oito contêineres foram utilizados para a construção, em Florianópolis, de duas casas com 122 metros quadrados de área útil, aplicando conceitos de sustentabilidade e com economia significativa no prazo de execução.

A proposta inusitada, de utilizar contêineres para fazer casas, partiu do cliente, que é também empreendedor do segmento de construções verdes, a Verde Empreendimentos Sustentáveis. Totalmente diferente do convencional, a ideia logo conquistou a equipe do escritório GhiorziTavares Arquitetura, de Florianópolis: “A cada evolução do projeto nós e o cliente nos apaixonávamos mais pelo sistema construtivo”, disse Gabriel Tavares Leite, um dos arquitetos responsáveis pela obra. Trata-se da construção de duas casas, cada uma delas utilizando quatro contêineres recortados ao meio e com área útil de 122 metros quadrados. Os ambientes são divididos em uma suíte, duas demi-suítes (quartos que compartilham o mesmo banheiro), dois banheiros sociais, lavabo, cozinha integrada com sala de jantar e estar, sacada e cobertura verde no terraço, tudo com acabamento de alto padrão. Internamente, nas áreas secas, os ambientes são separados por chapas de gesso acartonado (drywall) e lã de PET, formando paredes de dez centímetros. Já para os banheiros, cozinha e lavanderia, os arquitetos escolheram o gesso acartonado do tipo RU (verde), que é resistente à água.

As paredes externas são feitas com chapas dos contêineres, que receberam tratamento anticorrosivo e pintura marítima térmica. A face interna das chapas é revestida com lã de PET e painéis drywall, que fazem o isolamento térmico e acústico. O conjunto resulta em paredes com espessura de 15 centímetros. Já as fachadas expostas à maior insolação ganharam proteção externa com sistema steel frame ou chapas OSB, material que, além de proteger do calor, responde pelo acabamento estético.

A combinação dos materiais - chapas de contêiner, lã de PET e drywall - é responsável pelo isolamento térmico e acústico da residência. Juntos, esses componentes formam uma parede capaz de promover o conforto esperado em uma casa. Além disso, foram adotados brises de proteção solar, esquadrias de PVC e vidro duplo refletivo verde, que também isolam de temperaturas extremas e de ruídos externos. Na cobertura utilizaram-se telhas termoacústicas do tipo sanduíche (PU), com calhas e rufos de alumínio.

CONCEITOS SUSTENTÁVEIS
A utilização dos contêineres não é tudo o que essa obra tem de sustentável. Arquitetos e cliente optaram por soluções ecologicamente corretas para captação e aquecimento de água, tratamento de esgoto, sistema de iluminação e telhado verde. Uma cisterna recebe a água da chuva, que, vinda do telhado, segue para um reservatório e é usada em regas de jardins e nos vasos sanitários. A água de chuveiros e torneiras é aquecida pela energia solar, e o telhado verde contribui para manter a temperatura da casa mais agradável. Todo o esgoto é tratado por um sistema de valas de infiltração. Nas áreas externas, jardins verticais, feitos com elementos vazados, dão aconchego e ajudam a reduzir a temperatura dos muros feitos de placas de contêineres.

Além do conceito de sustentabilidade, que é o grande diferencial da obra, os fatores economia e rapidez não podem ser ignorados. De acordo com Leite, “estima-se, com base nos projetos e na experiência dos responsáveis, uma margem de 20% de economia se comparada a uma construção de mesmo padrão em alvenaria”. Há ainda uma redução significativa no prazo de execução - quatro meses contra oito do sistema convencional - e desperdício praticamente nulo de materiais no canteiro.

Se o projeto se diferencia por características que privilegiam o reaproveitamento dos contêineres e as soluções ambientalmente corretas, no que se refere à mão de obra ele se assemelha à utilizada em uma construção de alvenaria. Ou seja, praticamente não há gastos extras. Na primeira etapa, quatro profissionais, entre pedreiros e serventes, fizeram a fundação e a estrutura das casas. Depois, prepararam-se os contêineres numa serralheria na cidade de Itajaí, SC, posteriormente transportados para o canteiro » de obras. Nessa fase, iniciaram-se as instalações elétricas, hidráulicas, os serviços de marcenaria e acabamentos. A colocação das paredes de gesso e steel frame foi terceirizada. De acordo com Leite, no total, cerca de 20 profissionais trabalharam na execução do projeto, em média cinco deles simultaneamente.

NOVA DESTINAÇÃO
Fabricados para o transporte marítimo, os contêineres utilizados na obra foram retirados de operação por terem atingido seu período de vida útil ou por estarem inadequados para o uso original. Leite explica que as normas para cargas marítimas são extremamente rigorosas e os contêineres são descartados ou realocados quando não mais as atendem.

Ainda de acordo com o arquiteto, antes da destinação para a construção civil, os contêineres passam por avaliações e recebem laudos que atestam que não transportavam produtos prejudiciais ao ser humano e estão estruturalmente aptos para a nova função. “São totalmente hábeis para a construção civil, já que as avarias são mínimas, como pequenos amassos na lataria”, afirma Leite. No projeto, foram utilizados contêineres do tipo Dry, de 40 pés high cube (HC), que são mais altos do que os convencionais: possuem altura de 2,90 metros contra os 2,60 metros do padrão. Para a construção das casas, modificações atenderam à legislação que determina o pé-direito em residências, sem, no entanto, comprometerem a relação custo/ benefício. De acordo com o projeto estrutural, para as fundações foram feitas sapatas corridas e vigas de amarração e a estrutura dos contêineres foi reforçada com vigas metálicas nos pontos indicados.

O projeto foi desenvolvido pelos arquitetos Lucas Ghiorzi e Gabriel Tavares Leite, do escritório GhiorziTavares Arquitetura, e a obra foi executada pelo cliente e empreendedor Verde Empreendimentos Sustentáveis. Os trabalhos tiveram início em outubro deste ano, com a preparação do terreno e concretagem das fundações, e a previsão de entrega é fevereiro de 2016. As casas ficam no bairro Campeche, na capital catarinense.



Texto de Beth Miranda| Publicada originalmente em Finestra na Edição 96
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