DBB e GCP Arquitetos: Unidade industrial da Valeo, Guarulhos, SP

Telhas criam
superfície contínua

Aplicadas no revestimento das coberturas e fachadas, telhas de galvalume zipadas e perfiladas na própria obra atendem à arquitetura diferenciada dos três módulos destinados à área fabril da Valeo, totalizando cerca de 20 mil metros quadrados de material utilizado

Indústria de origem francesa, voltada para o segmento de autopeças, a Valeo tem sido reconhecida internacionalmente por investir na modernização de seu parque fabril e apostar na boa arquitetura de suas novas instalações.

Essa postura empresarial norteou o desenvolvimento do projeto da unidade implantada em Guarulhos, na Grande São Paulo, resultado da parceria entre o escritório brasileiro GCP Arquitetos e o norte-americano Davis Brody Bond Architects, representado no país pela DBB Brasil.

Situada às margens da rodovia Ayrton Senna, a construção se destaca na árida paisagem tanto pelo desenho peculiar, quanto pelo interessante efeito do material empregado no fechamento: telhas metálicas, que transformam fachadas e coberturas numa superfície única e contínua.

São 19 mil metros quadrados construídos em terreno de 110 mil metros quadrados, cuja topografia - em formato de L e com acentuado aclive de 30 metros - estimulou os arquitetos à concepção de um projeto de características peculiares, de forma a evitar grandes intervenções no lote e respeitar as curvas de nível. Como a área do edifício era maior que o trecho mais regular da gleba, a solução foi implantar o setor de produção (10 mil metros quadrados) na parte menos acidentada, minimizando-se os cortes e aterros e dispondo os demais espaços do programa em dois níveis.

Com o módulo administrativo em dois níveis - solução raríssima, porquanto o mais lógico seria dispor tudo num único piso - foram economizados cerca de 30% dos serviços de aterro. Na parte superior, na mesma cota da área fabril, estão recepção, escritórios, áreas de reuniões, treinamento e laboratórios, enquanto no pavimento inferior situam-se os ambientes comuns, como vestiários, refeitório com cozinha industrial e entrada de funcionários. Os estacionamentos foram implantados em dois patamares diferentes: o de visitantes e diretoria fica no piso superior e o de funcionários, dois metros abaixo do inferior.

DUPLA CURVATURA
O conjunto edificado compreende três módulos de dupla curvatura e raios distintos, destinados à área de produção, mais o módulo administrativo. A circulação de veículos foi organizada conforme a natureza dos fluxos de automóveis, caminhões e ônibus e, assim, separada em três vias de acesso, para serviço, visitantes e funcionários. A conexão dessas ruas internas se dá através de uma rotatória, que conduz à entrada das docas e aos estacionamentos.

A forma arquitetônica adotada, além de favorecer o melhor desempenho do escoamento da água das chuvas, é resultado da “intenção de explorar o não-óbvio, de evitar o fácil trinômio teto-calha-fechamento”, afirma o arquiteto Sergio Coelho, de GCP Arquitetos. “É uma certa referência à presença da curva na arquitetura brasileira, especialmente na obra de Oscar Niemeyer”, completa. 

Portanto, as linhas originais e ousadas da arquitetura não constituem um formalismo; ao contrário, as razões técnicas ligadas à funcionalidade do edifício (tais como ventilação, iluminação e escoamento das águas) representaram fatores preponderantes no projeto, resultando numa feliz aliança entre forma e função.

Assim, a nova unidade da Valeo causa um primeiro impacto pela solução arquitetônica, com três volumes concebidos como grandes superfícies curvas, onde cobertura e parede se fundem formal e construtivamente.

Com o objetivo de criar lanternins entre cada um dos volumes, suas coberturas foram concebidas com alturas diferentes. Essa solução foi potencializada pelo desencontro deliberado das cumeeiras, proporcionando a ampliação dos espaços para os lanternins e, conseqüentemente, otimizando o uso de luz e ventilação naturais.

As diferenças de altura entre os blocos não são constantes, uma vez que a inclinação é distinta. Portanto, não há uma medida padrão para as alturas das janelas de cada lanternim - elas variam de 1,5 a dois metros. Ali foram utilizados vidros laminados e translúcidos (na cor verde, para evitar ofuscamento, criando uma luz difusa nos ambientes de produção), com película leitosa.

A questão da chuva tem reflexos permanentes num edifício industrial, especialmente nas calhas e descidas pluviais no seu interior. Assim, o perfil arredondado da construção evita o perigo de infiltração de água, dispensando o uso do lanternim tradicional, com sua calha rasgando a cobertura.

Embora a Valeo tenha como princípio utilizar ar condicionado na área de processos, não só por necessidade como por razões corporativas, o sistema ainda não foi instalado. Mas o pé-direito de 14 metros da parte mais alta permite que toda a área fabril funcione satisfatoriamente com ventilação natural. Esta é do tipo forçada - o ar entra através de venezianas de policarbonato prata alveolar com aletas translúcidas, é insuflado por dutos e removido do interior por convecção.

O cuidado com a iluminação natural é uma constante do partido arquitetônico. A transparência é assegurada por um pano de vidro que percorre todo o prédio administrativo, bem como o setor de produção.

Para garantir a necessária flexibilidade de layout, tendo em vista as alterações de processos industriais e evoluções tecnológicas, a área fabril utiliza grandes vãos (um grid padrão de 27 x 30 metros). O sistema estrutural é constituído por pilares duplos de aço com 80 centímetros de diâmetro, recheados de concreto, recurso utilizado para minimizar o uso de proteção contra incêndio.

Os pilares têm alturas distintas, dado o pé-direito diferenciado das coberturas. O sistema se completa com treliças, sendo as transversais invertidas. Na parte administrativa, os pilares têm espaçamento de seis metros e os caixilhos e o forro interno de aço - feito sob medida - compõem módulos de 1,5 metro.

TELHAS, O GRANDE DESTAQUE
A arquitetura incomum dessa unidade da Valeo deve-se, principalmente, ao desenho especial da cobertura dos três módulos fabris. Telhas avançam do topo para a fachada, compondo uma superfície única e criando uma estética de grande leveza e elegância. São telhas de galvalume zipadas, modelo Bemo Roof. Perfiladas na própria obra, têm comprimento de 110 metros e curvaturas convexas com raio de 2,6 metros, um dos menores já obtidos pelo sistema Bemo. A inclinação do telhado variou de 2,6% a 5%, em função das diferentes localizações das cumeeiras de cada módulo.

As telhas de galvalume natural de aspecto fosco, fornecidas pela CSN, têm espessura de 0,65 milímetros para as coberturas e 0,95 milímetros para as fachadas. “Essa diferença de medida decorreu do processo de calandragem executado no local, já que seria necessário definir o tangenciamento e os pontos de fixação na estrutura metálica, de modo a não forçar a telha, e sim moldá-la à estrutura”, afirma Fúlvio Zajakoff, diretor geral da Bemo. A fixação na estrutura metálica foi feita com parafusos autobrocantes.

Do tipo sanduíche, as telhas têm 405 milímetros de largura e 65 milímetros de altura. São compostas por telha trapezoidal pintada a pó (forro interno), perfil cartola de aço galvanizado, clips de alumínio para fixação, lã de isolamento térmico e telha de galvalume. A área empregada nas coberturas e fachadas totaliza 20 mil metros quadrados, o equivalente a 50 quilômetros de telhas.

O projeto previu ainda uma série de providências relativas ao meio ambiente, como uma estação de tratamento de efluentes que permite reutilizar no próprio edifício 65% da água consumida nas áreas administrativas e de serviço. Também emprega GLP para aquecimento dos chuveiros, além da drenagem da água do sistema de sprinklers, que, caso acionado, será direcionada para um reservatório de contenção criado para inspeção de sua qualidade. Está previsto o plantio de 2,2 mil mudas para recomposição da mata ciliar.

Texto de Ledy Valporto Leal| Publicada originalmente em Finestra na Edição 50
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