Technè Arquitetos Associados: Edifício Gaia, São Paulo

Montagem com sistemas industrializados

Ocupando um terreno em desnível de 30 metros, o edifício Gaia foi construído com estrutura metálica e fachadas duplas, compostas por brises metálicos, light steel frame e caixilhos de alumínio e vidro, sistemas industrializados que atenderam aos requisitos de precisão na execução, controle de custos e qualidade

A torre comercial de 11 andares, constituída em sua maior parte de estrutura metálica revestida com brises metálicos, mostra-se integrada ao entorno, com acesso aberto e lojas configurando no térreo uma praça. O confinamento do terreno de 1.447 metros quadrados, somado a características pouco convencionais - estreito, com desnível de 30 metros, duas frentes e 60 metros de profundidade -, guiou a concepção arquitetônica assinada pelo escritório Technè Arquitetos Associados. O edifício comercial de planta livre e flexível tem quatro pisos de garagem, térreo com pé-direito duplo, seis andares-tipo e cobertura com terraço. Os pavimentos de garagem são elevados em relação aos fundos do lote, demandando uma cortina alta na face principal, voltada para a rua Deputado Sussumu Hirata, na Vila Andrade, bairro da zona sul paulistana. As fachadas de uso foram implantadas a norte e sul; os espaços de circulação e serviço foram orientados para o sul.

O projeto visava adaptação ao terreno, maximização do aproveitamento de iluminação e ventilação naturais, método construtivo limpo, rápido, modular e de baixo impacto. De acordo com o arquiteto Ovídio Rotger Armelin, “os objetivos de precisão na construção, controle de custos e de qualidade foram atingidos com a combinação dos materiais: estrutura metálica, brises, painéis de fechamento e o sistema light steel frame, que aproxima o modo construtivo a uma montagem”.

O esqueleto do prédio é formado por pilares, vigas principais, vigas secundárias, laje metálica do tipo steel deck, escadas e cobertura. Para as duas peles de fachada utilizaram-se uma estrutura tubular de alumínio, para suporte dos brises na fachada externa, e o sistema light steel frame na face interna. “A estrutura metálica trouxe precisão e rapidez na construção. As peças usinadas na fábrica chegavam prontas para montagem com parafusos no canteiro”, afirma a arquiteta Leda Bresciani.

A partir dos projetos de estruturas, fundações e instalação desenvolvidos pela Captiva Engenharia, a Medabil fez o projeto executivo de cálculo estrutural, detalhamento, fabricação e montagem de estruturas metálicas do corpo do edifício. “As alterações feitas nos projetos da Captiva buscaram a otimização das linhas fabris, substituindo alguns perfis para atender ao melhor custo/ benefício”, explica Maurício Saltareli, coordenador comercial da Medabil.

Segundo o engenheiro Raphael Tavares, da Captiva, o desnível de 30 metros do lote influenciou o desenvolvimento e a montagem do projeto estrutural do edifício e das fachadas. “Foram feitos cálculos convencionais para resolver essa questão. Foi necessário executar a estrutura de concreto, tipo pilotis, para servir de base para a estrutura metálica. Nas regiões de corte do terreno, onde havia empuxo de terra, alguns pilares metálicos foram encamisados, isto é, ganharam reforço de concreto. Para o dimensionamento das cargas foram considerados o peso próprio, cargas permanentes e acidentais de 300 kg/m² nos pavimentos, empuxos de solo e cargas de ventos”, ele explica.

”As soluções de solo e contenções foram compatibilizadas entre as equipes estruturais, evitando a transferência de carga oriunda de empuxos de terra, garantindo otimização de custos e facilidades na execução. Na montagem das estruturas metálicas usou-se uma grua para viabilizar a logística e a agilidade no içamento das peças. O desnível também promoveu uma laje em balanço de cinco metros para ambas as direções, de modo a garantir acessibilidade e aproveitamento da área destinada a lojas, sem interferir no acesso de veículos à garagem”, completa Saltareli.

A montagem das estruturas metálicas se deu na seguinte ordem: pilares e vigas principais, contraventamentos verticais para garantir a estabilidade global da estrutura, vigas secundárias, lajes steel deck e por último a concretagem das lajes. Com a utilização da grua, as lajes foram montadas sequencialmente por níveis de pavimentos. Dessa forma eram liberadas para receber os acabamentos e demais instalações. O travamento horizontal da estrutura se dava através da fixação no concreto da laje juntamente com os parabolts.

Para os pilares e estruturas aparentes foi utilizado um sistema de acabamento de superfície que consiste na pintura de fundo com resina epóxi com camada de 60 micra de espessura e pintura intumescente contra incêndio. “Para as estruturas metálicas não aparentes, foi aplicada argamassa projetada, que garante proteção contra corrosão e também contra incêndio. Na produção das estruturas principais do edifício foram consumidas 350 toneladas de aço carbono ASTM A572 gr50”, afirma Saltarelli.

PELE INTERNA
A envoltória do edifício é constituída por uma pele interna e outra externa, com diferentes soluções: estrutura light steel frame, caixilhos, brises metálicos e painéis de alumínio composto. Segundo Umberto Tamutis, diretor comercial e de marketing da Multiframe Soluções Construtivas, responsável pela execução da estrutura da fachada interna (que tem 600 metros quadrados de área), utilizou‑se o light steel frame, composto por módulos produzidos com perfis de aço C e U tipo guia instalados na horizontal e montante na vertical. Este, por sua vez, foi fixado a cada 40 centímetros.

O fechamento dos módulos se dá por um conjunto de camadas constituído por placas OSB (Oriented Strand Board) em ambos os lados, placas cimentícias Profort Placlux pelo lado externo e drywall pelo interno. Externamente completam o fechamento do painel: membrana hidrófuga, tratamento de juntas, telagem e basecoat system. A instalação dos módulos no vão começou de baixo para cima, de forma sequencial, e depois foram fixadas as camadas de fechamento.

“Desenvolvidos para absorver as cargas da própria fachada, os módulos são fixados na estrutura steel frame e laje steel deck do edifício. O sistema tem como diferencial a leveza da construção sem a perda de solidez estrutural, rapidez na execução e ainda a industrialização de parte do processo”, explica Pedro Tamutis, diretor administrativo da Multiframe. Para a arquiteta Leda Bresciani, o sistema light steel frame absorve bem as movimentações da estrutura, mesmo sendo uma estrutura leve, que permite alívio em todo o conjunto, especialmente nas fundações - o que foi benéfico em função das características do terreno.

A pele interna também recebeu caixilhos entre vãos produzidos com vidros temperados, incolores de oito milímetros, encaixados com gaxetas de EPDM em perfis de alumínio anodizado com acabamento natural. De acordo com o engenheiro civil Alexandre Hornink, da Metaltec Esquadrias Especiais, responsável pela execução da caixilharia e brises das fachadas, a adoção dos perfis LSF dispensou o uso de contramarcos e tornou imprescindível o estudo diferenciado em relação a impermeabilização e acústica. “Foram realizados diversos estudos para compatibilizar o light steel frame com os perfis das esquadrias. Nesse projeto houve a necessidade de desenvolver pingadeiras e remates especiais de alumínio, permitindo a integração entre os sistemas".

PELE EXTERNA
A fachada externa é formada por uma estrutura de perfis tubulares de alumínio e fechamento de brises metálicos. A estrutura metálica está ancorada nos perfis externos, que avançam do corpo do edifício por cerca de 90 centímetros, formando em cada pavimento uma aba em balanço entre as duas fachadas. Essas abas, que circundam todo o perímetro da torre, funcionam como passarelas de apoio para a circulação na área de equipamentos e manutenção dos vidros e brises.

A estabilidade da estrutura tubular é garantida pelo sistema de contraventamento triangular, com perfis laminados de alma cheia, localizados em pontos específicos, evitando o encontro com portas e janelas. Segundo Tavares, a estrutura da fachada é travada na estrutura do prédio, porém são independentes e foram executadas em etapas diferentes.

Para obter a uniformidade na envoltória da torre, independentemente da incidência solar, as quatro fachadas receberam chapas metálicas com perfuração de 3,2 milímetros e área aberta de 36%. São brises que preservam a visibilidade do interior para o exterior do edifício durante o dia, garantindo proteção para a fachada interna. Dispostos horizontalmente, os brises se distribuem conforme os módulos do sistema light steel frame e, consequentemente, a modulação das esquadrias. O comprimento das chapas varia conforme a fachada. Elas possuem de 2,20 a 2,80 metros de comprimento, 20 centímetros de altura e dois centímetros de profundidade. As chapas foram fixadas com autobrocantes na estrutura metálica secundária pelo lado interno, através das passarelas, evitando o trabalho na face externa. Com cores variadas - champanhe e prata metalizados, azul e verde -, os brises receberam pintura de poliéster, no processo eletrostático.

TÉRREO E COBERTURA
A cobertura e o térreo do edifício foram tratados de forma singular. Por abrigar a área das lojas e ser um espaço aberto, o térreo, com pé-direito 6,4 metros de piso a piso, foi vedado com pele de vidro sistema stick e painéis de alumínio composto. Os vidros laminados de dez milímetros foram colados com silicone estrutural em perfis de alumínio, formando a caixilharia da fachada principal. Os caixilhos foram fixados na estrutura de ancoragem composta por perfis de aço pintados na cor preta. As juntas horizontais e verticais de 18 milímetros receberam material de preenchimento neutro e foram vedadas com silicone de cura neutra, na cor preta. Foram utilizados dois acabamentos de vidro no térreo: o incolor e o metalizado prata aplicado nas bandeiras com o objetivo de impedir a visão da parte interna do forro.

Toda a área de cobertura abriga um único escritório, circundado por terraços e coberto por placa metálica em balanço. Trata-se de uma estrutura metálica com parte apoiada em pilares, que compõem a estrutura do edifício, parte está em balanço. Tal solução define o coroamento do edifício.



Ficha Técnica

Edifício Gaia
Cliente
 Shambhala Administração de Imóveis
Local São Paulo, SP
Projeto 2014
Conclusão da obra 2015
Área do terreno 1.447 m²
Área construída 4.620 m²

Arquitetura e gerenciamento da obra Technè Arquitetos Associados - Ovídio Rotger Armelin e Leda Bresciani; Luise Stabille Prates, Renato Martinelli, Rosana Yamaguti e Gabriela Giraldez (equipe)
Estrutura metálica e instalações prediais Captiva (projetos complementares)
Cálculo estrutural, detalhamento, fabricação e montagem das estruturas metálicas Medabil
Esquadrias de alumínio, brises metálicos e fechamentos em ACM Metaltec
Estrutura light steel frame Multiframe
Fotos Technè

Fornecedores

Belmetal (perfis de alumínio no térreo)
CDA (perfis de alumínio na estrutura secundária da pele externa)
Guardian/Contempera (vidros)
Dow Corning (silicone estrutural na fachada do térreo)
Portobello (pisos e revestimentos cerâmicos)

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 97
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