Pelli Clarke Pelli, aflalo/gasperini: São Paulo Corporate Towers

Torres de Cesar Pelli na Vila Olímpia

Primeiro projeto de Pelli Clarke Pelli Architects no Brasil, implantado em parceria com aflalo/gasperini arquitetos, o São Paulo Corporate Towers reúne duas torres com fachadas de geometria complexa e preserva espécies nativas da Mata Atlântica, em plena Vila Olímpia, região de grandes edifícios corporativos em São Paulo

O complexo São Paulo Corporate Towers está localizado em um terreno privilegiado do bairro Vila Olímpia, zona sul da capital paulista, tendo acessos por vias importantes na malha urbana, como as avenidas Juscelino Kubitschek, Chedid Jafet e rua Funchal, além de vista livre para o eixo do Rio Pinheiros. Chama a atenção no empreendimento a extensa área verde, de cerca de 19.000 metros quadrados, contendo mais de 170 espécies nativas da Mata Atlântica, que norteou o projeto paisagístico assinado pelo escritório Balmori Associates.

“A proposta de paisagismo foi um fator importante para escolha do projeto do arquiteto Cesar Pelli”, afirma a arquiteta Flavia Marcondes, diretora do escritório aflalo/ gasperini. A manutenção dessas áreas de preservação ambiental fez parte do conjunto de decisões que orientou a concepção arquitetônica, junto com o tamanho das lajes das torres - cerca de 2000 metros quadrados -, os recuos entre as torres e as vias, e também o fato de o terreno ter uma área maior em um das extremidades.

“Todos esses fatores foram determinantes para posicionar os edifícios no terreno. Era importante entender como o edifício seria visto de longe, a partir da marginal do rio Pinheiros e da ponte Eusébio Matoso. Esse eixo ajudou a estudar a posição exata das torres, deixando uma mais a frente da outra”, diz a arquiteta. Naturalmente, na parte maior do terreno, foram instaladas as duas torres, interligadas por uma marquise que abriga parte do edifício amenity, com 2.600 metros quadrados, dois pavimentos e cobertura protegida por jardins, que são avistados do alto das torres. No lado mais estreito encontra‑se o edifício técnico, com 960 metros quadrados.

Contratado para desenvolver o projeto arquitetônico, o escritório Pelli Clarke Pelli Architects contou com o trabalho do escritório aflalo/gasperini arquitetos, que fez o estudo de viabilidade, tropicalização e desenvolvimento técnico. O projeto foi realizado em duas etapas: no início o escritório norte americano contou com a assessoria da equipe do aflalo/gasperini para as questões legais, adaptando o projeto conceitual à legislação municipal e às normas do corpo de bombeiros; na segunda fase, o escritório brasileiro assumiu a frente do projeto e, sob a consultoria do autor, começou a desenvolver os projetos pré-executivo, executivo e detalhamento, com o auxílio de projetistas complementares e consultores internacionais. 

As duas torres são semelhantes, porém existem variações no térreo, átrio e em algumas lajes. Para acomodá-las melhor no terreno, há um giro de 90 graus em planta entre elas. O lobby de cada uma delas tem fachada com pé direito de cerca de 10,5 metros, vedada com vidros temperados, laminados e serigrafados, de controle solar. De acordo com o consultor de fachadas Crescêncio Petrucci, a fachada dos lobbies tem vidros agrafados, com sistema “pach fiting”, que consiste na fixação pontual dos mesmos através de peças de aço inox, sem a necessidade de furação, como acontece no sistema spider glass, por exemplo.

Os lobbies estão protegidos por uma sobreposição de marquises pergoladas, sendo a primeira instalada a cerca de 4,5 metros do chão e a segunda a 6,5 metros. Elas têm estrutura em aço, revestida com chapas de inox, sendo parcialmente vedadas com vidros laminados e serigrafados, com o mesmo sistema de fixação do envidraçamento do lobby. Em balanço variável de até 7,5 metros, a estrutura metálica das pérgolas está ligada aos pilares da estrutura da edificação, sendo sustentada por esse travamento, sem auxílio de cabo ou tirantes.

FORMA ESPIRAL
A arquiteta Flavia Marcondes conta que, como o potencial construtivo era grande - gabarito de 140 metros e lajes entre 1.805 e 2.570 metros quadrados -, se todos os pavimentos tivessem a mesma planta, os volumes seriam muito grandes. Para quebrar essa volumetria, o arquiteto Cesar Pelli criou áreas maiores para os primeiros pavimentos e menores para os pavimentos superiores. O arquiteto também colocou um detalhe na fachada, chamado de wrap ou slope, dando o efeito de espiral nas torres. Com isso ele conseguiu cortar os dois volumes para dar esbeltez e dinamismo, os diferenciando do entorno.

O desenho espiral é feito na própria estrutura mista de concreto e metal. Ela é variável nas pontas, formando o detalhe da espiral do edifício. Ainda, cria uma diferença de plano entre as duas fachadas, dando o aspecto de torção. As torres possuem duas torções: uma com inclinação positiva e outra com inclinação negativa. Cada torção se desenvolve ao longo de duas fachadas, começando pelo primeiro andar e seguindo até a cobertura. A variação dos pavimentos vai revelando a espiral, enquanto a caixilharia dá o acabamento, fazendo os planos inclinados em positivo e negativo. 

SOLUÇÃO PARA A ESPIRAL
Fabricada com o sistema unitizado, a fachada cortina das torres tem geometria complexa, segundo o consultor Crescêncio Petrucci. Ela é composta por trechos retos e curvos (facetados) em planta, fechando todo perímetro dos andares, sendo módulos verticais até o 14º pavimento e com inclinação variável, para dentro, a partir desse pavimento até a cobertura. A envoltória é seccionada por duas faixas de vidro medindo 2,50 metros de largura, inseridas em faces opostas. Uma faixa tem inclinação positiva e a outra negativa, ambas de 69º em relação ao plano horizontal. 

Esses trechos inclinados - denominados slope positivo e slope negativo - começam em fachadas opostas e seguem circulando o prédio na mesma cadência, dando a impressão de uma espiral. “Cada slope passa por duas faces diferentes, acompanhando toda a extensão da fachada, do mezanino à cobertura, ora interceptando um trecho reto vertical, ora interceptando o trecho facetado das esquinas de cada torre, explica Petrucci. 

A torção foi, sem dúvidas, um dos grandes desafios do projeto de fachadas. As duas faixas inclinadas interceptam a fachada em trechos retos verticais, facetados verticais, vértices do prédio no trecho vertical, e depois repetem essas mesmas situações, quando a fachada passa a inclinar para dentro, a partir do 14º pavimento até a cobertura. O sistema de fachada foi desenvolvido especialmente para essa obra, resultando na criação de cerca de trinta novos perfis, alguns com liga e têmpera especiais para suportar os esforços previstos. Os perfis foram dimensionados a partir dos resultados de ensaio de túnel de vento realizados no laboratório RWDI Consulting Engineers and Scientists, no Canadá. 

Todas as soluções foram desenhadas em software 3D. Depois, as informações foram compiladas e passadas para os equipamentos CNC (Computer Numerical Control) de corte e usinagem dos perfis. “Sem isso, não seria possível produzir uma fachada com tamanha complexidade”, observa Petrucci. “A diferença de planos da fachada, por exemplo, foi resolvida com desenvolvimento de perfis e soluções de vedação customizadas para cada situação apresentada na fachada”, diz ele. 

Outro desafio apontado pelo consultor foi o fato de a junta entre os painéis de fachada ocorrer a 3,10 metros do piso, implicando em uma condição mais complexa em relação à estabilidade dos módulos, durante a sua instalação. Para evitar que ocorresse algum acidente, em função de rajadas de vento, foi necessário conectar os painéis em uma linha de cabo de aço. Além dos dispositivos de segurança, o acesso para executar a vedação da junta entre os painéis era sempre feito pelo andar superior, com grande dificuldade de execução. 

Nos trechos mais regulares a fachada tem modulação padrão, com dimensões de 1,25 metro de largura e 4,28 metros de altura. Mas, devido à sua geometria, as medidas sofrem ajustes nos vértices do prédio e também nos trechos de interfaces com os slopes positivo e negativo. Os módulos slope têm 2,50 metros de largura e 4,60 metros de altura. A partir do 14º andar, por causa da inclinação da fachada para dentro, os módulos mantém a largura, mas a altura passa a ser variável por pavimento. Nos vértices, a medida dos módulos tem outra cadência, pensada pelo arquiteto para que as linhas verticais da modulação da fachada coincidissem também a partir do 14º andar, quando a esquadria passa a inclinar para dentro. 

De acordo com o engenheiro Marlon Archas Bezerra, diretor técnico da Tecnofeal, o projeto de fachada foi executado em 24 meses em 33 etapas, sendo que cada etapa representa um pavimento completo em cada torre. Essa foi a melhor solução para montar o slope. Como o edifício é mapeado por coordenadas cartesianas, a montagem pode ser iniciada por qualquer um dos pontos. A empresa foi responsável pelos insumos e pela engenharia de produção, fabricação e instalação das fachadas, a partir de projeto executivo e coordenação técnica na obra, feitos pela Permasteelisa. Para os 25 mil metros quadrados de área de fachada de cada torre, foi desenvolvida uma linha exclusiva de perfis, visando o melhor desempenho do sistema com o menor emprego de alumínio. Ao total, foram utilizadas 803 toneladas de alumínio. 

FACHADAS EFICIENTES
Crescêncio Petrucci conta que todos os componentes do vidro tiveram que passar por tratamento térmico, porque as placas de vidro das fachadas têm três zonas distintas de temperatura. Na parte superior do vão da zona 1, o vidro está sombreado pelo brise e, internamente, está sob a ação do ar condicionado. Na zona 2, logo abaixo, o vidro não está protegido pelo brise e a incidência solar direta o aquece, mas internamente ele também está sob influência do ar condicionado. Já na zona 3, abaixo do peitoril, o vidro não tem a proteção do brise e aquece sob a influência do sol. Internamente ele possui o shadow box que, por sua vez, aquece com a incidência do sol e dissipa esse calor para o vidro, devido a adoção da manta de isolamento térmico interna. Os estudos da consultoria internacional de sustentabilidade Atelie Ten indicaram uma fachada com peitoril, vidros laminados insulados, do piso ao teto, e brises em todas as faces. 

Segundo a diretora de marketing e produto da GlassecViracon, Claudia Mitne, a especificação dos vidros foi desenvolvida desde o início com a equipe da arquitetura e de consultores, considerando requisitos de desempenho energético para atender a certificação Leed Platinum e o design diferenciado do projeto. “Todos os requisitos de qualidade dos produtos fornecidos foram muito mais restritivos que as normas nacionais (NBR) e internacionais (ASTM), a fim de garantir excelência de produto quanto ao desempenho técnico e ao design”, diz ela. 

A GlassecViracon investiu em sua linha e em seu laboratório para assegurar que os indicadores cumprissem os requisitos de processos e produtos dessa obra. A modulação dos vidros exigiu peças em diferentes tamanhos e formatos, como trapézio e triângulo. Os vidros do slope negativo, em parte da torção, contemplaram uma configuração com mais um vidro laminado no conjunto, para garantir segurança extra. “O processo é o mesmo, mas exigiu mão de obra mais dedicada em algumas peças para o ajuste aos vãos”, detalha Claudia. 

A empresa forneceu cerca de 50 mil metros quadrados de vidros para as fachadas das duas torres. Para o vão luz foram 43 mil metros quadrados de insulados laminados temperados de controle solar, com espessuras de 30 e 32 milímetros e câmara de 12 milímetros (fator de proteção solar de 29%, transmissão luminosa de 40%, coeficiente de sombreamento de 0,34). Nas áreas cegas foram utilizados 7.200 metros quadrados de vidros serigrafados de 11 milímetros de espessura (fator de proteção solar de 27%, transmissão luminosa de 2%, coeficiente de sombreamento de 0,32). Colados nos perfis de alumínio com silicone estrutural de alto desempenho, os vidros também receberam moldura de alumínio, para proteger suas bordas.

OS ENSAIOS DAS FACHADAS
Um protótipo da fachada do São Paulo Corporate Towers foi submetido a ensaios no laboratório Construction Research Laboratory (CRL), em Miami, uma das referências mundiais, que opera desde 1955 no setor. Os ensaios foram realizados com mock-up de três pavimentos completos, com medidas de 8,75 metros de largura e 12,85 metros de altura, composto por trecho inclinado slope positivo e trecho reto com módulo padrão. 

Todos os resultados atenderam plenamente aos requisitos das normas nacionais e também da norte-americana ASTM (American Society for Testing and Materials), aplicada quando não havia norma brasileira equivalente. Além dos testes previstos pela NBR 10821, o sistema passou por outros ensaios internacionais, conforme detalha o consultor de fachadas Crescêncio Petrucci. 

ENSAIO DE CARGA SOBRE O "WASHING BOTON"
Nesse ensaio foram aplicadas cargas em quatro direções, para avaliar a resistência mecânica dos dispositivos de estabilização do sistema de limpeza e manutenção da fachada, que está diretamente conectado aos perfis de alumínio da fachada cortina. Na cobertura das duas torres, as fachadas têm um sistema de limpeza e manutenção, através de equipamento elétrico mecânico com gôndola. Esses equipamentos possuem um guincho, para troca eventual de vidros, acoplado ao sistema da gôndola. 

ENSAIO DINÂMICO DE ESTANQUEIDADE
A fachada foi submetida a uma pressão de vento dinâmica, exercida por uma hélice de avião com rotação controlada, ao mesmo tempo que foi aspergida uma quantidade normatizada de água por metro quadrado de fachada. A turbulência provocada pela hélice do avião, associada à água circulando pela superfície externa da fachada, indica um ensaio muito rigoroso sobre a estanqueidade de todo o sistema. 

ENSAIO TÉRMICO
O objetivo é determinar o comportamento da fachada, sob variação brusca de temperatura. Esse ensaio contou com três ciclos completos de aquecimento e redução da temperatura externa da fachada e monitoramento constante pelo lado interno, através de termopares (sensores de temperatura simples). O ensaio demorou cerca de quatro dias e necessitou de recursos, como câmara térmica de grande dimensão, com sistema de resfriamento através de nitrogênio líquido, e sistema de aquecimento com lâmpadas infravermelhas. 

REMOÇÃO E INSTALAÇÃO DE VIDRO TÍPICO DA FACHADA
Simulando as condições reais de substituição de um vidro, esse ensaio foi determinante para avaliar as condições de uma possível troca. Isto porque, no caso desse projeto, detalhes como o perfil de proteção da borda do vidro, o acesso apenas parcial pelo lado interno e a interferência externa do brise, poderiam dificultar ou até mesmo impedir a possibilidade de troca.



Ficha Técnica

São Paulo Corporate Towers
Localização São Paulo, SP
Projeto 2008 / 2015
Obra 2016
Área do terreno 38.858,82 m²
Área construída 257.799,74 m²  

Arquitetura Pelli Clarke Pelli Architects (autores) e aflalo/gasperini arquitetos - Roberto Aflalo Filho, Luis Felipe Aflalo Herman, Grazzieli Gomes Rocha, José Luiz Lemos (co-autores); Flavia Marcondes (diretora), Geane Kaori Natsumeda, Paula Homsi, Luciana Maki, Livia Fantin, Camila Suganuma e Renata Scheliga (colaboradores)
Construção Camargo Corrêa
Fachadas Crescêncio Petrucci (consultoria); Tecnofeal (fabricação e montagem); Permasteelisa (projeto executivo e coordenação técnica)
Estrutura metálica Kurkdjian e Fruchtengarten Engenheiros Associados / Codeme
Estrutura de concreto França e Associados
Consultoria de Sustentabilidade Atelier Ten / CTE
Paisagismo Balmori Associates (conceitual) / Sérgio Santana (detalhamento)

Fornecedores

Vidro torres GlassecViracon / Guardian
Vidros lobby/marquise Grupo Galtier / Penha Vidros
Perfis de alumínio Belmetal / CBA
Silicone estrutural Momentive Performance

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 103
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