KPF e ARQ&URB Projetos: Vista Mauá, RJ

CONCEITO EM ÂNGULOS SUGERE ONDULAÇÕES

Colunas instaladas de forma irregular no perímetro da torre originaram o conceito em ângulos das fachadas, compondo um zigue-zague facetado de diferentes medidas, com a intenção de refletir as ondas do mar e definir o edifício com uma expressão contemporânea. Para a concepção dessas fachadas foram criadas dez ferramentas exclusivas

Parte das fundações do edifício Vista Mauá já estava executada, quando o empreendedor considerou a possibilidade de repensar o projeto para criar uma torre com design mais atraente, para fazer jus a sua localização, vizinha à avenida Rio Branco e à praça Mauá, área que passou a ser conhecida como Boulevard Olímpico durante os jogos de 2016 no Rio de Janeiro. A nova concepção arquitetônica, assinada pelo escritório Kohn Pedersen Fox Architects (KPF), tirou partido da disposição do terreno de duas frentes, voltadas para as ruas São Bento e Dom Gerardo. No lote de formato trapezoidal alongado, com 1.470,64 metros quadrados, foi possível construir um edifício com quatro fachadas. Duas delas principais, uma voltada para cidade e a outra para o mar, enquanto a lateral oeste está encostada à edificação vizinha e a face lateral leste permanece afastada.

Um dos desafios do projeto foi trabalhar dentro do quadro estrutural das bases existentes e dos espaçamentos de colunas irregulares, conta o arquiteto William Louie, do escritório KPF. Foi necessário integrar as áreas de garagem, nos primeiros níveis do prédio, para melhorar a vista dos escritórios e tirar partido da vista para o mar. A ideia era ter uma expressão arquitetônica singular, que trabalharia o edifício de cima para baixo. A torre tem 79,44 metros de altura e área construída de 29.631,98 metros quadrados, distribuída em 23 pavimentos, sendo cinco no embasamento, 16 destinados às salas corporativas e a casa de máquinas.

Para o térreo, os arquitetos optaram por um lobby espaçoso e um porte cochère com vão estrutural de sete metros e pé direito duplo para abrigar a chegada de veículos no nível da rua. As fachadas do térreo estão voltadas para o mar e para a cidade. Sua transparência foi importante ao nível da rua para permitir a integração com as calçadas que cercam o edifício. Por isso foram usados grandes panos de vidro, combinados com revestimentos de madeira. As placas de vidro extra clear temperado e laminado de 20 milímetros (2 metros de largura e 4 metros de altura) foram fixadas em perfis U de aço inox. Um perfil está embutido no piso e o outro na estrutura do prédio, com junta seca vertical entre os vidros. Além da pele vidro foram aplicados perfis de aço corten, para acompanhar a cor da madeira. Ambos os materiais trabalham juntos para dar uma base forte para a fachada cortina.


FACHADAS ONDULADAS 

A concepção das fachadas se deu após o planejamento funcional do núcleo central sem colunas no espaço de escritórios. As colunas instaladas irregularmente no perímetro da torre originaram o conceito em ângulos das fachadas, compondo um zigue-zague facetado, com medidas diferentes e também variando as inclinações laterais dos montantes. Para a execução da fachada convencionou-se chamar os pontos que se projetam para fora de pico e os para dentro de vale. “A intenção era refletir as ondas do mar nas fachadas e ao mesmo tempo definir o edifício de vidro e metal, com uma expressão moderna, voltada para o futuro. Elas não são iguais, pois têm variações de ângulos e planos de inclinações que formam as ondulações nas faces norte e sul”, define o arquiteto William Louie.

A torre tem três fachadas envidraçadas. Ao norte, a face principal, inserida na rua Dom Gerardo, possui brises feitos com tubos de alumínio pintado e perfis de aço corten nos primeiros e nos últimos trechos da fachada. Tal solução permite vedar e ao mesmo tempo ventilar os pavimentos de garagem do embasamento. A mesma combinação se repete na face oposta, voltada para a rua São Bento. Na divisa do terreno à esquerda, a fachada lateral leste tem empena no embasamento e pano de vidro plano iniciando acima do prédio vizinho.

Para a escolha de materiais foram feitos estudos que indicaram o uso de vidro laminado com alta eficiência energética. A especificação dos vidros atendeu requisitos de cor e alto desempenho. “A solução atende aos aspectos térmicos, através da utilização de vidros com excelente balanço entre a entrada de luz e o bloqueio da entrada do calor e acústicos, por meio da atenuação em torno de 35dB, além do quesito de segurança exigido pela NBR. Os vidros laminados SNL 37 prata de 10 milímetros tem fator de proteção solar de 29%, coeficiente de sombreamento de 0,33 e transmissão luminosa de 36%”, segundo Eder Oliveira, coordenador de vendas da GlassecViracon, no Rio de Janeiro, responsável pelos estudos, produção e fornecimento dos vidros beneficiados.

No total, foram utilizados dez mil metros quadrados de vidros, sendo 30% vidros modelados para compor o projeto das fachadas com trechos » inclinados e facetados, que demandaram grande variação de dimensões e formatos. De acordo com o arquiteto Louie, a paginação dos vidros foi determinada pelo ritmo dos vales e picos. 


SOLUÇÃO DE FACHADAS 

O projeto executivo de arquitetura previa o início da fachada a partir do primeiro pavimento tipo, em linha reta paralela à estrutura, e com a inclinação dos montantes se acentuando nos andares superiores em ambos os eixos, paralelo e ortogonal à linha inicial, formando vários panos com inclinação. Ao estudar essas condicionantes, a dupla de engenheiros responsável pelo projeto executivo das fachadas, Mario Newton Leme e Alexandre Nonato, respectivamente, diretor e gerente técnico da Mario Newton Leme Consultoria de Esquadrias, concluiu que as áreas inclinadas não formavam uma superfície plana, acarretando uma torção dos painéis e, consequentemente, dos vidros e uma grande variedade de medidas de painéis e vidros.

Mario Newton Leme conta que mediante essas informações, confirmadas pelo escritório KPF, e o fato de a obra ser extremamente complexa - tanto para a execução das esquadrias como para a estrutura -, o incorporador GTIS, solicitou alteração no projeto da fachada, que permitisse a formação de planos inclinados sem a necessidade de torção dos painéis. A solução foi começar a fachada já com a formação de ângulos.

Tanto os pontos que se projetam para fora, como os projetados para dentro, e também as travessas horizontais intermediárias dos painéis, são no sistema structural glazing, com junta vedada por silicone entre vidros. São eles que ficam inclinados lateralmente. Os perfis verticais são os montantes estruturais que, por exigência da KPF, possuem detalhe de um perfil com três milímetros de espessura faceando as bordas verticais e horizontais dos vidros, no perímetro de cada painel, fixado por encaixe. Foi necessário também desenvolver os perfis estruturais dos cantos das fachadas.

As fachadas e os vidros foram fabricados com as medidas teóricas do projeto de estrutura, considerando a folga necessária para absorção das variações de prumo e níveis. O sistema que se adequou às características da fachada foi o structural glazing unitized da linha TropTec UC 64 SG.NI, da Schüco, tendo montantes com vista frontal de 64 milímetros e profundidade de 119 milímetros.

Segundo Vitor Reis, projetista da Schüco do Brasil, “foram desenvolvidas dez ferramentas exclusivamente para este projeto, devido a um friso em torno do perímetro dos módulos da fachada, conforme proposto pela arquitetura. Foram duas ferramentas para os montantes macho e fêmea, um montante central para execução dos vincos transversais, quatro ferramentas para os montantes dos cantos com ângulos de 61.8°, 96.6° e 124°, uma travessa superior, uma travessa intermediária e uma travessa inferior. Os módulos eram facetados e os montantes foram ligados às travessas superior, intermediária e inferior através de conexões dimensionadas através de software específico para cálculos de fachada tridimensional”.

Os consultores explicam que “os montantes estruturais foram dimensionados em função do pé direito dos pavimentos e para poder receber dois módulos de painéis. Eles foram adaptados para incorporar o elemento estético vertical junto às bordas dos vidros. Foi necessário prever perfis com ângulos diferentes para poder executar os detalhes de picos e vales das fachadas. Conforme a situação do conjunto na fachada, uniam-se dois módulos em um mesmo painel, com as travessas em ângulo reforçadas para vencer o vão correspondente. Como os montantes verticais têm o baguete estético, sendo que pela angulação da fachada a existência do mesmo acarretaria um vidro muito estreito em diversas situações, ele foi eliminado e colado externamente no vidro um perfil “U”, para reproduzir o efeito proporcionado pelo perfil decorativo”.

“Os vidros foram colados com silicone estrutural em perfis de alumínio com acabamento de superfície em pintura eletrostática a pó prata RAL9006B. A junta vertical entre os vidros de 12 milímetros de espessura foram vedadas com três barreiras de vedação em EPDM. As juntas horizontais, nos trechos da travessa intermediária de 12 milímetros e nas junções dos módulos com 13 milímetros de espessura, possuem duas linhas de vedação. A primeira linha é feita com espuma expansiva e a segunda com gaxeta siliconada”, detalha Vitor Reis.

Segundo Alexandre Nonato, nos pavimentos garagem a fachada é revestida por painéis modulares de tubos de alumínio de 50 x 50 milímetros, com olhais internos para sua fixação, posicionados horizontalmente com 50 milímetros de distância entre si e junta vertical de 15 milímetros entre painéis. Estes brises fizeram a transição da fachada com ângulos para a esquadria em linha reta do térreo, exigindo grande precisão no corte dos tubos, para absorver a torção destes perfis nos painéis.


ENSAIOS

As fachadas passaram por testes de verificação da penetração de ar, estanqueidade a água e comportamento sob cargas uniformemente distribuídas, conforme NBR 10821-3:2011. “Todos os ensaios atenderam às exigências da norma, inclusive quando aplicado uma pressão de 300Pa durante a verificação da estanqueidade a água, sendo o sistema classificado quanto ao nível de desempenho superior”, afirmam os consultores. Para os testes realizados na câmara do Instituto Tecnológico da Construção Civil (Itec) foi construído um protótipo de fachada com seis painéis fixos de vidro na dimensão linear total de 5.011 milímetros de largura e 8.440 milímetros de altura.

Além dos ensaios no protótipo, posteriormente, com as fachadas prontas no prédio, foram realizados testes em diversos pontos, de acordo com a norma AAMA 501.2-03 “Diagnóstico e Garantia de Qualidade da Estanqueidade Verificadas em Campo de Fachadas Cortinas”, para comprovação final do resultado onde foram sanados eventuais problemas pontuais de instalação.

Segundo o arquiteto Edmundo Musa, como o terreno está em área histórica da cidade, foi efetuado acompanhamento arqueológico e encontrada uma antiga galeria de águas pluviais preservada na calçada da rua Dom Gerardo, coberta por vidros temperados para possibilitar a visualização pelos transeuntes.



Ficha Técnica

Vista Mauá
Cliente GTIS Partners
Local Rio de Janeiro
Área do terreno 1.470,64 m2
Área construída 29.631,98 m2
Projeto janeiro de 2012
Conclusão da obra junho de 2015  

Arquitetura Kohn Pedersen Fox Architects (autores do projeto), William Louie (arquiteto coordenador), ARQ&URB Projetos (legalização e projeto executivo), Edmundo De Cesaro Musa (supervisão); Cristiana Braga (coordenadora)
Construção João Fortes Engenharia
Fachadas Mario Newton Leme (consultoria); Curtinwall Design Consulting (projeto), Schüco (sistema e fornecimento de materiais), Strunor (fabricação e montagem)
Estrutura de concreto Soma Engenharia (projeto), CEC Engenharia (verificador)
Acústica Roberto Thompson Motta (consultoria)

Fornecedores

Vidros GlassecViracon (estudos, consultoria e beneficiamento); Guardian (vidro float) Fachadas Schüco do Brasil (sistemas)
Portas automatizadas Dorma

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 101
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