EA/UFMG e José Eduardo Ferolla: Centro de Treinamento Esportivo

Envoltória curva em centro esportivo

Com grande volumetria e concepção espacial orgânica, o pavilhão da piscina do Centro de Treinamento Esportivo da UFMG ganhou cobertura curva, que se prolonga para uma das fachadas, composta por estrutura metálica treliçada, telhas metálicas, elemento isolante e membrana TPO, para garantir a estanqueidade

Com área construída total de 18.758 metros quadrados, o Centro de Treinamento Esportivo da Universidade Federal de Minas Gerais (CTE – UFMG) é destinado à capacitação de atletas olímpicos, através da formação de alto nível e intercâmbios internacionais. A edificação está dividida em três pavimentos. No térreo encontram-se áreas de apoio aos atletas vinculados à natação e ao atletismo, como vestiários, depósitos, restaurante, consultórios e salas de fisioterapia, entre outras. O segundo pavimento abriga o setor administrativo e patamar técnico. O terceiro andar é destinado à piscina, vestiários, depósito, sala de árbitros e de hidromassagem. De acordo com o arquiteto e coordenador do projeto José Eduardo Ferolla, a piscina foi instalada no último andar, devido à baixa profundidade do lençol freático no terreno.

O CTE possui também uma pista de atletismo e ocupa, no total, cerca de 7,1 hectares na parte mais baixa do terreno do Centro de Esportes Universitários (CEU-UFMG). Com grande volumetria e concepção espacial orgânica, o pavilhão da piscina foi construído com estruturas mistas - pilares e lajes de concreto armado com vigamentos e coberturas metálicas. Mas o destaque dessa edificação fica por conta de sua envoltória - uma cobertura curva que desce e se prolonga para a fachada oeste. É composta por uma capa, cuja primeira camada, responsável pela imagem visual e pela proteção, trabalha sobre um conjunto de outras camadas, responsáveis pelo isolamento termoacústico. “A superfície deste invólucro foi cortada por fendas opacas ritmadas, destinadas à coleta da água das chuvas e saída do ar aquecido da piscina”, detalha o arquiteto. No lado leste e face lateral norte, as fachadas receberam panos de vidros.

As fachadas envidraçadas desempenham importante papel no conjunto, por oferecer luz e ventilação naturais e permitir integração com exterior, com uma vista privilegiada para todo o conjunto do CTE até a linha arborizada junto às arquibancadas, ao fundo. Como complemento dessas fachadas, foram criados painéis, produzidos com tijolos queimados, aplicados em uma estrutura secundária e fixados com o auxílio de uma treliça metálica, que garante a amarração e a sustentação do conjunto. Na fachada leste, duas caixas envidraçadas abrigam a circulação vertical, composta por escada e elevador.

Segundo o arquiteto Juliano Nemer, um dos coordenadores do projeto na etapa final, para a vedação do terceiro pavimento - onde fica a piscina aquecida -, foi elaborado um estudo detalhado que evita a condensação do vapor. Neste, o vão luz recebeu uma estrutura de chapa metálica perfurada em Z, que sustenta as chapas de vidro, com dimensão de três metros de largura por um metro de altura. Essa solução permite a ventilação natural do ambiente e evita a condensação da água. No piso térreo, a fachada tem caixilhos fixos e portas de vidro de grandes dimensões.

Diversas medidas foram adotadas para melhorar a eficiência energética da edificação. Desde a orientação solar adotada na implantação até a escolha dos materiais, passando pela coleta e utilização das águas pluviais e dos resíduos do tratamento da piscina, para irrigação das áreas externas e faxina de todo o conjunto. Há um sistema de aquecimento passivo da água - das piscinas e dos vestiários - com terminais dotados de temporizadores de uso, evitando-se desperdícios decorrentes de perdas e/ou vazamentos involuntários.

Estrutura curva
O desenho arquitetônico do pavilhão aquático, com pé direito de cerca de dez metros, trouxe alguns desafios para os projetos executivos. Um deles foi a dificuldade para vencer o trecho curvo, de difícil angulação, segundo Fernando Carneiro, diretor da Techneaço, empresa responsável pelo projeto, fabricação e montagem das estruturas metálicas. Na fachada oeste e na cobertura, a estrutura metálica é formada por sete treliças principais, compostas por tubos redondos, apoiadas em dois pontos - no solo e sobre a parte superior da edificação. Essas treliças formam arcos côncavos e convexos, o que tornou complexa a fabricação e montagem. Entre elas, existem calhas metálicas arquitetônicas, dispostas na parte transversal da cobertura, com dimensões variáveis e curvas, que dificultaram a fabricação e montagem.

Na face oeste, a estrutura está fixada no solo enquanto na face leste ela é apoiada sobre a estrutura do prédio. As cargas consideradas para dimensionar a estrutura são a de peso próprio, cobertura de telhas de 25 kgf/ m², vento conforme NBR 6123, variação de temperatura de ±15°C, sobrecarga na cobertura de 50 kgf/m². Nas fachadas além do peso próprio foram considerados 40 kgf/m² para a estrutura de vidro. Terças repassam as cargas para as treliças, e essas para as fundações.

Para garantir a estabilidade do conjunto estrutural, as treliças são travadas por terças e contraventamentos horizontais. Os contraventos estão dispostos entre as terças, na cobertura, e entre alguns pilares, que apoiam a parte superior da estrutura. No trecho final da cobertura, as treliças ficam em balanço de 11 metros e formam um grande beiral de sombreamento da fachada envidraçada.

Fechamento duplo
O arquiteto Juliano Nemer lembra que, devido ao raio de curvatura pequeno da cobertura, era impossível vencê-lo apenas com telhas metálicas convencionais, garantindo total estanqueidade. A possibilidade de telhas calandradas não atendia a estética do projeto, devido aos frisos que se formariam na junção das telhas. Foi cogitada a adoção de telhas de alumínio zipadas, porém o custo era inviável para o orçamento do convênio.

Assim, depois de muitos estudos, a vedação adotada é um conjunto de materiais formado por telha metálica interna e externa, isolante em poliisocianurato (criando a planicidade) e membrana TPO, que garante a estanqueidade. Instalada em toda a área, a telha interna trapezoidal TP40 de 0,65 milímetros de espessura, pré pintada na cor branco Ral 9001, funciona como um substrato para receber a membrana, o isolamento térmico para a cobertura, e a telha externa com isolamento térmico em lã de poliéster.

Para o engenheiro Gustavo Pércope Orlando, diretor técnico comercial da Mensure Engenharia, responsável pelo projeto e execução da envoltória curva, foi necessário desenvolver solução técnica específica para adequar a instalação das telhas metálicas a uma estrutura de segmentos retos. Na fachada oeste, foi feita uma subestrutura auxiliar em cantoneiras tipo L, com furos oblongos fixados nas terças principais, para ajuste do raio de curvatura. Assim foi possível instalar as telhas metálicas internas multidobra e externas calandradas.

Para facilitar sua instalação, a envoltória curva de 7.650 metros quadrados foi dividida em três trechos: fechamento frontal (trecho A), curvatura (trecho B) e cobertura (trecho C). Na face frontal, a vedação recebeu telha externa ondulada, fabricada em aço galvalume, com espessura de 0,650 milímetros, altura de 17 milímetros e largura útil de 980 milímetros, pré pintada na cor cinza escuro RAL 7035. A fixação das telhas na estrutura se deu através de parafusos autobrocantes. Todas as terças estruturais receberam uma fita anticorrosão, para apoio da telha, e fitas tacky type nas sobreposições, para evitar que a umidade acumule na parte interna da cobertura.

Devido à baixa inclinação e ao segmento curvo, o trecho B, que compreende o início da curva, no topo da fachada, e termina no início da cobertura, recebeu telha metálica dupla combinada com membrana TPO de 1,15 milímetros de espessura, na cor cinza, para dar estanqueidade total à área interna da edificação.

As mantas foram posicionadas com uma sobreposição de no mínimo 150 milímetros entre elas. As emendas entre as mantas receberam soldas com ar quente. A mesma membrana foi aplicada no trecho C e fica aparente até o final da cobertura. “Para não perfurar a telha interna, evitando a corrosão, a membrana foi fixada através de adesivos especiais” lembra o engenheiro Gustavo Pércope Orlando.

A montagem realizada em etapas teve início com a instalação da telha inferior trapezoidal, depois foi o sistema de isolamento e membrana TPO da cobertura. Na terceira etapa aconteceu a instalação de todo o isolamento e telha externa do fechamento frontal, até o final da curva. Por último, foram feitos os rufos e acabamentos.

A construção do Centro de Treinamento Esportivo da Universidade Federal de Minas Gerais (CTE – UFMG) resulta de convênio entre a escola mineira e a Secretaria de Estado de Esportes e da Juventude (SEEJ-MG), com gestão administrativa, técnica e científica da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Terapia Ocupacional (EEFFTO-UFMG). O projeto foi desenvolvido pela equipe da Escola de Arquitetura da UFMG (EAUFMG), com coordenação do arquiteto José Eduardo Ferolla.



Ficha Técnica

Centro de Treinamento Esportivo da UFMG
Local Belo Horizonte, MG
Cliente Universidade Federal de Minas Gerais  
Área do terreno cerca de 7,1 ha
Área construída 18.758,00 m²
Projeto dezembro/2010 a março/2013
Conclusão da obra dezembro de 2015

Arquitetura José Eduardo Ferolla (coordenador); André Guazzelli (segunda etapa), Denise Morado (primeira etapa), Eduardo Mascarenhas Santos, Janaina Marx Pinheiro, Juliano Nemer (etapa final e obra), Junia Ferrari, Leandro Souza Onofre (equipe); Flávia Garcia Costa, Flávia Lamary Fernandes Lutkenhaus, Guilherme Vasconcelos, Luiza Thompson, Marcus Costa Braga Soares, Rafael Motta Fontenelle de Araujo, Sarah Floresta Leal (colaboradores acadêmicos)
Consultor técnico Omar Souki
Estruturas engenheiro Ari de Paula Machado
Construção Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa (Fundep)
Fachada de vidro Vidroser (fabricação e montagem)
Fachada oeste e cobertura Mensure (projeto, fabricação e montagem da membrana e telha)
Estrutura metálica Techneaço Engenharia (projeto, fabricação e montagem)
Orçamento, cronograma Planilhar Engenharia
Acústica Oppus Acústica (consultoria)
Instalações hidrossanitárias engenheira Rosária Queiróz
Instalações elétricas/ comunicação/ segurança engenheiro Fernando Neves Cordeiro
Fotos Eduardo M. Santos e Juliano Nemer

Fornecedores

Vidros Vidroser 
Perfis metálicos Techneaço 
Telhas Perfilor 
Membrana TPO Firestone

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 104
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