Carlos Bratke: Edifício Jacarandá, São Paulo

Vidro colorido nas fachadas em balanço

Duas lâminas curvas de 62,50 metros de extensão, instaladas em balanço de sete metros e ancoradas em estrutura metálica, ganharam módulos unitizados, compostos por vidros de elevado desempenho energético, em tons de verde, amarelo e cinza. Eles compõem as fachadas do edifício Jacarandá, projetado pelo arquiteto Carlos Bratke.


Para atender à proposta do projeto arquitetônico, de construção de duas grandes fachadas curvas em balanço, o edifício Jacarandá tem sua estrutura de concreto envolvida por estruturas metálicas que ancoram os módulos unitizados de vidros coloridos. No lado oposto às lâminas curvas, duas outras faces ganharam terraços de três metros de largura e 16,80  metros de comprimento. Essa envoltória define a identidade do prédio, implantado na rua Sansão Alves dos Santos, região da avenida Luís Carlos Berrini, em São Paulo.

De acordo com o engenheiro Aluízio Alberto Monteiro d’Ávila, responsável pelo projeto da estrutura de concreto, exigências da arquitetura, sobretudo os vãos de cerca de 24 metros, impuseram vários desafios no desenvolvimento do projeto e do cálculo estrutural. A  estrutura tem 
33  pilares, lajes maciças de concreto armado convencional e vigas chatas protendidas. No primeiro andar, nas faces onde estão as sacadas, uma viga de transição de 40 centímetros de largura e 340 centímetros de altura sustenta o corpo do edifício. As cargas são distribuídas nesta viga e nos pilares circulares que estão no térreo.

Com certificação Gold de sustentabilidade, o prédio tem três pisos em subsolo, térreo com café, espaço para lazer e lobby de entrada, um mezanino, cinco pavimentos-tipo e cobertura de 854 metros quadrados para escritório. Todo esse conjunto está abraçado pelas empenas curvas laterais, dispostas ao norte e ao sul, com 62,50 metros de extensão e 32,40 metros de altura. Elas avançam do corpo do edifício em quatro metros, no embasamento e na cobertura, enquanto nas extremidades estão em balanço de sete metros. “Por uma questão estética, no centro dessas fachadas foi adotada uma reentrância com 3,78 metros de largura e 1,15 metro de profundidade para quebrar a linha muito longa da curvatura. Ao centro dessa reentrância há um pilar revestido com painéis de alumínio composto”, explica o arquiteto Carlos Bratke, autor do projeto de arquitetura.

A caixilharia dessas fachadas curvas está ancorada na estrutura metálica projetada pela empresa Projeto Alpha Engenharia de Estruturas. Segundo o engenheiro e diretor técnico Flávio D’Alambert, também responsável pelo projeto da estrutura do mezanino, “as fachadas possuem estrutura metálica do tipo grelha vertical formada por perfis tubulares, nas faces inferior e superior, engastados nas vigas de concreto na periferia do edifício, e lajes de borda, permitindo os balanços. Graças à solução de grelha com nós rígidos, que absorvem as deformações e os esforços de flexão, não foi necessário utilizar contraventamentos em toda a área de fachada. Porém nas extremidades, devido à necessidade de restringir os deslocamentos dos balanços laterais, foram posicionados tirantes de ferro maciço formando elementos de tração”. É através dos nós rígidos e dos tirantes de tração que se dá o travamento da estrutura.

“Como o sistema do tipo grelha permite vencer grandes vãos e balanços generosos, o desafio foi dimensionar as ligações de modo a ter a rigidez necessária. »
Para  o  cálculo estrutural foram consideradas cargas de vento normalizadas, com picos de pressão e sucção nas extremidades e o peso próprio do sistema de caixilhos mais os vidros. A  distribuição e a transmissão das cargas são feitas uniforme e proporcionalmente nas dezenas de pontos de fixação da estrutura de fachada no corpo do prédio, evitando concentração de esforços”, completa D’Alambert. Para a produção da estrutura metálica de 32 metros de altura foi utilizado o aço estrutural na especificação ASTM A 572 - gr  50 com tratamento de fundo epóxi e acabamento em poliuretano para evitar a calcinação com a ação do sol.

VIDROS COLORIDOS
A modulação do vidro nas fachadas curvas, concebida pelo arquiteto, é composta por uma variação de tons verde, amarelo e cinza, feita com a consultoria da artista plástica Lúcia Koch. Apesar de a combinação de cor ser apenas estética, foram também avaliados os aspectos térmico, de luminosidade e reflexão dos vidros. De  acordo com a diretora de marketing da GlassecViracon, Cláudia Mitne, “todos os vidros das fachadas tinham como meta o desempenho energético, apesar de terem aparências diferentes. As múltiplas cores se devem a componentes distintos: algumas são do vidro revestido e outras resultam da combinação de PVBs coloridos. Para chegar a determinados tons, algumas configurações utilizaram três películas de PVB”.

Como o projeto do edifício já previa a certificação Leed, “a  primeira exigência foi atender ao desempenho energético com vidros de alta eficiência, laminados de controle solar. Os vidros, que deviam oferecer equilíbrio entre as cores propostas, foram definidos após a execução de uma série de mockups para a avaliação estética, no local da obra. Para a envoltória foram especificados, processados e fornecidos seis tipos de vidro de dez e 12 milímetros de espessura, num total de 7,3 mil quadrados”, lembra Cláudia. 

No vão-luz foram usados laminados de controle solar na cor prata acinzentada GL8 com transmissão luminosa de 21%, fator solar de 28% e coeficiente de sombreamento de 0,32; e GL 55m com transmissão luminosa de 43%, fator solar de 39% e coeficiente de sombreamento de 0,45. Na  frente de laje e shadow box foram aplicados os vidros de controle solar coloridos GL1, GL2 e GL3, em tonalidades diferentes de amarelo e verde. No térreo utilizaram‑ se laminados incolores. “O desempenho acústico é um ponto forte do vidro laminado e foi valorizado por uma massa maior de PVBs, devido à combinação utilizada para o design escolhido”, completa Cláudia.

SISTEMA DE FACHADAS
Para o diretor técnico da Itefal, Henrique Ferreira Sabioni de Lima, são várias as particularidades das fachadas do edifício. “A estrutura de concreto é envolvida por estruturas metálicas, promovendo a sensação de fachadas soltas nos trechos laterais, superior e inferior. O conjunto de vidro com shadow box forma uma espécie de mosaico em toda a extensão do pano formado por quatro cores distintas de vidros aliadas a mais duas tonalidades diferentes de shadow box desenvolvidas especialmente para o empreendimento a fim de atingir fielmente os resultados esperados pela arquitetura. Destaca‑ se ainda a modulação horizontal predominante de 2,5 metros dos painéis unitizados.”

O projeto de fachada, que contou com a consultoria da arquiteta Maria Teresa de Godoy, da Arqmate Consultoria e Projetos de Esquadrias, é constituído por fachadas unitizadas, terraços com guarda‑ corpos e portas de giro e fachada stick no lobby do edifício. A obra consumiu 60  toneladas de alumínio e 7,3 mil metros quadrados de vidro laminado. Nas faces frontal e posterior encontram‑ se os terraços de três metros de profundidade e 16,80 metros de comprimento, protegidos por guarda-corpos de vidro laminado. O acesso às varandas se dá através de portas de giro. “A composição destas fachadas deveria seguir a mesma estética das faces curvas, sem perfil de alumínio visível externamente e mantendo a leveza do vidro”, explica Maria Teresa.

Nas fachadas curvas, os vidros laminados de dez milímetros foram colados com silicone estrutural glazing nos perfis de alumínio do sistema unitizado da Belmetal. Os perfis de alumínio com bitola de 120 milímetros receberam pintura eletrostática RAL 9.007 com espessura mínima de camada de 60 micra. Para garantir a estanqueidade da pele de vidro, as juntas verticais e horizontais, com 13 milímetros de profundidade e seis milímetros de largura, foram vedadas com silicone estrutural.

O projeto do térreo atende às questões de legislação, à estética e à solicitação dos empreendedores. Segundo o arquiteto, o térreo em pilotis, circundado por um espelho d’água, obedece à legislação que admite nesse pavimento 27% de área construída não computável. Como se pretendia uma entrada imponente, o pé-direito do térreo tem dez metros, e para garantir a leveza e a transparência ao espaço o lobby do edifício foi vedado com vidros laminados incolores de 12 milímetros, colados nos perfis de alumínio da linha Atlanta da Belmetal. No interior do edifício, as paredes do hall dos elevadores de todos os andares foram revestidas com vidro cinza.

“O fechamento do lobby tem altura livre de 8,10 metros com modulação horizontal predominante de 2,30 metros. Para vencer tais dimensionamentos foram necessários estudos e definições de reforços especiais a fim de atender aos esforços desse fechamento. Para a instalação da caixilharia utilizou-se uma estrutura metálica secundária produzida com perfis de aço galvanizado a fogo revestidos com colunas de alumínio com o mesmo acabamento superficial dos perfis da fachada unitizada”, explica Sabioni.



Ficha Técnica

Obra  Edifício Jacarandá
Cliente Opi-2 São Paulo Empreendimentos Imobiliários
Construção Engeform e Construtora Bratke Collet
Projeto 2012
Conclusão da obra 2015
Área do terreno 5.827,25 m2
Área construída 27.927,89 m2
Arquitetura Carlos Bratke (autor); João Belo dos Santos (colaborador); Antônio Artico, Yuri Chamon e Camila Tambelli (equipe)
Estrutura de concreto Aluízio A. M. D'Ávila
Estrutura metálica Projeto Alpha - Flávio d’Alambert
Fachadas Arqmate - Maria Teresa Faria Godoy (consultoria); Lúcia Koch (consultoria de cores dos vidros); Itefal (fabricação e montagem)
Acústica Erhardt
Arquitetura de interiores Ana Costa Design
Certificação ambiental Centro de Tecnologia de Edificações (CTE)
Certificação Procel Fundação Vanzolini
Fotos Cacá Bratke

Fornecedores

Belmetal (sistema de fachadas)
GlassecViracon (vidro - projeto e beneficiamento)
Cebrace (vidro float)
Eastman (PVB colorido)
Dow Corning (silicone)

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 93
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