aflalo/gasperini arquitetos: FL 4300, São Paulo

Linguagem contínua nos elementos da fachada

Três edifícios compõem o complexo FL 4300, cada um deles com identidade própria - corporativo, de escritórios e residencial -, porém integrados por uma linguagem contínua, impressa nos elementos arquitetônicos e nas fachadas, o que gerou desafios para a produção das esquadrias, em função das diferentes tipologias aplicadas.

De uso misto, o FL 4300 é composto por três edifícios implantados em formato de U, em área de 13 mil metros quadrados. O vazio que permeia o térreo é ocupado por uma praça arborizada semipública, cuidada pelo empreendimento, mas aberta à circulação de pedestres. Com mais de 1.280 metros quadrados, essa praça se funde visualmente com a do edifício vizinho, em frente do complexo.

Segundo o arquiteto Luiz Felipe Aflalo Herman, a ideia foi criar uma quadra aberta, sem gradil, funcionando 24 horas para incentivar o fluxo de pessoas nas ruas. “Durante os últimos anos, os megaempreendimentos, que buscavam segurança, criaram ilhas na cidade muito seguras internamente, mas inseguras fora. Os muros em volta do quarteirão substituíram as casas e as pessoas que ficavam em suas janelas ou saíam para rua. Com o passar do tempo, as vias ficaram vazias, pouco urbanas. A cidade ficou sem vida”, observou.

Aflalo Herman retoma a história de transformação da região da avenida Brigadeiro Faria Lima para explicar o conceito aplicado ao FL 4300. Lá havia muitas indústrias e galpões e o primeiro prédio construído não tinha janelas para rua, mas voltadas para um grande átrio, funcionando como uma espécie de renda que desviava o olhar dos galpões, deixando-os em segundo plano. Mas os espaços vazios continuavam, pois ao final do dia e nos fins de semana o bairro ficava deserto. “O cenário mudou com a chegada dos shoppings, parques e também por uma questão de estoque de outorgas divididas em residencial e não residencial”, lembra o arquiteto. “Na região da Faria Lima, o caráter é muito comercial, pois com a criação da operação urbana houve um grande desenvolvimento nesse uso. Agora, devido à falta de Certificados de Potencial Adicional de Construção [Cepacs comerciais], a tendência é ter um caráter mais misto, pois só há disponibilidade de Cepacs residenciais. Na prática isso já está ocorrendo”, completa a arquiteta Grazzieli Gomes Rocha.

A proposta do FL 4300 anteviu as condicionantes do plano diretor, que como conceito apresentou uma solução do ponto de vista do potencial construtivo. “Ele faz parte de uma ilha isolada no meio da operação urbana, que não se beneficia do adensamento de quatro vezes a área do lote. O aproveitamento é somente de 2,5 vezes, sendo uma de residencial e 1,5 de comercial. A lei não obriga a fazer um empreendimento misto, foi uma opção do cliente, que a princípio pensou na construção de um hotel, em vez de um residencial”, explica Grazzieli.

Formada por dois lotes - com 6.063,61 e 7,2 mil metros quadrados, destinados, respectivamente, ao edifício corporativo e à construção dos prédios residencial e de escritórios -, a área total do conjunto é aberta para a avenida Brigadeiro Faria Lima e as ruas Elvira Ferraz e Chilon. A concepção dos projetos e suas aprovações foram realizadas separadamente, sem perder o foco no conjunto. Os arquitetos usufruíram do recurso legal que permite fazer uma edificação no fundo do terreno, jogando todo o potencial para o lote de trás. Com isso, a disposição dos volumes em forma de U foi feita a partir da torre corporativa (a mais emblemática, com uma linguagem angulada em sua forma), garantindo à praça e a todo o complexo visibilidade e acesso para a avenida.

Com área construída de 30.674,69 metros quadrados, distribuída em lajes de 860 a 1.075 metros quadrados, a torre corporativa se encontra no terreno frontal. No centro está o prédio de escritórios com volume mais baixo, abrigando salas comerciais de 58 a 94 metros quadrados. Por fim, a última edificação, paralela à corporativa, é reservada ao residencial, com apartamentos de um dormitório e tamanhos entre 35 e 64 metros quadrados.

As características da torre principal se propagaram por todo o empreendimento, criando um partido arquitetônico de volumes prismáticos e cartesianos cortados por diagonais. O recuo do edifício corporativo, somado ao chanfro da fachada, criou um vazio urbano de qualidade. A ideia foi buscar o mesmo endereço para os outros dois prédios, apesar de eles estarem voltados para a praça central. O recuo do edifício de 25 metros evitou o efeito escalonado de uma torre em cadeia e o chanfro promoveu a abertura visual para o vazio urbano com percepção a partir da avenida. »

A praça central integra os edifícios. Todo o térreo é permeável e cruza a área semipública. As marquises metálicas revestidas com painéis de alumínio composto marcam as entradas dos prédios e os interligam. Na torre residencial, o térreo mais fechado abriga o restaurante e toda a área comercial do complexo. “Pela lei, nos edifícios residenciais as áreas consideradas como térreo não são computáveis. No comercial, o hall com até 30% da área do andar não é computável, mas tudo que exceder a isso, mesmo que seja para hall, é. Esse favorecimento de um tipo de uso em relação a outro impôs soluções diferenciadas para o térreo”, explica Aflalo Herman.

SINERGIA
Os edifícios possuem alturas diferentes: o corporativo tem 15 pavimentos, com pé-direito de 4,14 metros; o de escritórios tem 12 andares e o residencial, 17, ambos com pé-direito de 3,42 metros. A altura do prédio de escritórios se deu em função do gabarito, originando um volume horizontalizado, mais baixo, com função importante para o residencial. Como o projeto abriu mão de todo o térreo residencial para o uso público, a área de lazer dessa edificação foi colocada no pavimento de cobertura do prédio de escritórios, totalmente isolada da casa de máquinas. O acesso se faz através de uma passarela, que conecta os dois no 11o andar.

Cada edifício tem sua identidade, porém existe uma costura entre eles, que promove sinergia de linguagem contínua, impressa nos elementos de fachada e arquitetônicos. O escalonamento, no décimo andar, deixa um trecho da torre corporativa na mesma altura do prédio de escritórios, criando conexão visual entre ambos. Apesar de terem usos diferetes, os terraços do residencial se repetem no comercial.

“Para buscar essa sinergia entre os prédios, procurou‑se trabalhar em todas as plantas com planos mais angulados, quinas, linguagem das placas de revestimento e vedação e terraços. É visível a mimetização entre uma fachada e outra. Enquanto a marcação horizontal dos edifícios menores são terraços com faixas brancas, no corporativo foram utilizados brises metálicos e terraços na lateral, que criam espaços inusitados de convívio inseridos a cada dois andares”, lembra Grazzieli.

Um dos grandes desafios foi o projeto e a instalação da caixilharia. Segundo a consultora de fachadas Maria Teresa Godoy, da Arqmate, “os projetos foram desenvolvidos em duas etapas, começando pela torre corporativa. Os três edifícios têm usos e tipologias distintos - fachadas unitizadas, janelas maxim‑ar e esquadrias de correr -, porém com as mesmas características arquitetônicas. A unidade entre eles gerou um desafio para o desenho estético das esquadrias”.

“A produção da caixilharia foi feita em duas linhas de produção na fábrica”, explica Raul Ferreira da Costa Jr., diretor presidente da Cosbiem, empresa responsável pela fabricação e execução das fachadas dos edifícios residencial e comercial. Foram aplicadas 95 toneladas de alumínio nas duas fachadas, concluídas em oito meses. Os trabalhos começaram pelo prédio residencial, mas depois seguiram simultaneamente em ambos.

TORRE CORPORATIVA
A envoltória da torre corporativa recebeu o sistema de fachada unitizada OffSet Wall 120 milímetros, composto por módulos produzidos com vidros, granito e brise. A caixilharia, fabricada com perfis de alumínio de 120 milímetros (pintura eletrostática na cor cinza RAL 7.024 B, camada anódica de 60 micra), recebeu vidros laminados de controle solar na cor azul, com 12 milímetros de espessura, fator de proteção solar de 36%, coeficiente de sombreamento de 0,41 e transmissão luminosa de 35%. De acordo com a diretora de marketing e produto da GlassecViracon, Cláudia Mitne, “a especificação dos vidros desta obra levou em conta a demanda dos arquitetos por diferenciais técnicos e estéticos adequados a um complexo de uso misto, que assegurasse equilíbrio entre transparência e reflexão, com foco na eficiência energética, além da segurança proporcionada pelos laminados”.

Lucínio dos Santos, diretor comercial da Luxalum, empresa responsável pela execução da fachada da torre corporativa, explica que “o projeto especificado para se produzir a fachada era com o sistema stick, independente dos trechos com granito. Mas, para dar agilidade ao processo e evitar a interface dos instaladores do granito com os demais itens, a parceria entre Luxalum, Belmetal e Arqmate desenvolveu o projeto de fachada unitizada, incluindo a fixação das placas de granito através de suporte de aço, parafusos e chumbadores, no painel unitizado”.

Para garantir sombreamento em áreas de maior insolação, foram instalados brises com palhetas de alumínio horizontais, com 500 milímetros de profundidade, fixados por perfil de aço inox no painel unitizado. A frente de laje foi revestida com shadow box de painéis de alumínio composto. Nas áreas de terraço, há guarda‑corpos compostos por gradis com perfis tubulares de alumínio e vidros encaixilhados.A envoltória está dentro de uma moldura constituída de uma estrutura metálica em volta do edifício, solta no coroamento, revestida com placas de granito externamente e painéis de alumínio (acabamento padrão aço corten), no lado interno. Nos outros edifícios utilizou-se massa para o revestimento com detalhes que lembram o aço corten. A ideia era ter a mesma linguagem, variando o material e mantendo a cor. »
Para dar continuidade à moldura, a placa desce a fachada e projeta-se para fora do corpo do edifício, prolongando-se na horizontal, na direção da avenida Brigadeiro Faria Lima, sobre a marquise. Nesse trecho a placa tem 5,55 metros de largura, 32,90 de comprimento e 6,75 de altura. Instalada sobre a marquise de 12,35 metros de largura, 29,80 de comprimento e pé-direito de 4,60, ela funciona como uma segunda cobertura do hall do térreo, vedado com o sistema de fachada stick. Devido ao pé-direito de sete metros, a instalação da caixilharia exigiu internamente a adoção de colunas de alumínio e reforços de aço galvanizado a fogo pintados e isolados com fita anticorrosiva, para evitar o contato entre o alumínio e o aço.

TERRAÇOS FUNCIONAIS 
“Os terraços dos edifícios FL Residence e FL Office, com salas menores destinadas a pequenos escritórios, foram boas soluções para o projeto por uma questão de sombreamento, técnica e financeiramente para o incorporador, por ser uma área a mais para ele vender que não entra no índice contabilizado pela prefeitura”, lembra Grazzieli. O segundo possui terraços com autonomia muito grande, pois, além de serem um elemento de sombreamento, dão liberdade para cada ocupante ter o seu próprio ar-condicionado. Para o seu guarda-corpo foi utilizada a linha Universal da Alcoa com fixação por pontaletes de alumínio, chumbados numa área de 2.340 metros quadrados.

As fachadas do FL Office foram executadas com o sistema unitizado. Os vidros laminados de dez milímetros, na cor azul, foram colados com silicone estrutural bicomponente em perfis de alumínio da linha Unit da Alcoa com acabamento de pintura eletrostática RAL 7.024. Nelas também foram utilizadas janelas maxim‑ar com fecho tipo cremona com diversos pontos de travamento. As juntas entre os quadros de vidros foram vedadas com gaxetas EPDM. Para o térreo com pé-direito de 4,40 metros, o sistema adotado foi o stick da linha Cittá Due, produzido com perfis de alumínio e vidros laminados incolores de dez milímetros.

A composição da fachada do edifício residencial se contrapõe à pele de vidro da torre corporativa. No FL Residence, o fechamento do vão de cerca de 7,5 metros se dá por porta de correr do sistema Schüco. O vão está dividido em três folhas com altura de 2.665 milímetros e largura que chegava a 2.547 milímetros. Cada folha é produzida com vidro laminado temperado incolor, sem reflexão, de 14 milímetros. Os vidros estão encaixilhados e fixados com baguete nos perfis de alumínio com pintura eletrostática com camada mínima de 60 micra, na cor RAL 7.024. A área de esquadrias do edifício residencial é de 2.689 metros quadrados.



Ficha Técnica

FL 4300
Cliente Stan/SDI/Bramex
Local São Paulo, SP
Área do terreno 7.200 m2 (residencial e escritórios); 6.063,61 m2 (corporativo)
Área construída 40.008,76 m2 (residencial e escritórios); 30.674,69 m2 (corporativo)
Projeto 2009
Conclusão da obra 2015
Arquitetura Luiz Felipe Aflalo Herman, Gian Carlo Gasperini, Roberto Aflalo e Grazzieli Gomes Rocha (autores); Alfredo del Bianco (coordenação); Eduardo Mizuka, Reginaldo Okusako, André Navarro, André Vieira, Felipe Farah e Renata Conti (colaboradores); Marcela Valério (estagiária); Marcelo Nagai e Raquel Rodorigo (3D)
Construção RFM (corporativo); Gafisa (residencial e escritórios)
Fachadas Arqmate (consultoria); Luxalum (execução/corporativo); Cosbiem (execução/residencial e escritórios); Luxalum e Arqtec (painéis de alumínio composto)
Climatização  Thermoplan
Estrutura de concreto  SVS
Estrutura metálica Alaxis
Certificação ambiental CTE
Fotos Ana Mello

Fornecedores

Corporativo 
Glassec (estudos e beneficiamento de vidro)
Guardian (vidro float)
GE/Momentive (silicone)
Belmetal (sistemas de fachadas)
Alcoa (painéis de alumínio composto e guarda-corpos)
3M (fita anticorrosiva)

Residencial 
Schüco (sistemas de janelas e portas de alumínio)
Glassec (estudos e beneficiamento de vidro)
Guardian (vidro float)
Alcoa (guarda-corpos)

Escritórios 
Alcoa (perfis de alumínio)
Glassec (estudos e beneficiamento de vidro)
Guardian (vidro float)
Alcoa (guarda-corpos)

Texto de Gilmara Gelinski| Publicada originalmente em Finestra na Edição 91
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